Eternidade

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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Os dois caminhos



Podemos edificar os sentimentos da Divindade por dois meios: 
o primeiro pelo bom aproveitamento e observação das experiências da vida;
o segundo pelo estudo.


Fé: no sentido comum, a crença em algo constitui a fé. Normalmente inata, manifesta-se pelo seu caráter natural em aceitar as coisas e realidades conforme se apresentam, sem mais indagações.[1]

Quem dera eu tivesse nascido com a fé de Chico Xavier! Por qual razão não possuo a fé de Divaldo Franco, Madre Teresa, entre outros exemplos de fé inquebrantável? Como fizeram para agradar o Magnânimo que, em retribuição, os aquinhoou com esta preciosa dádiva?! Qual o poder desta virtude, capaz de modificar o presente e moldar o futuro? Nasci assim, sem fé; e agora?

Estas, entre outras, são indagações lançadas ao Alto, às vezes com um sentimento surdo de revolta por todos aqueles ainda não detentores desta primordial virtude, a qual, mesmo que seja do tamanho de um grão de uma mostarda, pode mover montanhas, conforme asseverou o Cristo.

Ó meu Senhor Misericordioso, o que eu não daria para deter uma parcela que fosse, pequenina, ínfima, uma bagatela de fé! Já me bastaria para realizar verdadeiros milagres, em favor meu e dos mais próximos.

A nossa imaturidade espiritual crê que a Divindade, ao nos encaminhar de volta à Terra pela reencarnação, por um passe de mágica, um desejo particular, uma predileção qualquer, comunica a este e não àquele as muitas virtudes que nos cabem conquistar com o nosso esforço e não simplesmente obtê-las por um capricho de Deus.

É da lei divina: seremos relativamente perfeitos, detendo as numerosas virtudes, inclusive a fé, mãe de todas, mas para alcançar esta meta é preciso empenho, dedicação, constância; agindo assim ao longo de várias existências, pouco a pouco, podemos construir em nós mesmos as seguras fundações para, sobre elas, erigir o majestoso edifício das virtudes que nos conduzirão à felicidade plena tão buscada e desejada.

A consoladora Doutrina dos Espíritos elucida sobre a existência de duas possíveis condutas, permitindo-nos lentamente edificar os sentimentos nobres que a Divindade deseja que adquiramos: a primeira se dá pelo bom aproveitamento e observação das experiências da vida em si mesma; a segunda, através do estudo.

O desenrolar da existência sempre nos traz oportunidades de reflexão sobre a perfeição das leis do Incriado. Da observação dos fatos corriqueiros podemos retirar variadas lições, descortinando a sempre presente solicitude da providência invariavelmente a nosso favor. Recolhendo aqui e ali percepções acuradas, podemos consolidar um entendimento de estar Deus no comando, com tudo acontecendo para nos beneficiar, visando ao nosso progresso; mesmo as chamadas desgraças nos trazem alertas sobre o modo como procedemos na atual existência.

Há bom tempo temos o costume de, quando em situação de dúvida ou incerteza, ou uma fase mais delicada da vida, orar; e após esta oração, abrir ao “acaso” uma mensagem destes preciosos livros espíritas, que nos trazem instrutivas abordagens sobre os mais variados assuntos. É surpreendente a quantidade de vezes em que o texto oferecido à nossa reflexão, naquele peculiar momento, aborda exatamente a questão a nos preocupar, seja ela qual for. É uma experiência única e bem pessoal à nossa disposição, quando nos convencemos da presença de nosso particular guia espiritual permanentemente ao nosso lado, atento e prestimoso, cuidadoso e solícito, paciente e cordato, sempre nos oferecendo algumas palavras de esclarecimento ou de conforto, oriundas de sua avançada sabedoria. Esta prática é uma das mais simples ao alcance de todos, contudo, de imensa importância para Espíritos vacilantes como todos nós ainda o somos.

O caminho paralelo de aprendizado das virtudes ocorre pelo estudo continuado das leis eternas. Quando Allan Kardec registrou a inolvidável frase[2]: “Fé inabalável é somente a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade”, deu a conhecer o lado racional e intelectivo desta nobre faculdade até então totalmente desconhecido, pois as religiões nada ensinavam neste sentido e algumas, com pesar, ainda o fazem. Basicamente, fé se possuía ou não, se nascia com ou sem ela.

O insigne lionês — através dos Espíritos superiores a acompanhá-lo em sua importantíssima missão — nos mostrou a possibilidade desta virtude ser desenvolvida, cultivada, trabalhada, estudada; isto através do correto conhecimento e justa percepção das leis divinas.

Para facilitar a aquisição deste entendimento, não há melhor indicação do que o estudo da literatura espírita, iniciando de preferência com os primeiros cinco livros de Allan Kardec, as conhecidas obras fundamentais ou básicas, dando prosseguimento à análise das obras subsidiárias.

Conjugando estas duas vertentes, é possível elaborar de maneira coerente a nossa fé, não mais desejando possuir a fé dos outros, pois cada qual vivencia as virtudes que fez por merecer, porquanto trabalhou no passado com afinco, dedicação, perseverança, sendo a fé exemplo inquestionável de um dos tesouros, que uma vez obtido a traça não rói, tampouco a ferrugem destrói, muito menos pode ser roubada pelos ladrões, permanecendo conosco pela eternidade.


1. FRANCO, Divaldo P. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 2.ed. cap. 14. Rio de Janeiro: FEB, 1982. 
2. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2.ed. 1.imp. cap. 19, it. 7. Brasília: FEB, 2013. 


Fonte: Jornal O Clarim, outubro/2018, por Rogério Miguez.


quarta-feira, 11 de julho de 2018

Diferentes Corpos Celestes


Diz o Espiritismo que logo a Terra será um planeta de regeneração


Classificação feita por Allan Kardec define as diferentes categorias de mundos pela sua finalidade e de acordo com o estágio evolutivo dos Espíritos que o povoam. Determina, igualmente, a densidade material de cada mundo, que é o que define o tipo de corpo necessário para viver nele, qual seja mais pesado ou mais leve.

Quando se diz que a Terra é um mundo de provas e expiações, pressupõe-se que ela é habitada por Espíritos imperfeitos que carecem de aprimoramento cultural, moral a espiritual. Essa imperfeição nem sempre está relacionada com a maldade dos seres, mas, principalmente, com a ignorância que ainda apresentam. Nossos erros são cometidos muito mais por desconhecimento do que por malignidade.

Os que fazem mal propositadamente são minoria em nossa sociedade. O mais comum é alguém bem-intencionado imaginar que está certo quando, na realidade, age equivocadamente. Às vezes, excessivamente moralista, prejudica as pessoas mais simples, de boa-fé, e que ainda não têm condições de ser como ele gostaria. Exige do outro o que nem mesmo ele pode compreender. Para defender a disciplina, deixa até de praticar a caridade.

Com a passagem da Terra de mundo de expiações para mundo de regeneração, um pouco menos imperfeito do que está o planeta atualmente, quem desejar viver na Nova Terra terá de ser bem melhor do que é agora. Mas o que significa ser melhor, segundo esta definição?

A nós parece que bastam algumas virtudes fáceis de serem conseguidas. Por exemplo: honrar a palavra dada como respeito ao semelhante, pontualidade, assiduidade, perdoar as ofensas, vencer o orgulho e o egoísmo, ter paciência. Não se concebe que um espírita, que se diz candidato a viver no mundo novo, seja leviano em suas atitudes. Assume um trabalho e não comparece para executá-lo; matricula-se num grupo de estudos, porém falta mais do que comparece; chega habitualmente atrasado aos compromissos, incluindo a reunião espírita que tem horário estabelecido para início; entre outras coisas mais graves.

Não se pode, igualmente, testemunhar atitudes de extremo desequilíbrio, melindre, ira incontrolada, vaidade pueril e egoísmo contumaz naquele que se diz candidato a viver no mundo novo, na Nova Terra. Assim como o apego às posições e honrarias do mundo que ficarão por aqui quando formos embora, porque não têm valor.

A propalada reforma íntima e o desprendimento dos bens terrenos, tão apregoados pelo Espiritismo, têm por finalidade aconselhar-nos a sermos melhores enquanto caminhamos. Quem não se libertar dos defeitos mundanos agora, não terá acesso ao mundo mais purificado, porque ele será habitado por pessoas mais simples, mais humanas, mais fraternas, quando a solidariedade, que é exceção no mundo atual, será a regra da nova sociedade terráquea.

Quem pode provar que isso é verdade e vai realmente acontecer?

Jesus disse que seu reino não era deste mundo, que nós somos deuses e quando quiséssemos seríamos tão bons e perfeitos quanto Ele. Completando, Kardec faz a escala dos mundos e explica que eles se aprimoram como as pessoas e a natureza determina o novo ambiente de vida. Se nos foi advertido que deveríamos guardar tesouros no céu, os que forem guardados na Terra perderão seu efeito e serão imprestáveis para uso no ambiente renovado do mundo de regeneração.

Para os que acreditam na existência única e que tem na morte o final da vida, mesmo que ainda aceitem a sobrevivência da alma, este comentário é pueril. Para nós que cremos na orientação dos Espíritos e testemunhamos diariamente, inclusive por vasta literatura, que tudo segue um processo de aperfeiçoamento, ser negligente diante dessa possibilidade de crescer agora pode nos custar dores inimagináveis. A quem mais for dado, mais será pedido. Se temos o conhecimento e ele representa a verdade que liberta, desprezar essa advertência será pura infantilidade; uma nova oportunidade poderá ser demorada e dolorosa.

É bastante conhecido nos meios espíritas o episódio envolvendo o planeta Capela, da Constelação do Cocheiro. Muitos foram extraditados para a Terra para ajudar os habitantes do nosso planeta com seus conhecimentos técnicos e científicos, ao mesmo tempo em que aprendiam com os trabalhos de caridade a amansar seus corações e domar seu orgulho. O intercâmbio é perfeito e as oportunidades são dadas aos que as conquistam por esforço e determinação.


Não há benesses para quem não merece, porque a cada um será dado segundo suas obras. Se quiser morar na Nova Terra, construa desde já seu lar no novo mundo. Ainda que seja, provisoriamente, um lar fluídico de característica espiritual. Mais tarde, no tempo certo, ele será materializado e lhe dará grande prazer. É questão de justiça!


Fonte: Revista Internacional de Espiritismo, julho/2018

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Sintonia e harmonização energética



A vontade é uma força de alta capacidade, principalmente quando associada 
a pensamentos e sentimentos elevados.

por Ricardo Di Bernardi


Nossos sentimentos são propagados por ondas e cada tipo de emissão mental produz ondas peculiares. De uma maneira didática, diríamos que há ondas longas, médias, curtas e ultracurtas, conforme a natureza do pensamento emitido.

O ser humano, encarnado ou desencarnado, encontra-se mergulhado em um oceano de ondas, mas estabelece contato e intercambia energias conforme a sintonia que abre com o universo.

Do intercâmbio que estabelecemos entre nossas emanações mentais e as ondas externas, criamos em nossa psicosfera – aura – um estado de equilíbrio ou desequilíbrio que é dinâmico, ou seja, pode ser alterado constantemente.

Denominamos harmonização energética a postura que nos leva à circulação saudável de nossas energias extrafísicas. Toda e qualquer prática que melhore a qualidade das energias de alguém, eliminando e transformando energias pesadas e prejudiciais é, pois, um trabalho de harmonização energética.

Na realidade, a “limpeza” energética não precisaria ser promovida de fora para dentro ou por terceiros, pois todos nós temos o Deus interno, uma força interior suficiente para a resolução de todos os problemas. Frequentemente, entretanto, nos fragilizamos e sentimos a necessidade de recorrer ao auxílio de outros mais experientes, psiquicamente mais organizados ou até momentaneamente mais equilibrados.

Teoricamente, qualquer criatura está habilitada, pela própria natureza, a promover sua limpeza ou harmonização energética mantendo-se em equilíbrio. Todos nós somos capazes de captar, transformar e emitir energias, bastando para isto enviar pensamentos e sentimentos adequados, por meio da vontade. Sucede, no entanto, que nos deixamos fragilizar.

Ao se mencionar a expressão “força de vontade”, tem-se a ideia de algo muito subjetivo ou mesmo uma força de expressão, no entanto, a vontade é uma força que, quando mobilizada por nós, pode muito, principalmente quando associada a pensamentos e sentimentos elevados, pois estes formam poderosas ondas ultracurtas e de alta frequência.

A clássica expressão “mover montanhas” referindo-se às dificuldades, sejam dores, perseguições, traumas, entre outras, dá uma dimensão simbólica da força que possui um pensamento superior, intensificado pela vontade. Trata-se de uma força natural que todos nós possuímos em potencial, basta saber acioná-la.

A ação da nossa vontade, aliada ao pensamento superior, gerando ondas de alta frequência, pode propiciar em nós mesmos uma limpeza energética contínua, evitando que influências negativas (de baixa frequência) vindas do ambiente ou de outras mentes – sejam encarnadas ou desencarnadas – adentrem nosso campo energético e interfiram em nosso bem-estar.

Além da capacidade natural que todos nós temos de realizar nossa própria higiene e harmonização energética, é possível dispor de diversos métodos que podem nos auxiliar nesse processo, facilitando o fluxo de energias e promovendo a sua harmonização.

Os métodos de harmonização energética são conhecidos por nomes diversos e têm origens históricas e culturais diferentes, mas se assemelham no resultado final, isto é, a perceptível melhora da pessoa. Assim, a prece não decorada ou maquinal, mas como uma elevação do pensamento e do sentimento, buscando alçar níveis mais sutis de energias, alcança a dimensão espiritual e recebe um influxo de luz como retorno. A doação de energia pelo passe, seja ele espiritual ou magnético; a bênção quando efetuada com envolvimento profundo da alma e não como ritual; o “johrei” executado pelos messiânicos; a popular benzedura; a aplicação criteriosa do reiki; os métodos de cura prânica; a medicação homeopática que mobiliza energias; a acupuntura; o ioga e tantos outros procedimentos, muitos deles utilizando o poder das pontas das mãos como instrumento de doação energética.

Lembramos que, embora muitos procedimentos colimem para o mesmo resultado, devem ser aplicados em ambientes adequados e afins com a filosofia, cultura ou religião de cada meio. Prece, passes, irradiação mental e água energizada são os métodos utilizados em uma casa espírita.

A física reconhece e explica o chamado “poder das pontas”. São diversos os métodos que captam, de dimensões extrafísicas, energias diversas, com ou sem intermediários, mas, fundamentalmente, procedem do fluido cósmico universal. Essa energia é captada pelos pensamentos e sentimentos do doador, se concentra nas mãos e em seguida é irradiada e direcionada, principalmente pela vontade do doador que transmite, em geral, pela ponta dos dedos.

Lembremo-nos que estamos mergulhados em um mar de energias e de princípios espirituais. Todos somos espíritos encarnados ou desencarnados, cercados de energias mentais desta ou de outras dimensões em todos os momentos da nossa existência. Nunca estamos sozinhos, por mais solitários que nos sintamos, portanto, somos influenciados por espíritos e ao mesmo tempo nós também os influenciamos.

Nos médiuns essa influência recíproca é mais verdadeira e mais intensa, pois há um canal natural de contato com a dimensão extrafísica. Constantemente, médiuns estão intercambiando energias, mesmo que inconscientemente, com encarnados e desencarnados e em razão disto podem sofrer agressões energéticas que poderão ser neutralizadas e transmutadas ao chegar na psicosfera do médium, isto se a se energias intrusas receberem o impacto de pensamentos de alegria, trabalho, amor e fraternidade. Assim se anularão e se modificarão em energias saudáveis.


Fonte: Jornal O Clarim - dezembro/2016

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Os trabalhadores da última hora

 "O tempo não é condição demarcatória para candidatar-nos 
a ser ou não cristãos,
mas sim nosso comportamento diante da mensagem.


“O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha.”

Deus, este Pai de família que cria incessante e obstinadamente, convida todos nós a trabalhar na sua vinha, em sua obra. Alguns chegaram muito antes, outros depois, enquanto há aqueles que ainda não despertaram para a verdade bendita, a transformação moral que O Evangelho Segundo o Espiritismo, a Doutrina Cristã e o Mestre Jesus vieram nos ensinar.

Em suas passagens evangélicas, Jesus sempre traz, na simplicidade do ensino, as experiências pessoais do povo. Nós, espíritas, fazemos o mesmo para convocar as pessoas a um pensamento, a um entendimento mais fácil, para que depois, cada um à sua maneira, possa trazer para a sua vida pessoal e para as suas experiências a compreensão daquela mensagem. Jesus sempre traz um elemento pedagógico para fixar o aprendizado.

“Tendo convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. – Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, – disse-lhes: Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram.”

A questão do denário é para explicitar a vinculação ao pagamento, entendendo-se aqui que foi estipulado um valor como provento pelo serviço prestado. Outro ponto a ser destacado neste trecho: pagará o que for razoável. Todos nós que nos dedicamos à labuta espírita, falando dos trabalhadores em particular, nos convencionamos, mesmo que implicitamente, a um “salário”. Este pode ser pago através da prece ou acreditando que os bons Espíritos, alguma obra ou algo de bom nos ajudarão nos momentos de sofrimento.

Estipulamos algo, um pagamento, mesmo de forma inconsciente, proporcional àquilo que estamos fazendo. Vivenciar, pois, o altruísmo é algo difícil de ser verificado. Significa sair e deixar de enxergar a si próprio e passar a observar a necessidade do outro, sem esperar algo em troca. Podemos não esperar do outro, mas esperamos dos Espíritos, da Divindade, da Lei, de alguém. De alguma forma combinamos uma retribuição, uma restituição por aquilo que estamos fazendo. Então, por analogia, todos aqueles que eram convocados a trabalhar na vinha daquele senhor esperavam receber o pagamento razoável diante de seu trabalho.

“Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. – Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É, disseram eles, que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a minha vinha.”

A questão das horas destacadas explica-se porque, à época, o dia de trabalho começava às seis horas da manhã e terminava às dezoito horas. As horas em questão são respectivamente: seis, doze, quinze e dezessete horas. A hora undécima, correspondia às dezessete horas, sendo este o elemento estranho da passagem.

Aos que desejamos trabalhar na Vinha do Senhor, que procuramos por essa renovação moral, por essa transformação de nós mesmos, que buscamos o melhoramento, que temos como ponto de partida a modificação interior para chegarmos à perfeição, para todos nós, não importa a hora da vida que acordamos para a verdade eterna. Se são nas nossas primeiras horas da encarnação, alguns adentram na adolescência, outros na fase adulta, uns na idade madura, outros às portas de desencarnar, na hora undécima, mas todos somos convidados pelo Senhor.

Que importa em que momento estamos? Todos nós abraçamos a Doutrina Espírita, voltando o olhar para esta mensagem rediviva que nos cala fundo e nos diz que existe uma vida melhor, bastando nos colocarmos à disposição dessa modificação, trabalhando por nós, melhorando quem somos no silêncio do aprendizado.

“Ao cair da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros.”

Mesmo entre os espíritas este trecho causa certo desajuste. Esquecemos que nosso acordo foi com a Lei, com a própria consciência, não com os homens. Aportamos numa instituição e nos candidatamos a realizar trabalhos, abraçando um após outro, e às vezes verificamos que outro companheiro espírita realiza somente um e é ovacionado. Tal fato pode causar descontentamento. Mas será que ao absorvermos os trabalhos que nos foram ofertados, realmente entendemos o sentido da obra ou queríamos tão somente ser bem quistos pela coletividade?

“Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um denário cada um. – Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber mais; porém, receberam apenas um denário cada um. – Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, – dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso do dia e do calor. Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. – Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom? Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos.” (S. MATEUS, cap. XX, vv. 1 a 16.)

Quando nos dedicamos a qualquer obra, inclusive a de renovação íntima, acordamos com a Divindade o que entendemos como sendo bom e razoável. Somos, contudo, tão infantis espiritualmente que quando vemos nosso próximo recebendo um pouco mais do que estamos recebendo, e acreditamos que ele não se esforçou tanto quanto nós, reclamamos com a Divindade, esquecendo-nos da carga reencarnatória de méritos que possuímos e o porvir da criatura.

Às vezes estamos há décadas na Doutrina Espírita, mas ela não completou um ano em nossas vidas, enquanto outros adentraram há pouco e já a incorporaram plenamente. O tempo não é condição demarcatória para candidatar-nos a ser ou não cristãos, mas sim nosso comportamento diante da mensagem. Somos todos trabalhadores da última hora, sendo convocados incessantemente pelo Pai, num convite amoroso a trabalharmos na sua Vinha de Renovação.
 
por Walkiria Lucia de Araujo Cavalcante
Revista Internacional de Espiritismo - março/2018


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

DOR EVOLUÇÃO




Dor Evolução

Desde as mais remotas épocas, o homem foi sempre vitimado pela dor e, incansavelmente, buscou entender as suas causas. Adotou práticas místicas e cabalísticas, elaborou teorias de formas de vida e de crença no intuito de se livrar ou minimizar as consequências da dor. Seitas, religiões e filosofias vêm buscando na vida material, e fora dela, explicações para as catástrofes, flagelos, doenças, aleijões humanos e outras perturbações que promovem a aflição. Expiação dos pecados; provação para o exercício da fé; consequências dos desvarios da humanidade na busca do prazer vulgar e imediato, e aguilhão necessário ao progresso tecnológico e moral do homem têm sido explicações adotadas para justificar a razão do sofrimento.

O entendimento da natureza e do papel que a dor ocupa na história da humanidade passam pela abordagem dos traços culturais e antropológicos dos homens atingidos por esse fenômeno tão complexo, não aceito com naturalidade pela maioria de todos nós. Daí a diversidade de interpretação sobre ela.


Antiguidade 

Os sábios da Antiguidade grega teorizaram sobre a natureza da dor e formas de evitá-la ou minimizar a sua ação. Platão (427-347 a.C.) afirmou que “A dor ocorre quando a proporção ou a harmonia dos elementos que compõem o ser vivo é ameaçada ou comprometida”. Assim, segundo o discípulo de Sócrates, vivendo em harmonia consigo mesmo e com a Natureza, o homem se livra da dor. Epicuro (341-270 a.C.) admitia que a dor era uma consequência da busca do prazer vulgar e desmesurado. Zenon de Cicio (334-262 a.C.), fundador do estoicismo, ensinava que as paixões são as causas do sofrimento e que, para evitá-lo, deveria o homem seguir a natureza, aceitando o destino e conservando a serenidade em qualquer circunstância.

O judaísmo, por sua vez, entendia a dor como um castigo divino pela desobediência, resquício de um impiedoso atavismo do “pecado original”. Quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, Jeová castigou a mulher a dar à luz com dor e ao homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto. A história de Jó, no Antigo Testamento, é forte testemunho desse complexo de culpa. Jesus desenvolveu esforços para desfazer essa concepção de dor-castigo, quando bem-aventurou os aflitos, assinalando que o sofrimento seria oportunidade de purificação da alma.  


Idade Média e Mediunidade

Durante a Idade Média, os homens, interpretando mal a dinâmica da vida, aplicavam a dor como instrumento de justiça e de repressão, submetendo os condenados a sessões de torturas públicas, acreditando que assim educaria o povo a obedecer às ordens emanadas do Estado e da Igreja. Fortalecida pela Igreja, a cultura judaico-cristã insistia que a doença era um castigo divino ou forma de advertência ao povo pecador. Doenças incuráveis à época, tal como a lepra, e as epidemias que assolavam milhares de vidas, enquadravam-se na visão de um deus antropomórfico caprichoso e vingativo que refletia as características morais do homem medieval, que não via as causas daqueles flagelos na falta de saneamento básico, na alimentação inadequada e no descuido com a higiene pessoal.

No início do século XVIII houve um salto e o filósofo inglês Alexander Pope (1688-1744) ensinava que se deveria considerar a dor individual como um sofrimento parcial a serviço de um bem universal, alertando, sem dúvida, para os cuidados que se deveriam ter no alastramento das infecções. O Arquidiácono William Paley (1743-1805) pensava da mesma forma: administrava aos estudantes de Cambridge que a dor de um era um mal menor, destinado a proteger a humanidade de um mal muito maior. Exemplificava que uma doença nos dedos dos pés era uma advertência providencial para reduzir o consumo de álcool, que posteriormente poderia provocar uma crise de gota. Aqui, nos parece uma referência à dor-auxílio, de que André Luiz vem conceituar muito bem.


A Dor e o Espiritismo

Como a dor, algo tão negativo, do ponto de vista humano, pode ser um benefício para a criatura que Deus criou pare ser feliz? E aqui grifo o termo criatura, porque não é somente o ser racional que experimenta o sofrimento, mas também os irracionais.

A Doutrina Espírita veio trazer a resposta a essa interrogação. A pluralidade das existências é a solução racional que se coaduna com a Justiça e Bondade divinas, para justificar a existência da dor, cujas causas podem ser encontradas na atual existência ou em outras. A dor não é castigo, não é capricho e nem ira do Criador com a sua criatura. “Por mais admirável que possa parecer à primeira vista, a dor é apenas um meio de que usa o Poder Infinito para nos chamar a si e, ao mesmo tempo, tornar-nos mais rapidamente acessíveis à felicidade espiritual, única duradoura”.

Mais recentemente, o Espírito André Luiz nos trouxe valiosas contribuições que aprofundam-nos compreensão exata do sofrimento humano, quando nos ensina que a dor tem naturezas e papéis diferenciados no processo de nosso progresso moral e espiritual, existindo, portanto, dor-expiação, dor-auxílio e dor-evolução. Explica ele que “[...] a dor-expiação, que vem de dentro para fora, marcando a criatura no caminho dos séculos, detendo-a em complicados labirintos de aflição, para regenerá-la, perante a Justiça [...].” Quanto à dor-auxílio adianta que “[...] pela intercessão de amigos devotados à nossa felicidade e à nossa vitória, recebemos a bênção de prolongadas e dolorosas enfermidades no envoltório físico, seja para evitar-nos a queda no abismo da criminalidade, seja, mais frequentemente, para o serviço preparatório da desencarnação, a fim de que não sejamos colhidos por surpresas arrasadoras, na transição da morte. O enfarte, a trombose, a hemiplegia, o câncer penosamente suportado, a senilidade prematura e outras calamidades da vida orgânica constituem, por vezes, dores-auxílio, para que a alma se recupere de certos enganos em que haja incorrido na existência do corpo denso, habilitando-se, através de longas reflexões e benéficas disciplinas, para o ingresso respeitável na Vida Espiritual.” Parece-nos que William Paley já fazia referência a essa modalidade de dor...  


A Dor-Evolução 

Há quem pense, mesmo entre espíritas, que o sofrimento é sempre uma punição, que a criatura está enfrentando adversidades por que merece... Mas nem sempre é assim. Será imprudência generalizar a natureza da dor de cada um. “A dor é ingrediente dos mais importantes na economia da vida em expansão. O ferro sob o malho, a semente na cova, o animal em sacrifício, tanto quanto a criança chorando, irresponsável ou semiconsciente, para desenvolver os próprios órgãos, sofrem a dor-evolução, que atua de fora para dentro, aprimorando o ser, sem a qual não existiria progresso”.

Na cura do cego de Siloé (Jo 9:1-41), Jesus responde aos que lhe desafiavam a sabedoria e o poder, que nem o cego nem os seus pais haviam pecado para que se justificasse sua condição de cego de nascença, mas que ali estava para que nele se manifestassem as obras de Deus, permitindo inferir que haja quem sofra sem está em débito com a contabilidade divina. Interrogado a respeito dessa passagem evangélica, o Espírito Vianna de Carvalho confessa acreditar realmente no que ficou registrado pelo apóstolo de Patmos. Na mesma linha de raciocínio, o Codificador, com sua peculiar lucidez e bom-senso, admite, no caso, que “se não era uma expiação do passado, era uma provação apropriada ao progresso daquele Espírito, porquanto Deus, que é justo, não lhe imporia um sofrimento sem utilidade”. (Grifamos)

Embora tenhamos a certeza que muitos Espíritos sem carma reencarnam na Terra por amor a alguém ou por algum ideal e submetendo-se às leis da matéria sofram sem merecerem, raros são os registros que nos permitem afirmar com convicção esse ou aquele caso. Mas o Espírito Emmanuel nos revela dois desses casos. Quem ler os livros Ave Cristo e Renúncia pulando o 1º capítulo de cada um deles, vai admitir que as dores por que passaram Quinto Varro e Alcíone foram expiações por faltas do passado. Mas não foi bem isso.

No Ave Cristo, Quinto Varro solicita a Clódio – entidade de esfera superior – seu regresso à Terra para auxiliar Taciano, que fora seu filho na última existência e que não conseguira conduzi-lo ao Cristo como pretendera, e a resposta foi:

“- Mas, por quê? Conheço-te o acervo de serviços, não somente à causa da ordem, mas igualmente à causa do amor. No mundo patrício, as tuas derradeiras romagens foram as do homem correto até ao extremo sacrifício e os teus primeiros ensaios na edificação cristã foram dos mais dignos. Não será aconselhável o prosseguimento de tua marcha, acima das inquietantes paisagens da carne” . (Grifamos)

No Renúncia, Alcíone, Espírito de elevada hierarquia, prestando serviços no sistema de Sírius, dirige-se a Antênio, seu mentor, que cumpria as ordenações de Jesus, solicitando sua volta à Terra, para cooperar com Pólux, seu eterno amor. Depois de muito argumentar, não concordando com seu retorno, já que não acreditava que Pólux estivesse pronto para merecer seu sacrifício, diz-lhe:

“- Recorda que as leis planetárias não afetam somente os espíritos em aprendizado ou reparação, mas, também, os missionários da mais elevada estirpe. Experimentarás, igualmente, o olvido das tuas conquistas, sentirás o mesmo desejo de compreensão e a mesma sede de afeto que palpitam nos outros mortais.” (Grifamos.)

Diante dessas revelações, podemos concluir que a dor não é somente produto da consciência culpada. “Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste mundo denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes são simples provas buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação.” Nos casos de Quinto Varro e Alcíone, foram eles provados na sua grandeza moral, alcançando patamares mais elevados do progresso espiritual pelos seus sacrifícios em nome do amor.

“Pela dor – afirma Denis -, descobre-se com mais segurança o lugar onde brilha o mais belo, o mais doce raio da verdade, aquele que não se apaga”. E, nessa linha, lapidou o poeta Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825 - 1889): “Quem passou pela vida em branca nuvem,/E em plácido repouso adormeceu;/Quem não sentiu o frio da desgraça,/Quem passou pela vida e não sofreu;/Foi espectro de homem, não foi homem,/Só passou pela vida, não viveu.”

 
Waldehir Bezerra de Almeida
Artigo retirado do site de "O Clarim" 
Fonte: Forum Entendimento Espírita 

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Santíssima Trindade



A trindade, dogma da união de três pessoas distintas - Pai, Filho e Espírito Santo - em um só Deus, o Mistério da Santíssima Trindade, tem sua origem em antigas religiões; logo, é anterior ao cristianismo, bem como outros dogmas que as religiões cristãs acolheram numa espécie de herança daqueles que elas julgam como religiões pagãs. Não é um contra-senso? 

Assim, as religiões dogmáticas cristãs copiaram as trindades originadas das religiões mais antigas, das quais, citaremos apenas três: brahmânica, egípcia e babilônica. Brahma, Siva e Vishnu, dos hindus; Osíris, Ísis e Orus dos egípcios; Ea, Istar e Tamus, dos babilônios. Existem outras, mas, para abreviar, ficamos com estas. Importa-nos considerar, aqui, a Santíssima Trindade, um dogma ou "artigo de fé", decidida pelo Concílio de Nicéia em 325 d.C. Notem bem: evento bem posterior às escrituras do Evangelho de Jesus. Pela ordem, vejamos:

PAI


É a "primeira pessoa" da Santíssima Trindade: Deus. Na Gênese de Moisés, Deus criou o homem a sua imagem e semelhança (cap. 1, vs. 26 e 27); porém, parece-nos que houve uma inversão de valores: o homem é quem criou um Deus a sua imagem... Como pode a criatura, limitada, limitar o ilimitado, o criador, colocando-o como pessoa unida à duas outras! Por isso que alguém disse que "o homem é a medida de todas as coisas". Personificar Deus - o Deus antropomorfo -, confundi-lo com os fenômenos da natureza, foi próprio de criaturas das eras primevas, porém, aqui, parece-nos que é inviável, salvo se o estão considerando como "pessoa jurídica" ou fictícia... Nós, espíritas, não ficamos com essas complicações que denunciam, tão somente, os interesses sectários em prol de classes sacerdotais ou pastorais, nada mais que profissionais das religiões. Ficamos com a Religião em Espírito e Verdade - Religião do Espírito - que, com respeito ao nosso criador, postula: 


"Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas". (1)

FILHO


É a "segunda pessoa" da Santíssima Trindade: Jesus. Para nós, filho de quem? De José e Maria, segundo a carne; de Deus, segundo o Espírito. Como pessoa, apenas é o nosso irmão mais velho, por existir antes da formação da Terra, quiçá do Sistema Solar. Por isso, foi confundido com o próprio Deus. A sua divindade não está circunscrita numa posição intermediária da Trindade. Vejamos:
 

"Transformado em parte intrínseca de Deus, Jesus de Nazaré perdeu a sua personalidade própria, "ensanduichado" entre Deus e o Espírito Santo. O Deus uno de Jesus, o Pai, cuja concepção simples e clara abalou o mundo antigo e revelou a fraternidade universal dos povos e das raças, fragmentou-se em três pessoas, o que vale dizer em três deuses, iniciando a hierarquia da Igreja, que se prolongaria indefinidamente no tempo". (2)
 

Temos que reconhecer que passamos por fases primitivas do conhecimento no processo evolutivo, no qual estamos inseridos. As questões dos mitos e dos símbolos foram úteis até certo ponto; porém, a partir deste, tornaram-se pedras de tropeço. O homem só permanece neles por comodismo ou interesses mesquinhos. É o caso da permanência no mito irracional da Trindade, daí a origem da mitologia cristã e do sectarismo religioso.
 

"A superioridade de Jesus sobre os homens não se prendia às particularidades de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à de seu perispírito, haurida na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres." (3)
 

Jesus, como ficou dito acima, é o nosso irmão mais velho, não é Deus. Em várias passagens evangélicas ele fez referência ao Pai, citamos apenas esta:
 

"Vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai, e vosso Pai; para meu Deus, e vosso Deus." (João 20: 17)
 

Acresce que, sobre a paternidade de Deus, Paulo, na sua Epístola aos Romanos, escreveu "que somos filhos de Deus, portanto seus herdeiros, acrescentando: e co-herdeiros de Cristo". (Romanos, 8: 17)

A divindade de Jesus é pela sua realização espiritual. É divino, porque já se depurou das imperfeições humanas e está mais próximo de Deus! É o nosso guia e modelo, segundo a questão nº 625, de O Livro dos Espíritos. 



 

ESPÍRITO SANTO

É a "terceira pessoa" da Santíssima Trindade. Como vimos acima, personificar Deus ou confundi-lo com Jesus é uma aberração; aqui, a personificação do Espírito Santo continua na mesma, para não dizer pior. Já não e sem tempo de compreender que não se trata de uma pessoa, mas de um coletivo inumerável de bons para espíritos puros, isto é, seres atuantes como colaboradores diretos de Jesus e da Espiritualidade Maior. Assim, o problema maior de interpretação dos nossos opositores está relacionado ao "Espírito Santo". Vejamos:
 

"As antigas escrituras não continham o qualificativo santo, quando se falava do Espírito. Todos os apóstolos reconheciam a existência de Espíritos, mas entre estes, bons e maus. (...) Foi só com a tradução das antigas escrituras e constituição da Vulgata que esse qualificativo foi acrescentado, com certeza para fortificar o "Mistério da Santíssima Trindade", tirado de uma lenda hindu, (...). Esse mistério veio criar uma doutrina nova sobre a concepção de Espírito, atribuindo a este, quando revestido do qualificativo Santo, um ser misterioso, incriado, também Deus e co-eterno com o Pai." (4)
Como se vê, não há como nós espíritas conciliarmos com o dogma da Santíssima Trindade e, conseqüentemente, com o mistério da divisão de Deus em três partes distintas. Deus é único: 


"se houvesse vários deuses, não haveria unidade de vistas, nem unidade de poder no ordenamento do Universo", segundo a questão nº 13, de O Livro dos Espíritos.
 


Encerrarmos estas considerações, com a seguinte lição de Emmanuel:
 

"Os textos primitivos da organização cristã não falam da concepção da Igreja Romana, quanto à chamada "Santíssima Trindade". (...) Por largos anos, antes da Boa Nova, o bramanismo guardava a concepção de Deus, dividido em três princípios essenciais, que os seus sacerdotes denominavam Brama, Siva e Vishnu. Contudo, a Teologia, que se organizava sobre os antigos princípios do politeísmo romano, necessitava apresentar um complexo de enunciados religiosos, de modo a confundir os espíritos mais simples, mesmo porque sabemos que se a Igreja foi, a princípio, depositária das tradições cristãs, não tardou muito que o sacerdócio eliminasse as mais belas expressões do profetismo, inumando o Evangelho sob um acervo de convenções religiosas, e roubando às revelações primitivas a sua feição de simplicidade e de amor". (5)

(1) O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, Questão Nº 1.
(2) Revisão do Cristianismo, Herculano Pires, pág. 12, Ed. Paidéia - 1977.
(3) A Gênese, Allan Kardec, cap. XV, nºs 1 e 2, pág. 270, 18ª Edição - IDE-1988.
(4) Vida e Atos dos Apóstolos, Cairbar Schutel, pág. 6, 8ª Ed. O Clarim - 1987.
(5) O Consolador, Emmanuel, F.C.Xavier, Q. 264, pág. 159, 6ª Ed. FEB-1976.

 

(as.) Julio Laurentino de Lima - juliollima@gmail.com
(Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo, Fev/2008, pág. 15 - Editora O Clarim)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

PERISPÍRITO



O perispírito, ou corpo fluídico dos Espíritos, é um dos mais importantes produtos do fluido cósmico; é uma condensação desse fluido em torno de um foco de inteligência ou alma. O corpo carnal tem seu princípio de origem nesses mesmo fluido condensado e transformado em matéria tangível.

No perispírito, a transformação molecular se opera diferentemente, porquanto o fluido conserva a sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas.


O corpo perispirítico e o corpo carnal têm, pois, origem no mesmo elemento primitivo; ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes. (G. XIV 7)¹  


Do meio onde se encontra é que o Espírito extrai o seu perispírito, isto é, esse envoltório ele o forma dos fluidos ambientes.

Resulta daí que os elementos constitutivos do perispírito naturalmente variam, conforme os mundos.
Dando-se Júpiter como orbe muito adiantado em comparação com a Terra, como um orbe onde a vida corpórea não apresenta a materialidade da nossa, os envoltórios perispirituais hão de ser lá de natureza muito mais quintessenciada do que aqui.


Emigrando da Terra, o Espírito deixa aí o seu invólucro fluídico e toma outro apropriado ao mundo onde vai habitar. (G. XIV 8)¹ 


A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. (G. XIV 9)¹ 

Os Espíritos chamados a viver naquele meio tiram dele seus perispíritos; porém, conforme seja mais ou menos depurado o Espírito, seu perispírito se formará nas partes mais puras ou das mais grosseiras do fluido peculiar ao mundo onde ele encarna.

Uma vez que o estado espiritual é o estado definitivo do Espírito e o corpo espiritual não morre, deve ser esse também o seu estado normal.


O estado corporal é transitório e passageiro. É no estado espiritual sobretudo que o Espírito colhe os frutos do progresso realizado pelo trabalho da encarnação; é também nesse estado que se prepara para novas lutas e toma as resoluções que há de pôr em prática na sua volta à humanidade. (C.I., parte 1 do cap. III, 10)²



O princípio intermediário, ou perispírito, substância semimaterial que serve de primeiro envoltório ao Espírito e liga a alma ao corpo. (L.E. 135)³ 


A alma tem dois invólucros: um sutil e leve é o primeiro, ao qual chamas perispírito; o outro, grosseiro, material e pesado, o corpo. A alma é o centro de todos esses envoltórios. (L.E. 141)³ 

A alma, após a morte, continua a ter um fluido que lhe é próprio, haurido na atmosfera do seu planeta, e que guarda a aparência de sua última encarnação: seu perispírito. (L.E. 150)³ 

No estado de desprendimento em que fica colocado, o Espírito do sonâmbulo entra em comunicação mais fácil com os outros Espíritos encarnados, ou não encarnados, comunicação que se estabelece pelo contato dos fluidos, que compõem os perispíritos e servem de transmissão ao pensamento, como o fio elétrico. (L.E. 455)³ 

O perispírito não constitui uma dessas hipóteses de que a ciência costuma valer-se para a explicação de um fato. Sua existência não foi apenas revelada pelos Espíritos, resulta de observações. (L.M. 54)4

O perispírito representa um papel importante no organismo e numa porção de afecções, que se liga à fisiologia, tanto quanto à psicologia. (R.E. 1867)5


A existência do perispírito, demonstrada e vulgarizada nestes últimos tempos pelo Espiritismo, é toda uma revolução nas ideias psicológicas e, consequentemente, na filosofia. (R.E. 1868)5



1. KARDEC, Allan. A Gênese.
2. ____. O Céu e o Inferno.
3. ____. O Livro dos Espíritos.
4. ____. O Livro dos Médiuns.
5. ____. Revista Espírita.



 Fonte: Casa Editora O Clarim

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Fertilização in Vitro

Louise Brown, primeira pessoa a nascer por meio da fertilização in vitro, 
segura bebês concebidos pelo mesmo método
REUTERS
 
 
Tudo começou com a descoberta de óvulos em 1827 no corpo feminino, mas foi só em 1843, isto é, 16 anos depois, que sua função no sistema conceptivo humano seria revelada.
 
Em 1884 o médico norte-americano William Pancoast resolve fazer uma inseminação artificial ao injetar esperma em uma mulher que estava anestesiada. É claro que ele não avisou a receptora, que deu à luz um menino. O médico só comunicou a experiência anos depois ao marido. Depois o caso foi esquecido e o tema só voltou a ser abordado em 1937, quando o especialista em fertilidade humana, John Rock, publica um artigo no New England Journal of Medicine, onde sugere o potencial da fertilização in vitro. No ano seguinte resolveu colocar em prática o seu discurso e faz experiências em cobaias humanas. Após anos de estudos e experimentos, isto é, sete anos depois, os resultados começam a aparecer, mesmo assim de forma muito tímida, isto porque dos 800 óvulos colhidos, Rock e sua equipe só conseguem fertilizar quatro deles. Foi um feito inédito que lamentavelmente não foi totalmente coroado de êxito, porque os óvulos não foram implantados em mulheres.
 
Em 1949 ,o papa Pio XII condena a fertilização de óvulos humanos fora do corpo. Para ele, a prática seria o mesmo que “tirar o trabalho de Deus de Suas mãos”. A advertência do papa parecia ter detido a ousadia dos pesquisadores, quando, em 1961, o cientista italiano Daniele Petrucci anuncia que fertilizou 40 óvulos, dez vezes mais do que conseguiu Rock e sua equipe. E não parou por aí. O Dr. Petrucci anuncia que cultivou em laboratório um embrião humano por 29 dias antes de destruí-lo. Nesse período o embrião já teria adquirido batimentos cardíacos. Essa informação foi como uma explosão que não só abalou os alicerces da Igreja, mas deixou em dúvida a comunidade científica, pois a experiência não foi comprovada. A Igreja Católica classifica a experiência de “sacrilégio”, isto é, “pecado grave contra a religião e as coisas sagradas”, ou como diria o compositor popular “fé cega, faca amolada”. O pior de tudo é que o cientista era italiano, o que seria o mesmo que dizer que o inimigo estava às portas do Vaticano. Sete anos depois, em uma encíclica chamada “Humanae Vitae”, o papa Paulo VI proíbe os católicos de usar métodos contraceptivos e reforça a ligação entre o sexo e a procriação. A mensagem é interpretada não só como um ataque à pílula anticoncepcional, mas também aos métodos de fertilização artificial.
 
Em 1977 os cientistas Robert Edwards e Patrick Steptoe retiram um óvulo da paciente Lesley Brown e o fertilizam com sucesso. Dias depois, o embrião é implantado no útero de Brown. Um mês depois, descobre-se que a mulher ficou grávida. É a primeira gravidez de proveta. Em 1978 nasce em Oldham, na Inglaterra, Louise Brown, o primeiro bebê de proveta. Antes do nascimento da criança, os pais haviam vendido a história para um tablóide britânico por meio milhão de dólares.
 
Em 1982, apesar das novas condenações do Vaticano, o jornal Washington Post publica um levantamento que aponta o nascimento de um total de 54 bebês de proveta na Austrália e outros 33 no Reino Unido.
 
Em 1984 nasce o primeiro bebê de proveta brasileiro: Ana Paula Caldeira, em São José dos Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba.
 
Em 1997, vinte anos depois do nascimento do primeiro bebê de proveta, outro experimento de fertilidade vira notícia: nasce a ovelha Dolly, o primeiro animal clonado.
 
Em 2006, um embrião gerado por fertilização in vitro, e congelado há 13 anos é ‘adotado’ e desenvolve-se em um bebê na Espanha, marcando um recorde mundial de viabilidade após um longo período de armazenamento. Um ano depois, a britânica Louise Brown, primeiro bebê de proveta do mundo, dá à luz uma criança, concebida naturalmente.
 
Eis aí, de forma sumária, a história da fertilização in vitro. Analisando a questão do ponto de vista material, chegaremos à conclusão que a assistência médica é uma dádiva divina, que beneficia milhares de casais inférteis. Alguns casais conseguem seus filhos através da fertilização in vitro.
 
A ciência é essencial ao progresso humano, daí a aprovação e advertência dos Espíritos:
“Não pode o homem, pelas investigações científicas, penetrar alguns dos segredos da Natureza?
“A Ciência lhe foi dada para seu adiantamento em todas as coisas; ele, porém, não pode ultrapassar os limites que Deus estabeleceu.” (Questão 19 de O Livro dos Espíritos).
 
Vale a pena lembrar que o controle do processo da fertilização in vitro fica por conta dos geneticistas espirituais, que são responsáveis pela escolha dos gametas relativos à fecundação.
Um exemplo da intervenção espiritual está em Missionários da Luz, no cap. 13, onde é descrito o minucioso auxílio prestado por Alexandre ao casal Adelino e Raquel, selecionando um espermatozóide, dentre milhões, para fecundar o óvulo. Apesar de toda tecnologia empregada na fertilização in vitro, o sucesso da experiência depende dos Espíritos responsáveis pelo processo.
 
Na questão 344 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta aos Espíritos:
“Em que momento a alma se une ao corpo?”
Eis a resposta, repleta de sabedoria:
“A união começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento. Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até ao instante em que a criança vê a luz. O grito, que o recém-nascido solta, anuncia que ela se conta no número dos vivos e dos servos de Deus.”
 
Kardec insiste e na 354, volta a inquirir:
“Como se explica a vida intrauterina?”
“É a da planta que vegeta. A criança vive vida animal. O homem tem a vida vegetal e a vida animal que, pelo seu nascimento, se completam com a vida espiritual.”
 
Apesar da insistência dos cientistas em considerar a matéria como essencial à vida, e relegarem os Espíritos à imaginação humana e às fantasias da fé da cega, eles ainda não sabem de onde vem a vida. Sem os Espíritos a matéria seria como o metal que veste os robôs que imitam os humanos.
 
Uma prova evidente da existência e importância dos Espíritos é colocada na questão 356 do livro em pauta:
“Entre os natimortos alguns haverá que não tenham sido destinados à encarnação de Espíritos?
“Alguns há, efetivamente, a cujos corpos nunca nenhum Espírito esteve destinado.”
 
a) – Pode chegar a termo de nascimento um ser dessa natureza?
“Algumas vezes; mas não vive.”
 
b) – Segue-se daí que toda criança que vive após o nascimento tem forçosamente encarnado em si um Espírito?
“Que seria ela, se assim não acontecesse? Não seria um ser humano.”
 
Apesar dos materialistas e ateus e todo aparato tecnológico utilizado em suas experiências, os Espíritos jamais se submeteram aos seus caprichos, a vida vem de Deus e suas Leis são executadas por Espíritos superiores, que estão acima da matéria e da má vontade dos homens.

 
 
Bibliografia

– TORQUATO, Evagelista. Revista Fale! – “A medicina que faz vidas”. Ano X, nᵒ 80, Omni Editora, Janeiro 2011, pags. 24 a 37.
– KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. FEB, 76a edição, 1995.
– XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luis, cap. 13.
 
 
Fonte: Casa Editora O Clarim, por Bernardino da Silva Moreira.

sábado, 20 de abril de 2013

MATÉRIA



À primeira vista, não há o que pareça tão profundamente variado, nem tão essencialmente distinto, como as diversas substâncias que compõem o mundo.
Entre os objetos que a Arte ou a Natureza nos fazem passar diariamente ante o olhar, haverá duas que revelam perfeita identidade, ou, sequer, paridade de composição?
Quanta dessemelhança, sob os aspectos da solidez, da compressibilidade, do peso e das múltiplas propriedades dos corpos, entre os gases atmosféricos e um filete de ouro, entre a molécula aquosa da nuvem e a do mineral que forma a carcaça óssea do globo!
Que diversidade entre o tecido químico das variadas plantas que adornam o reino vegetal e o dos representantes não menos numerosos da animalidade na Terra!
Entretanto, podemos estabelecer como princípio absoluto que todas as substâncias, conhecidas e desconhecidas, por mais dessemelhantes que pareçam, quer do ponto de vista da constituição íntima, quer pelo prisma de suas ações recíprocas, são, de fato, apenas modos diversos sob que a matéria se apresenta; variedadesem que ela se transforma sob a direção de forças inumeráveis que a governam. (G. VI 3)¹ 

Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria seria tomar o efeito pela causa, porquanto essas propriedades são, também elas, um efeito que há de ter uma causa. (L.E. 7)² 
A matéria existe desde toda a eternidade, como Deus, ou foi criada por Ele em dado momento?
– Só Deus o sabe. Há uma coisa, todavia, que a razão vos deve indicar: é que Deus, modelo de amor e caridade, nunca esteve inativo. Por mais distante que logreis figurar o início de Sua ação, podereis concebê-Lo ocioso, um momento que seja? (L.E. 21)²

A ponderabilidade é um atributo essencial da matéria?
– Da matéria como a entendeis, sim; não, porém, da matéria considerada como fluido universal. A matéria etérea e sutil que constitui esse fluido vos é imponderável. Nem por isso, entretanto, deixa de ser o princípio da vossa matéria pesada. (L.E. 29)²
Os mundos mais afastados do Sol não estão privados de luz e calor. Neles a eletricidade desempenha um papel que ainda desconhecemos. (L.E. 58)² 

A matéria dos corpos orgânicos e dos corpos inorgânicos é sempre a mesma. Porém, nos corpos orgânicos, está animalizada. (L.E. 51)² 
A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la. (L.E. 71)² 
Todas as da Natureza são leis divinas, pois que Deus é o autor de tudo. O sábio estuda as leis da matéria, o homem de bem estuda e pratica as da alma. (L.E. 617)² 
A necessidade da destruição se enfraquece no homem à medida que o Espírito sobrepuja a matéria. Assim é que o horror à destruição cresce com o desenvolvimento intelectual e moral. (L.E. 733)²
Têm alguma coisa de material as penas e gozos da alma depois da morte?
– Não podem ser materiais, di-lo o bom-senso, pois que a alma não é matéria. Nada tem de carnal essas penas e esses gozos; entretanto, são mil vezes mais vivos do que os que experimentais na Terra, porque o Espírito, uma vez liberto, é mais impressionável. Então, já a matéria não lhe embota as sensações. (L.E. 965)²

 As manifestações (dos Espíritos) não podem dar-se senão exercendo o Espírito ação sobre a matéria. (L.M. 53)³
O perispírito, envoltório fluídico, semimaterial, serve de ligação entre a alma e o corpo. – Ainda que fluídico, etéreo, vaporoso, invisível para nós, em seu estado normal, não deixa de ser matéria. A alma nunca será desligada do seu perispírito. (L.M. 54)³ O perispírito pode adquirir as propriedades da matéria e tornar-se tangível. (L.M. 126)³ Podem os Espíritos familiares favorecer os interesses materiais por meio de revelações?
– Os nossos Espíritos protetores podem, em muitas circunstâncias, indicar-nos o melhor caminho, sem entretanto, nos conduzirem pela mão, porque, se assim fizessem, perderíamos o mérito da iniciativa e não ousaríamos dar um passo sem a eles recorrermos, com prejuízo do nosso aperfeiçoamento. (L.M. 291)³


¹. KARDEC, Allan. A Gênese.
². ____. O Livro dos Espíritos.
³. ____. O Livro dos Médiuns.

A Chegada de "O Livro dos Espíritos" no Brasil




Na época atual, pode-se adquirir com a maior facilidade um exemplar de "O Livro dos Espíritos". No entanto, não foram poucos os obstáculos enfrentados para que sua publicação se concretizasse, tanto na França como no Brasil.

No livro Mandato de Amor, publicado pela União Espírita Mineira, encontra-se um relato de Francisco Cândido Xavier sobre as dificuldades de ordem material que Allan Kardec enfrentou quando da primeira publicação de O Livro dos Espíritos:

“Em princípios de 1857, o livreiro E. Dentu, amigo do Professor Hyppolyte Léon Denizard Rivail, desde os idos de 1828, havia encaminhado os originais da primeira obra espírita compilada pelo referido professor à tipografia de Beau, situada em Saint Germain em Laye, 23 Km a oeste de Paris.

O proprietário da tipografia presidia normalmente os trabalhos de revisão e aprimoramento do que viria a ser a primeira obra da Codificação Espírita, quando algo inesperado sucedeu-se: sua desencarnação.

O fato logo repercutiu negativamente no andamento da obra, já que os dois filhos do tipógrafo relegaram-na ao esquecimento ao assumirem o posto do pai. Os apelos do Prof. Rivail não se fizeram ouvir e os filhos limitavam-se a dizer que a feitura da edição iria demorar muito.

Valendo-se de inspiração superior, o Prof. Rivail resolveu por bem solicitar o concurso da viúva do tipógrafo. Deliberou visitá-la em sua residência e esclareceu-lhe sobre o que se passava. A viúva, tomada de simpatia pela causa, leu os originais de “O Livro dos Espíritos”. Sentindo-se reconfortada em sua dor moral, e usando de sua autoridade perante os filhos, escreveu sobre os originais a ordem irrevogável: TRÉS URGENT (URGENTÍSSIMO).

A tipografia logo iniciou a impressão e o indispensável acabamento dos dois mil primeiros exemplares, em formato grande, com 176 páginas.

Raiava o inesquecível dia 18 de abril daquele ano de 1857, e os editores, representados por Dentu, finalmente trouxeram a lume, na praça parisiense, a auspiciosa edição. A Cidade Luz acabava de acolher, então, em seu seio, a luz mais brilhante e poderosa de sua História.”
A primavera exuberante inundava Paris quando, na Galeria d\'Orléans do Palais Royal, Allan Kardec publicava sua primeira obra espírita: O Livro dos Espíritos. Tal fato representava um marco para o início de um novo momento para a evolução espiritual da humanidade.

No plano espiritual, a equipe formada pelos Espíritos Superiores encarregados da nova revelação, sob as ordens de Jesus, mobilizava-se para que, a partir daquele século XIX, o Espiritismo se consolidasse. O primeiro passo havia sido dado.

No Brasil, porém, esse livro demorou a chegar. Os que tinham acesso às obras de Allan Kardec eram geralmente intelectuais que conheciam o idioma francês, os quais percebiam a necessidade urgente de se traduzirem as obras de Kardec para o português, de modo que o Espiritismo pudesse chegar ao conhecimento e estudo por parte de todos, sem distinções.

Dois nomes se destacaram nesse cenário brasileiro: Luis Olímpio Teles de Menezes (1828-1893), na Bahia, e Joaquim Carlos Travassos (1839-1915), no Rio de Janeiro.¹

Teles de Menezes, um dos pioneiros do Espiritismo no Brasil, publicava, em 1866, na Bahia, em português, a Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, por ele mesmo traduzida da 13ª edição francesa de O Livro dos Espíritos. Foi ele também o responsável pela publicação do primeiro jornal espírita do Brasil: O echo d’além-túmulo, em março de 1869.

É ao Dr. Travassos (ele era médico) que o Brasil espírita deve a primeira tradução das obras de Kardec. Foi ele, em 1875, sob o pseudônimo de Fortúnio, a fazer a primeira tradução para o português de O Livro dos Espíritos, a partir da 20ª edição francesa. A publicação foi feita pela primeira editora no Brasil a publicar as obras básicas de Allan Kardec: a B. L. Garnier, fundada em 1844, no Rio de Janeiro, por Baptiste-Louis Garnier, um jovem empreendedor de 21 anos, recém-chegado da França.

Foi ele também que fez a tradução das demais obras de Kardec:

- O Livro dos Médiuns, em 1875, a partir da 12ª edição francesa, sem o nome do tradutor;
- O Céu e o Inferno, em 1875, a partir da 4ª edição francesa, sem o nome do tradutor;
- O Evangelho Segundo o Espiritismo, em 1876, a partir da 16ª edição francesa, sem o nome do tradutor.
Dr. Travassos, numa carta dirigida ao Sr. Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901), responsável pela continuidade do trabalho de divulgação das obras de Kardec em Paris, assim se expressou em determinado trecho:

“Permitindo o Pai celeste que eu fosse, com o nosso amigo Sr. C. Lieutaud, um dos propagadores do Espiritismo neste canto do mundo chamado Brasil, empreendi a tradução, para a língua nacional, das obras do Mestre. Graças ao auxílio dos bons Espíritos, essas imortais obras estão sendo publicadas, apesar das dificuldades e da resistência que as grandes ideias geralmente encontram, sobretudo uma filosofia que visa extirpar os vícios de uma sociedade egoísta que resume toda a sua satisfação nos prazeres materiais.”

Como se vê, desde o lançamento de O Livro dos Espíritos, na França, em 18 de abril de 1857, até sua tradução e publicação no Brasil, passaram-se 18 anos!

Foi justamente pelas mãos do Dr. Travassos que um exemplar de O Livro dos Espíritos, em português, chegou às mãos do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, também médico e seu amigo pessoal. E foi este livro que atraiu o ilustre médico e político para a Doutrina Espírita.
Estava reservada a Bezerra de Menezes uma tarefa missionária em relação ao Espiritismo: conciliar as divergências existentes na época e consolidar a Doutrina Espírita no território brasileiro. Sua tarefa se confirmou ao assumir, em agosto de 1895, a presidência da Federação Espírita Brasileira (fundada em 1884).

Nessa mesma época, a Livraria Espírita, em Paris, de propriedade da Sra. Amélie Gabrielle Boudet (1795-1883), viúva de Allan Kardec, entra em liquidação por absoluta falta de recursos financeiros. Não havia interessados em manter a tarefa de divulgação espírita na Europa. Na França, a tarefa espírita chegava ao fim, com a desencarnação da viúva de Kardec e o fechamento definitivo da Livraria.

Foi assim que, em 15 de novembro de 1897, o Sr. Leymarie concede, gratuitamente, à Federação Espírita Brasileira, os direitos de publicação, em português, das obras de Kardec, com o compromisso de manter fidelidade aos originais. O responsável por essa transação foi Bezerra de Menezes, que nessa época era o presidente da Federação Espírita Brasileira. Transferia-se, assim, para o Brasil, a tarefa de continuar a divulgação da Doutrina Espírita.

Nas primeiras décadas do século XX, outro vulto se destaca: Luís Olímpio Guillon Ribeiro (1875-1943), que muitas contribuições trouxe para o Espiritismo no Brasil. Dotado de grande inteligência e senso prático (era formado engenheiro civil), entre os vários serviços prestados à causa espírita, também realizou as traduções das obras de Kardec para o português.
Na minuciosa pesquisa biobibliográfica desenvolvida por Zêus Wantuil (diretor e colaborador da Federação Espírita Brasileira, desencarnado em setembro de 2011) e Francisco Thiesen (1927-1990), composta de três volumes, encontram-se os pormenores de todos esses episódios, os quais muito resumidamente aqui foram citados.²

Foi graças à atuação, sabe-se lá com quantos e quais sacrifícios, desses intrépidos trabalhadores do passado e de muitos outros que se mantiveram anônimos, que o Brasil espírita deve sua formação em relação ao Espiritismo.

Até os dias atuais, passaram-se 138 anos desde que a primeira edição em português de O Livro dos Espíritos foi efetuada no Brasil. Embora tenha encontrado, de imediato, funda ressonância entre pessoas identificadas com o espírito renovador das recentes revelações, pode-se avaliar quanto é grande a tarefa de divulgar, ensinar, esclarecer, estudar e, sobretudo, vivenciar os ensinamentos espíritas!


¹. Federação Espírita do Paraná – http://www.feparana.com.br.
². WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec (Pesquisa biobibliográfica e ensaios de interpretação) Vol III. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. 4.ed. 1998.

Fonte: Casa Editora O Clarim.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Quem pratica a salvação?



Jamais nos atreveríamos a afirmar que a salvação está no Espiritismo. Da mesma forma, parece-nos pretensioso que outras doutrinas afirmem que só na igreja delas se pode encontrar o caminho para o Céu.

O que não podemos ignorar, porém, é que a clareza e objetividade do Espiritismo é um fator favorável para que as pessoas compreendam a finalidade da vida na Terra. A inteligência das lições trazidas pelos Espíritos e reveladas a nós por Allan Kardec e outros escritores que o sucederam, facilita para que vivamos com mais esperança, serenidade e responsabilidade. Ninguém explica a Lei de Ação e Reação como a Doutrina Espírita.

Já pertencemos a outra religião, como ocorre com a maioria do povo brasileiro pela sua tradição católica. Respeitamos essa doutrina e somos gratos a ela porque foi ali que fomos apresentados a Jesus e informados que somos filhos de Deus e, portanto, contamos com a sua proteção permanente. Todavia, é uma crença onde não há uma aceitação racional, produto da fé compreendida. Tudo é dogmático.

Imaginávamos, naquele tempo, que deveríamos amar Deus e o próximo porque Moisés registrou a “palavra de Deus” nas pedras da lei. Era uma ordem, mas não fomos informados por que deveríamos ter esse comportamento. Seguíamos por ser a Lei de Deus e temíamos o castigo divino!

Com o conhecimento do Espiritismo, e a aplicação sábia da Lei de Causa e Efeito, ficou claro que devemos amar Deus e o próximo no nosso próprio interesse como espíritos imperfeitos que buscam seu crescimento espiritual para serem mais felizes, quer na Terra, quer no mundo espiritual, onde estagiaremos no aguardo da nova encarnação, o que fatalmente ainda acontecerá conosco, por muito tempo.

Se formos bons, honestos, trabalhadores e solidários, sentiremos interiormente um bem estar porque a consciência não nos acusará de erros ou agressões contra a natureza e o mundo que nos cerca. Só por isso já vale a pena. Todavia, independente disso, estaremos valorizando a passagem pelo mundo para ter direito a ocupar melhores posições na espiritualidade, onde podemos ser ativos participantes na obra da Criação, que está em evolução permanente.

Portanto amar Deus e o próximo deixou de ser um compromisso penoso, compulsório, para ser algo prazeroso e que colabora para a autoeducação que nos traz alegrias no presente e no futuro.

Essa é a diferença entre o Espiritismo e outras doutrinas que divulgam a palavra de Jesus como uma ordem a ser cumprida sob pena de arder no fogo do inferno. Para o Espiritismo, o inferno, assim como o céu, se encontra no interior de cada criatura. Ela tem o livre-arbítrio de sofrer ou ser feliz, sem escravizar-se a nada e a ninguém; nem mesmo aos espíritos, por mais que estes tentem influenciar-nos em nosso comportamento. Só conseguem ajudar-nos ou prejudicar-nos se deixamos. Diz o poeta Eurícledes Formiga, por Chico Xavier, numa singela trova: “Em nossa casa mental / por mais se mantenha alerta, / obsessor só penetra / quando encontra a porta aberta”.

É por isso que eu agradeço por ter encontrado, um dia, o ESPIRITISMO



Fonte: O Clarim.