Eternidade

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domingo, 16 de junho de 2019

O auxílio do Alto


O  AUXÍLIO DO ALTO

O Ser Humano evoca o auxílio da Espiritualidade Superior em seus momentos de dificuldade. Cada qual a seu modo e segundo a crença ora, buscando merecer a misericórdia divina para se livrar do mal e de suas próprias e assumidas tentações. Mas nem sempre, ou melhor dizendo, quase nunca, se apercebe auxiliado. Aquele que pretendia um resultado iminente não associa seu pedido ao atendimento que tardou. Outro nada faz por merecer ou insiste num pedido cuja satisfação lhe será prejudicial ao desenvolvimento espiritual, e quando recebe dádiva diferente não consegue associá-la às súplicas.

De qualquer sorte, todos os que o fazem estão convictos a respeito da intervenção dos Espíritos porque, do contrário, seria assumir uma estultice. Essa convicção resulta do conhecimento, ainda que incipiente dos informes transmitidos pelos profetas, contidos na Bíblia, especialmente em o Novo Testamento. Alguns exemplos: 1 – a volta de Elias foi anunciada por um “anjo” que disse a Zacarias: “não temas, porque tua oração foi ouvida e Izabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. […] e irá adiante dele no espírito e virtude de Elias” (Lucas, 1:11 a 13); 2 – outro “anjo” aconselhou o centurião Cornélio a mandar chamar a Pedro para um auxílio de urgência: “Agora, pois, envia homens a Jope, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro. Este está com um certo Simão, o curtidor, que tem a sua casa junto do mar. Ele te dirá o que deves fazer” (Atos, 10:20 e 21). Recordemos que neste caso, o beneficiado deixou claro que o mensageiro espiritual era “um varão com vestes resplandecentes”, de sorte que não poderia ser confundido com um encarnado; 3 – o apóstolo Pedro livrou-se das correntes e da prisão também graças a um “anjo”. O episódio é narrado em Atos, 12:7 e 8), com detalhes. “E eis que sobreveio o anjo do Senhor, e resplandeceu uma luz na prisão; e, tocando a Pedro no lado, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa! E caíram-lhe das mãos as cadeias. E disse-lhe o anjo: cinge-te e ata as tuas sandálias. E ele o fez assim. Disse-lhe mais: Lança às costas a tua capa, e segue-me”.

Inumeráveis foram as incursões de pesquisadores ao longo dos séculos para descortinar a verdade que se ocultava – e ainda se pretende manter obscurecida – acerca desses “anjos” e sobre suas atribuições junto aos que jazem prisioneiros do corpo físico. O Consolador prometido por Jesus abriu o leque do conhecimento, já no primeiro livro editado por Allan Kardec, em 18 de abril de 1857. Em O Livro dos Espíritos, de acesso fácil a todos os níveis de intelectualidade, encontram-se explicações irrefutáveis fornecidas pelas entidades espirituais que amorosa e pacientemente responderam às indagações do Codificador, qual se vê no Capítulo 9, primeira e segunda partes (perguntas 456 a 472).

Outras tantas fontes de conhecimento sobre o Mundo Espiritual espocaram em várias partes do Planeta, ratificando as experiências e as teorias. Mas foi com a colaboração do Espírito André Luiz, através da mediunidade do incansável Chico Xavier, que essa realidade despertou as mentes mais resistentes. Do conjunto de sua magnifica obra doutrinária complementar, prenhe de explicações científicas para cada caso examinado, extraímos exemplos marcantes que bem elucidam o presente estudo.

Em Os Mensageiros há referência expressa a serviços específicos para atendimento e encaminhamento de Espíritos necessitados, os quais contam com garantias institucionais e sistema hierárquico para cumprimento dos projetos divinos em face das criaturas. Também aponta uma ocorrência tipicamente humana, da qual os prestimosos socorristas extraíram essa preciosa lição: “…um homem jazia por terra, numa poça de sangue, ao lado de pequeno veículo sustentado por um muar impaciente, dando mostras de grande inquietação. Dois companheiros encarnados prestavam socorro ao ferido, apressadamente [..]. O número de desencarnados que auxiliava o pequeno grupo, todavia, era muito grande. Um amigo espiritual que me pareceu o chefe, naquela aglomeração, recebeu Aniceto e a nós com deferência e simpatia, explicou rapidamente a ocorrência. O carroceiro havia recebido a patada de um burro e era necessário socorrer o ferido. Serenada a situação, vi o referido superior hierárquico chamar um guarda do caminho, interpelando: – Glicério, como permitiu semelhante acontecimento? Este trecho da estrada está sob sua responsabilidade direta. O subordinado, respeitoso, considerou sensatamente: – Fiz o possível por salvar este homem, que, aliás, é um pobre pai de família. Meus esforços foram improfícuos, pela imprudência dele. Há muito procuro cercá-lo de cuidados, sempre que passa por aqui; entretanto, o infeliz não tem o mínimo de respeito pelos dons naturais de Deus. É de uma grosseria inominável para com os animais que o auxiliam a ganhar o pão. Não sabe senão gritar, encolerizar-se, surrar e ferir. Tem a mente fechada às sugestões do agradecimento. Não estima senão a praga e o chicote. Hoje, tanto perturbou o pobre muar que o ajuda, tanto o castigou, que pareceu mais animalizado… Quando se tornou quase irracional, pelo excesso de fúria e ingratidão, meu auxílio espiritual se tornou ineficiente. Atormentado pelas descargas de cólera do condutor, o burro humilde o atacou com a pata. Que fazer? Minha obrigação foi cumprida…”

A par da lição sobre o desequilíbrio humano diante dos fatos da vida, em prejuízo do auxílio espiritual, avulta a convicção de que todas as criaturas são assistidas em suas necessidades, por obreiros espirituais que cumprem os deveres que lhe estão afetos, não importa onde. Se numa estrada erma de um lugar distante, em condições precárias de atendimento médico há Espíritos encarregados de assistir aos poucos encarnados que por ali passavam, é intuitivo que em logradouros de maior movimento haja grupos socorristas mais amplos fazendo o que esteja ao seu alcance para atender a todas as ocorrências e mesmo para evitá-las, quando possível.

Sim, evitar é possível, tanto que as condições sejam favoráveis. Há incontáveis situações concretas em que alguém se viu impedido, em virtude de incidentes muitas vezes inexplicáveis, de embarcar num avião que findou por se acidentar, matando todos os ocupantes, ou num navio que foi a pique, levando para o fundo do mar centenas de corpos de passageiros e tripulantes. Em No Mundo Maior, o mesmo autor espiritual revela a intervenção do Espírito Calderaro para impedir o suicídio de uma jovem chamada Antonina (Cap. 13), ocorrência essa semelhante àquela que se dá na ambiência física quando alguém interfere com ascendência moral diante da tortura íntima de outrem. Certo é que ninguém é órfão do amparo divino, o qual se efetiva em benefício da criatura através das entidades espirituais, hoje e sempre, em toda parte.

As questões acima têm a ver com a sintonia que se estabelece entre as entidades espirituais – sempre atentas – e o assistido encarnado; com o grau de necessidade da experiência para o desenvolvimento espiritual do encarnado, segundo seja o seu plano de vida adrede traçado; e também com os méritos adquiridos nessa romagem. O carroceiro do exemplo acima não foi capaz de sintonizar mentalmente o auxiliar espiritual e merecia a corrigenda para passar a valorizar o colaborador irracional, enquanto Antonina, que muito fez em benefício da genitora e de sua irmã, registrou plenamente os conselhos do instrutor Calderaro e de outros que acompanharam esse atendimento durante seu sono noturno.
A prece e a disciplina em busca do equilíbrio individual constituem os melhores meios para se obter essa sintonia. Mas haveremos de nos vigiar para que nossos pensamentos e obras sejam dignos dessa sintonia.

Marcus Vinicius

FONTES:
O Reformador – janeiro 2014.
Kardec, Allan – O Livro dos espíritos – Trad. Herculano Pires – Lake, 66ª edição, págs. 182/185.
André Luiz – psicografia de Chico Xavier – OS Mensageiros – FEB – 35ª edição, págs. 214/218.
Idem, No mundo maior – FEB – 23ª edição, págs. 219/232.

Fonte: Centro Espírita Caminho da Paz