Eternidade
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domingo, 21 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 20 de maio de 2015
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
A luta contra o mal (Humberto de Campos)
De todas as
ocorrências da
tarefa
apostólica, os
encontros do
Mestre com os
endemoninhados
constituíam os
fatos que mais
impressionavam
os discípulos.
A palavra
“diabo” era
então
compreendida na
sua justa
acepção. Segundo
o sentido exato
da expressão,
era ele o
adversário do
bem,
simbolizando o
termo, dessa
forma, todos os
maus sentimentos
que dificultavam
o acesso das
almas à
aceitação da Boa
Nova e todos os
homens de vida
perversa, que
contrariavam os
propósitos da
existência pura,
que deveriam
caracterizar as
atividades dos
adeptos do
Evangelho.
Dentre os
companheiros do
Messias, Tadeu
era o que mais
se deixava
impressionar por
aquelas cenas
dolorosas.
Aguçavam-lhe,
sobremaneira, a
curiosidade de
homem os gritos
desesperados dos
espíritos
malfazejos, que
se afastavam de
suas vitimas sob
a amorosa
determinação do
Mestre Divino.
Quando os pobres
obsidiados
deixavam escapar
um suspiro de
alívio, Tadeu
volvia os olhos
para Jesus,
maravilhado de
seus feitos.
Certo dia em que
o Senhor se
retirara, com
Tiago e João,
para os lados de
Cesaréia de
Filipe, uma
pobre demente
lhe foi trazida,
a fim de que
ele, Tadeu,
anulasse a
atuação dos
Espíritos
perturbadores
que a
subjugavam.
Entretanto,
apesar de todos
os esforços de
sua boa-vontade,
Tadeu não
conseguiu
modificar a
situação.
Somente no dia
imediato, ao
anoitecer, na
presença
confortadora do
Messias, foi
possível à
infeliz
dementada
recuperar o
senso de si
mesma.
Observando o
fato, Tadeu caiu
em sério e
profundo cismar.
Por que razão o
Mestre não lhes
transmitia,
automaticamente,
o poder de
expulsar os
demônios
malfazejos, para
que pudessem
dominar os
adversários da
causa divina? Se
era tão fácil a
Jesus a cura
integral dos
endemoninhados,
por que motivo
não provocava
ele de vez a
aproximação
geral de todos
os inimigos da
luz, a fim de
que, pela sua
autoridade,
fossem
definitivamente
convertidos ao
reino de Deus?
Com o cérebro
torturado por
graves
cogitações e
sonhando
possibilidades
maravilhosas
para que
cessassem todos
os combates
entre os
ensinamentos do
Evangelho e os
seus inimigos, o
discípulo
inquieto
procurou
avistar-se
particularmente
com o Senhor, de
modo a expor-lhe
com humildade
suas idéias
íntimas.
*
Numa noite
tranqüila,
depois de lhe
escutar as
ponderações,
perguntou-lhe
Jesus, em tom
austero:
– Tadeu, qual o
principal
objetivo das
atividades de
tua vida?
Como se
recebesse uma
centelha de
inspiração
superior,
respondeu o
discípulo com
sinceridade:
– Mestre, estou
procurando
realizar o reino
de Deus no
coração.
– Se procuras
semelhante
realidade, por
que a reclamas
no adversário em
primeiro lugar?
Seria justo
esqueceres as
tuas próprias
necessidades
nesse sentido?
Se buscamos
atingir o
infinito da
sabedoria e do
amor em Nosso
Pai,
indispensável se
faz reconheçamos
que todos somos
irmãos no mesmo
caminho!...
– Senhor, os
espíritos do mal
são também
nossos irmãos? –
inquiriu,
admirado, o
apóstolo.
– Toda a criação
é de Deus. Os
que vestem a
túnica do mal
envergarão um
dia a da
redenção pelo
bem. Acaso,
poderias duvidar
disso? O
discípulo do
Evangelho não
combate
propriamente o
seu irmão, como
Deus nunca entra
em luta com seus
filhos; aquele
apenas combate
toda
manifestação de
ignorância, como
o Pai que
trabalha
incessantemente
pela vitória do
seu amor, junto
da humanidade
inteira.
– Mas, não seria
justo – ajuntou
o discípulo, com
certa convicção
– convocarmos
todos os gênios
malfazejos para
que se
convertessem à
verdade dos
céus?
O Mestre, sem se
surpreender com
essa observação,
disse:
– Por que motivo
não procede Deus
assim?...
Porventura,
teríamos nós uma
substância de
amor mais
sublime e mais
forte que a do
seu coração
paternal? Tadeu,
jamais olvidemos
o bom combate.
Se alguém te
convoca ao labor
ingrato da má
semente, não
desdenhes a boa
luta pela
vitória do bem,
encarando
qualquer posição
difícil como
ensejo sagrado
para revelares a
tua fidelidade a
Deus. Abraça
sempre o teu
irmão. Se o
adversário do
reino te provoca
ao
esclarecimento
de toda a
verdade, não
desprezes a hora
de trabalhar
pela vitória da
luz; mas segue o
teu caminho no
mundo atento aos
teus próprios
deveres, pois
não nos consta
que Deus
abandonasse as
suas atividades
divinas para
impor a
renovação moral
dos filhos
ingratos, que se
rebelaram na sua
casa. Se o mundo
parece povoar-se
de sombras, é
preciso
reconhecer que
as leis de Deus
são sempre as
mesmas, em todas
as latitudes da
vida.
É indispensável
meditar na lição
de Nosso Pai e
não estacionar a
meio do caminho
que percorremos.
Os inimigos do
reino se
empenham em
batalhas
sangrentas? Não
olvides o teu
próprio
trabalho.
Padecem no
inferno das
ambições
desmedidas?
Caminha para
Deus. Lançam a
perseguição
contra a
verdade? Tens
contigo a
verdade divina
que o mundo não
te poderá
roubar, nunca.
Os grandes
patrimônios da
vida não
pertencem às
forças da Terra,
mas às do Céu. O
homem, que
dominasse o
mundo inteiro
com a sua força,
teria de quebrar
a sua espada
sangrenta, ante
os direitos
inflexíveis da
morte. E, além
desta vida,
ninguém te
perguntará pelas
obrigações que
tocam a Deus,
mas, unicamente,
pelo mundo
interior que te
pertence a ti
mesmo, sob as
vistas amoráveis
de Nosso Pai.
Que diríamos de
um rei justo e
sábio que
perguntasse a um
só de seus
súditos pela
justiça e pela
sabedoria do
reino inteiro?
Entretanto, é
natural que o
súdito seja
inquirido acerca
dos trabalhos
que lhe foram
confiados, no
plano geral,
sendo também
justo se lhe
pergunte pelo
que foi feito de
seus pais, de
sua companheira,
de seus filhos e
irmãos. Andas
assim tão
esquecido desses
problemas fáceis
e singelos?
Aceita a luta,
sempre que fores
julgado digno
dela e não te
esqueças, em
todas as
circunstâncias,
de que construir
é sempre melhor.
Tadeu contemplou
o Mestre, tomado
de profunda
admiração. Seus
esclarecimentos
lhe caíam no
espírito como
gotas imensas de
uma nova luz.
– Senhor – disse
ele –, vossos
raciocínios me
iluminam o
coração; mas,
terei errado
externando meus
sentimentos de
piedade pelos
espíritos
malfazejos? Não
devemos, então,
convocá-los ao
bom caminho?
– Toda intenção
excelente –
redargüiu Jesus
– será levada
em justa conta
no céu, mas
precisamos
compreender que
não se deve
tentar a Deus.
Tenho aceitado a
luta como o Pai
ma envia e tenho
esclarecido que
a cada dia basta
o seu trabalho.
Nunca reuni o
colégio dos meus
companheiros
para provocar as
manifestações
dos que se
comprazem na
treva; reuni-os,
em todas as
circunstâncias e
oportunidades,
suplicando para
o nosso esforço
a inspiração
sagrada do
Todo-Poderoso. O
adversário é
sempre um
necessitado que
comparece ao
banquete das
nossas alegrias
e, por isso,
embora não o
tenha convocado,
convidando
somente os
aflitos, os
simples e os de
boa-vontade,
nunca lhe fechei
as portas do
coração,
encarando a sua
vinda como uma
oportunidade de
trabalho, de que
Deus nos julga
dignos.
O apóstolo
humilde sorriu,
saciado em sua
fome de
conhecimento,
porém
acrescentou,
preocupado com a
impossibilidade
em que se via de
atender
eficazmente à
vítima que o
procurara:
– Senhor, vossas
palavras são
sempre sábias;
entretanto, de
que necessitarei
para afastar as
entidades da
sombra, quando o
seu império se
estabeleça nas
almas?!...
– Voltamos,
assim, ao início
das nossas
explicações –
retrucou Jesus
—, pois, para
isso, necessitas
da edificação do
reino no âmago
do teu espírito,
sendo este o
objetivo de tua
vida. Só a luz
do amor divino é
bastante forte
para converter
uma alma à
verdade. Já
viste algum
contendor da
Terra
convencer-se
sinceramente
tão-só pela
força das
palavras do
mundo? As
dissertações
filosóficas não
constituem toda
a realização.
Elas podem ser
um recurso fácil
da indiferença
ou uma túnica
brilhante,
acobertando
penosas
necessidades. O
reino de Deus,
porém, é a
edificação
divina da luz. E
a luz ilumina,
dispensando os
longos
discursos.
Capacita-te de
que ninguém pode
dar a outrem
aquilo que ainda
não possua no
coração. Vai!
Trabalha sem
cessar pela tua
grande vitória.
Zela por ti e
ama a teu
próximo, sem
olvidares que
Deus cuida de
todos.
*
Tadeu guardou os
esclarecimentos
de Jesus, para
retirar de sua
substância o
mais elevado
proveito no
futuro.
No dia seguinte,
desejando
destacar,
perante a
comunidade dos
seus seguidores,
a necessidade de
cada qual se
atirar ao
esforço
silencioso pela
sua própria
edificação
evangélica, o
Mestre
esclareceu aos
seus apóstolos
singelos, como
se encontra
dentro da
narrativa de
Lucas: – “Quando
o espírito
imundo sai do
homem, anda por
lugares áridos,
procurando, e
não o achando
diz: – Voltarei
para a casa
donde saí; e, ao
chegar, acha-a
varrida e
adornada.
Depois, vai e
leva mais sete
Espíritos piores
do que ele, que
ali entram e
habitam; e o
último estado
daquele homem
fica sendo pior
do que o
primeiro.”
Então, todos os
ouvintes das
pregações do
lago
compreenderam
que não bastava
ensinar o
caminho da
verdade e do bem
aos Espíritos
perturbados e
malfazejos; que
indispensável
era edificasse
cada um a
fortaleza
luminosa e
sagrada do reino
de Deus, dentro
de si mesmo.
Página
psicografada
pelo médium
Francisco
Cândido Xavier,
constante do
cap. 7 do livro
Boa Nova.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Maria no Plano Espiritual
O Espiritismo como ciência que estuda o
plano físico e o homem, o plano espiritual e os Espíritos que o compõem,
e as relações entre os dois, pôde com autoridade nos informar a
respeito das atividades do nobre Espírito Maria no Plano Espiritual.
Sabemos que quanto mais o Espírito é evoluído, mais ele trabalha no Plano Maior da Vida. Espíritos ainda materializados que somos, após o desencarne necessitamos de um período de adaptação à nova vida, isto é comum a todos, e esta adaptação, segundo nos informam os próprios Espíritos, tem o tempo maior ou menor de acordo com a condição evolutiva moral e espiritual de cada um.
Na condição mediana em que nos encontramos, mostra-nos a literatura espírita a necessidade de que o Espírito alterne momentos de trabalho com momentos de descanso, pois tendo em seu corpo espiritual, ainda, elementos materiais, mesmo que em outra dimensão, necessita de refazimento e recomposição energética. Todavia há Espíritos que, de tão grande sua evolução, jamais descansam, trabalham ininterruptamente.
Pelo que podemos depreender através de nossas reflexões este é o caso de Maria de Nazaré, aquela escolhida pelo Pai para ser a mãe do Espírito mais nobre que nosso orbe já conheceu.
No livro Boa Nova, no citado capítulo que narra sobre o seu desencarne temos que o primeiro desejo da Mãe do Salvador após deixar o corpo físico foi rever a Galileia com os seus sítios preferidos1. Bastou desejar e lá estava ela revendo o lago de Genesaré e toda sua bela paisagem.
Neste instante lembrou dos discípulos que eram já e este tempo perseguidos pela fúria humana ainda dissociada do Bem, e desejou abraçá-los fortalecendo-os em suas lutas íntimas. É que já acontecia por parte das autoridades do império romano as perseguições aos seguidores de Jesus, perseguições estas que levavam os cristãos autênticos a grandes sacrifícios em favor do Evangelho. Bastou esta expressão de sua vontade e rapidamente se viu em Roma onde nos cárceres do Esquilino centenas de seguidores de Seu Filho sofriam terríveis constrangimentos.
Narra Humberto de Campos que imediatamente os condenados experimentaram no coração um consolo desconhecido.
E continuando a narrativa informa-nos o cronista do Mundo Invisível:
Maria se aproximou de um a um, participou de suas angústias e orou com as suas preces, cheias de sofrimento e confiança. Sentiu-se mãe daquela assembleia de torturados pela injustiça do mundo. Espalhou a claridade misericordiosa de seu Espírito entre aquelas fisionomias pálidas e tristes.
Eram anciães que confiavam no Cristo, mulheres que por ele haviam desprezado o conforto do lar, jovens que depunham no Evangelho do Reino toda a sua esperança. Maria aliviou-lhes o coração e, antes de partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos espíritos abatidos uma lembrança perene. Que possuía para lhes dar? Deveria suplicar a Deus para eles a liberdade?! Mas, Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravidão com Deus do que a falsa liberdade nos desvãos do mundo. Recordou que seu filho deixara a força da oração como um poder incontrastável entre os discípulos amados. Então, rogou ao Céu que lhe desse a possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da alegria. Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e macilento, lhe disse ao ouvido:
— “Canta minha filha! Tenhamos bom ânimo!… Convertamos as nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!…”.
A triste prisioneira nunca saberia compreender o porquê da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração. De olhos extáticos, contemplando o firmamento luminoso, através das grades poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em consoladoras rimas de júbilo e esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que choravam no cárcere, aguardando o glorioso testemunho.
Acrescenta ainda o autor espiritual que:
Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a bendita entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua alegria, guardando a suave herança de nossa Mãe Santíssima. 2
Notamos assim, que desde o primeiro momento no Plano Espiritual Maria, já consciente, trabalha e intercede pelos sofredores buscando aliviá-los de suas dores e angústias, sejam elas de natureza física ou espiritual.
Há belíssimo poema de Maria Dolores que conta-nos com todo lirismo o socorro de Maria ao Espírito Judas Iscariotes em momentos que este sofria grave crise de consciência.
Citamo-lo a seguir:
RETRATO DE MÃEDepois de muito tempo,
Sobre os quadros sombrios do Calvário,
Judas, cego no Além, errava solitário…
Era triste a paisagem, o céu era nevoento…
Cansado de remorso e sofrimento,
Sentara-se a chorar…
Nisso, nobre mulher de Planos superiores,
Nimbada de celestes esplendores,
Que ele não conseguia divisar,
Chega e afaga a cabeça do infeliz.
Em seguida, num tom de carinho profundo,
Quase que, em oração, ela lhe diz:
— Meu filho, por que choras?
Acaso, não sabeis? — replica o interpelado,
Claramente agressivo,
Sou um morto e estou vivo.
Matei-me e novamente estou de pé,
Sem consolo, sem lar, sem amor e sem fé…
Não ouvistes falar em Judas, o traidor?
Sou eu que aniquilei a vida do Senhor…
A princípio, julguei poder faze-lo rei,
Mas apenas lhe impus sacrifício, martírio, sangue e cruz.
E em flagelo e aflição
Eis a que a minha vida agora se reduz…
Afastai-vos de mim,
Deixai-me padecer neste inferno sem fim…
Nada me pergunteis, retirai-vos senhora,
Nada sabeis da mágoa que me agita,
Nunca penetrareis minha dor infinita…
O assunto que lastimo é unicamente meu…
No entanto, a dama calma respondeu:
— Meu filho, sei que sofres, sei que lutas,
Sei a dor que te causa o remorso que escutas,
Venho apenas falar-te
Que Deus é sempre amor em toda parte..
E acrescentou serena:
— A Bondade do Céu jamais condena;
Venho por mãe a ti, buscando um filho amado.
Sofre com paciência a dor e a prova;
Terás, em breve, uma existência nova…
Não te sintas sozinho ou desprezado.
Judas interrompeu-a e bradou, rude e pasmo:
— Mãe? Não me venhais aqui com mentira e sarcasmo.
Depois de me enforcar num galho de figueira,
Para acordar na dor,
Sem mais poder fugir à vida verdadeira,
Fui procurar consolo e força de viver
Ao pé da pobre mãe que me forjara o ser!…
Ela me viu chorando e escutou meus lamentos,
Mas teve medo de meus sofrimentos.
Expulsou-me a esconjuros,
Chamou-me monstro, por sinal,
Disse que eu era
Unicamente o Espírito do mal;
Intimou-me a terrível retrocesso,
Mandando que apressasse o meu regresso
Para a zona infernal, de onde, por certo, eu vinha…
Ah! detesto lembrar a horrível mãe que eu tinha…
Não me faleis de mães, não me faleis de amor,
Sou apenas um monstro sofredor…
— Inda assim — disse a dama docemente —
Por mais que me recuses, não me altero;
Amo-te, filho meu, amo-te e quero
Ver-te, de novo, a vida
Maravilhosamente revestida
De paz e luz, de fé e elevação…
Virás comigo à Terra,
Perderás, pouco a pouco, o ânimo violento,
Terás o coração
Nas águas de bendito esquecimento.
Numa nova existência de esperança,
Levar-te-ei comigo
A remansoso abrigo,
Dar-te-ei outra mãe! Pensa e descansa!…
E Judas, nesse instante,
Como quem olvidasse a própria dor gigante
Ou como quem se desagarra
De pesadelo atroz,
Perguntou: — quem sois vós?
Que me falais assim, sabendo-me traidor?
Sois divina mulher, irradiando amor
Ou anjo celestial de quem pressinto a luz?!…
No entanto, ela a fitá-lo, frente a frente,
Respondeu simplesmente:
—Meu filho, eu sou Maria, sou a mãe de Jesus.3
1 XAVIER F. C. /Humberto de Campos (Espírito), 1982, cap. 30
2 XAVIER F. C. /Humberto de Campos (Espírito), 1982, cap. 30.
3 XAVIER F. C. / Espíritos diversos. Momentos de Ouro, São Bernardo do Campo, GEEM, 1977 cap. 3
Fonte: Casa Paz e Luz
Autor: Claudio Fajardo de Castro (Juiz de Fora/MG)
Sobre os quadros sombrios do Calvário,
Judas, cego no Além, errava solitário…
Era triste a paisagem, o céu era nevoento…
Cansado de remorso e sofrimento,
Sentara-se a chorar…
Nisso, nobre mulher de Planos superiores,
Nimbada de celestes esplendores,
Que ele não conseguia divisar,
Chega e afaga a cabeça do infeliz.
Em seguida, num tom de carinho profundo,
Quase que, em oração, ela lhe diz:
— Meu filho, por que choras?
Acaso, não sabeis? — replica o interpelado,
Claramente agressivo,
Sou um morto e estou vivo.
Matei-me e novamente estou de pé,
Sem consolo, sem lar, sem amor e sem fé…
Não ouvistes falar em Judas, o traidor?
Sou eu que aniquilei a vida do Senhor…
A princípio, julguei poder faze-lo rei,
Mas apenas lhe impus sacrifício, martírio, sangue e cruz.
E em flagelo e aflição
Eis a que a minha vida agora se reduz…
Afastai-vos de mim,
Deixai-me padecer neste inferno sem fim…
Nada me pergunteis, retirai-vos senhora,
Nada sabeis da mágoa que me agita,
Nunca penetrareis minha dor infinita…
O assunto que lastimo é unicamente meu…
No entanto, a dama calma respondeu:
— Meu filho, sei que sofres, sei que lutas,
Sei a dor que te causa o remorso que escutas,
Venho apenas falar-te
Que Deus é sempre amor em toda parte..
E acrescentou serena:
— A Bondade do Céu jamais condena;
Venho por mãe a ti, buscando um filho amado.
Sofre com paciência a dor e a prova;
Terás, em breve, uma existência nova…
Não te sintas sozinho ou desprezado.
Judas interrompeu-a e bradou, rude e pasmo:
— Mãe? Não me venhais aqui com mentira e sarcasmo.
Depois de me enforcar num galho de figueira,
Para acordar na dor,
Sem mais poder fugir à vida verdadeira,
Fui procurar consolo e força de viver
Ao pé da pobre mãe que me forjara o ser!…
Ela me viu chorando e escutou meus lamentos,
Mas teve medo de meus sofrimentos.
Expulsou-me a esconjuros,
Chamou-me monstro, por sinal,
Disse que eu era
Unicamente o Espírito do mal;
Intimou-me a terrível retrocesso,
Mandando que apressasse o meu regresso
Para a zona infernal, de onde, por certo, eu vinha…
Ah! detesto lembrar a horrível mãe que eu tinha…
Não me faleis de mães, não me faleis de amor,
Sou apenas um monstro sofredor…
— Inda assim — disse a dama docemente —
Por mais que me recuses, não me altero;
Amo-te, filho meu, amo-te e quero
Ver-te, de novo, a vida
Maravilhosamente revestida
De paz e luz, de fé e elevação…
Virás comigo à Terra,
Perderás, pouco a pouco, o ânimo violento,
Terás o coração
Nas águas de bendito esquecimento.
Numa nova existência de esperança,
Levar-te-ei comigo
A remansoso abrigo,
Dar-te-ei outra mãe! Pensa e descansa!…
E Judas, nesse instante,
Como quem olvidasse a própria dor gigante
Ou como quem se desagarra
De pesadelo atroz,
Perguntou: — quem sois vós?
Que me falais assim, sabendo-me traidor?
Sois divina mulher, irradiando amor
Ou anjo celestial de quem pressinto a luz?!…
No entanto, ela a fitá-lo, frente a frente,
Respondeu simplesmente:
—Meu filho, eu sou Maria, sou a mãe de Jesus.3
1 XAVIER F. C. /Humberto de Campos (Espírito), 1982, cap. 30
2 XAVIER F. C. /Humberto de Campos (Espírito), 1982, cap. 30.
3 XAVIER F. C. / Espíritos diversos. Momentos de Ouro, São Bernardo do Campo, GEEM, 1977 cap. 3
Fonte: Casa Paz e Luz
Autor: Claudio Fajardo de Castro (Juiz de Fora/MG)
domingo, 2 de dezembro de 2012
PRIMEIRAS PREGAÇÕES
Primeiras pregações
Livro: Boa Nova - Cap. 3
Humberto de Campos & Francisco Cândido Xavier
Nos primeiros dias do ano 30, antes de suas gloriosas manifestações, avistou-se Jesus com o Batista, no deserto triste da Judéia, não muito longe das areias ardentes da Arábia. Ambos estiveram juntos, por alguns dias, em plena Natureza, no campo ríspido do jejum e da penitência do grande precursor, até que o Mestre Divino, despedindo-se do companheiro, demandou o oásis de Jericó, uma bênção de verdura e águas entre as inclemências da estrada agreste. De Jericó dirigiu-se então a Jerusalém, onde repousou, ao cair da noite.Sentado como um peregrino, nas adjacências do Templo, Jesus foi notado por um grupo de sacerdotes e pensadores oCiOSOS, que se sentiram atraidos pelos seus traços de formosa originalidade e pelo seu olhar lúcido e profundo. Alguns deles se afastaram, sem maior interesse, mas Hanã, que seria, mais tarde, o juiz inclemente de sua causa, aproximou-se do desconhecido e dirigiu-se-lhe com orgulho:- Galileu, que fazes na cidade?- Passo por Jerusalém, buscando a fundação do Reino de Deus! exclamou o Cristo, com modesta nobreza.- Reino de Deus? tornou o sacerdote com acentuada ironia. E que pensas tu venha a ser isso?- Esse Reino é a obra divina no coração dos homens! esclareceu Jesus, com grande serenidade.- Obra divina em tuas mãos? revidou Hanã, com uma gargalhada de desprezo.E, continuando as suas observações irônicas, perguntou:- Com que contas para levar avante essa difícil empresa? Quais são os teus seguidores e companheiros?... Acaso terás conquistado o apoio de algum príncipe desconhecido e ilustre, para auxiliar-te na execução de teus planos?- Meus companheiros hão de chegar de todos os lugares respondeu o Mestre com humildade.= Sim observou Hanã —, os ignorantes e os tolos estão em toda parte na Terra. Certamente que esse representará o material de tua edificação. Entretanto, propões-te realizar uma obra divina e já viste alguma estátua perfeita modelada em fragmentos de lama?- Sacerdote - replicou-lhe Jesus, com energia serena —, nenhum mármore existe mais puro e mais formoso do que o do sentimento, e nenhum cinzel é superior ao da boa-vontade.Impressionado com a resposta firme e inteligente, o famoso juiz ainda interrogou: - Conheces Roma ou Atenas?- Conheço o amor e a verdade disse Jesus convictamente.- Tens ciência dos códigos da Corte Provincial e das leis do Templo? inquiriu Hanã, inquieto.- Sei qual é a vontade de meu Pai que está nos céus respondeu o Mestre, brandamente.O sacerdote o contemplou irritado e, dirigindo-lhe um sorriso de profundo desprezo, demandou a Torre Antônia, em atitude de orgulhosa superioridade.No dia seguinte, pela manhã, o mesmo formoso peregrino foi ainda visto a contemplar as maravilhas do santuário, antes alguns minutos de internar-se pelas estradas banhadas de sol, a caminho de sua Galiléia distante.* * *Daí a algum tempo, depois de haver passado por Nazaré, descansando igualmente em Caná, Jesus se encontrava nas circunvizinhanças da cidadezinha de Cafarnaum, cómo se procurasse, com viva atenção, algum amigo que estivesse à sua espera.Em breves instantes, ganhou as margens do Tiberíades e se dirigiu, resolutamente, a um grupo alegre de pescadores, como se, de antemão, os conhecesse a todos.A manhã era bela, no seu manto diáfano de radiosas neblinas. As águas transparentes vinham beijar os eloendros da praia, como se brincassem ao sopro das virações perfumadas da Natureza. Os pescadores entoavam uma cantiga rude e, dispondo inteligentemente as barcaças móveis, deitavam as redes, em meio de profunda alegria.Jesus aproximou-se do grupo e, assim que dois deles desembarcaram em terra, falou-lhes com amizade: - Simão e André, filhos de Jonas, venho da parte de Deus e vos convido a trabalhar pela instituição de seu reino na Terra!André lembrou-se de já o ter visto, nas cercanias de Betsaida, e do que lhe haviam dito a seu respeito, enquanto que Simão, embora agradavelmente surpreendido, o contemplava, enleado. Mas, quase a um só tempo, dando expansão aos seus temperamentos acolhedores e sinceros, exclamaram respeitosamente:- Sede bem-vindo!...Jesus então lhes falou docemente do Evangelho, com o olhar incendido de júbilos divinos.Estando muitos outros companheiros do lago a observar de longe os três, André, manifestando a sua tocante ingenuidade, exclamou comovido:- Um rei? Mas em Cafarnaum existem tão poucas casas!..Ao que Pedro obtemperou, como se a boa-vontade devesse suprir todas as deficiências:- O lago é muito grande e há várias aldeias circundando estas águas, O reino poderá abrangê-las todas! Isso dizendo, fixou em Jesus o olhar perquiridor, como se fora uma grande criança meiga e sincera, desejosa de demonstrar compreensão e bondade, O Senhor esboçou um sorriso sereno e, como se adiasse com prazer as suas explicações para mais tarde, inquiriu generosamente:- Quereis ser meus discípulos? André e Simão se interrogaram a si mesmos, permutando sentimentos de admiração embevecida. Refletia Pedro: que homem seria aquele? onde já lhe escutara o timbre carinhoso da voz íntima e familiar? Ambos os pescadores se esforçavam por dilatar o domínio de suas lembranças, de modo a encontrá-lo nas recordações mais queridas, Não sabiam, porém, como explicar aquela fonte de confiança e de amor que lhes brotava no âmago do espírito e, sem hesitarem, sem uma sombra de dúvida, responderam simultaneamente:- Senhor, seguiremos os teus passos.Jesus os abraçou com imensa ternura e, como os demais companheiros se mostrassem admirados e trocassem entre si ditérios ridicularizadores, o Mestre, acompanhado de ambos e de grande grupo de curiosos, se encaminhou para o centro de Cafarnaum, onde se erguia a Intendência de Ântipas. Entrou calmamente na coletoria e, avistando um funcionário culto, conhecido publicano da cidade, perguntou-lhe:- Que fazes tu, Levi? O interpelado fixou-o com surpresa; mas, seduzido pelo suave magnetismo de seu olhar, respondeu sem demora:- Recolho os impostos do povo, devidos a Herodes.- Queres vir comigo para recolher os bens do céu? perguntou-lhe Jesus, com firmeza e doçura.Levi, que seria mais tarde o apóstolo Mateus, sem que pudesse definir as santas emoções que lhe dominaram a alma, atendeu, comovido:- Senhor, estou pronto!..- Então, vamos disse Jesus, abraçando-o.Em seguida, o numeroso grupo se dirigiu para a casa de Simão Pedro, que oferecera ao Messias acolhida sincera em sua residência humilde, onde o Cristo fez a primeira exposição de sua consoladora doutrina, esclarecendo que a adesão desejada era a do coração sincero e puro, para sempre, às claridades do seu reino. Iniciou-se naquele instante a eterna união dos inseparáveis companheiros.* * *Na tarde desse mesmo dia, o Mestre fez a primeira pregação da Boa Nova na praça ampla, cercada de verdura e situada naturalmente junto às águas.No céu, vibravam harmonias vespertinas, como se a tarde possuísse também uma alma sensível. As árvores vizinhas acenavam os ramos verdes ao vento do crepúsculo, como mãos da Natureza que convidassem os homens à celebração daquele primeiro ágape. As aves ariscas pousavam de leve nas alcaparreiras mais próximas, como se também desejassem senti-lo, e na praia extensa se acotovelava a grande multidão de pescadores rústicos, de mulheres aflitas por continuadas flagelações, de crianças sujas e abandonadas, misturados publicanos pecadores com homens analfabetos e simples, que haviam acorrido, ansiosos por ouvi-lo.Jesus contemplou a multidão e enviou-lhe um sorriso de satisfação.Contrariamente às ironias de Hanã, ele aproveitaria o sentimento como mármore precioso e a boa-vontade como cinzel divino. Os ignorantes do mundo, os fracos, os sofredores, os desalentados, os doentes e os pecadores seriam em suas mãos o material de base para a sua construção eterna e sublime. Converteria toda miséria e toda dor num cântico de alegria e, tomado pelas inspirações sagradas de Deus, começou a falar da maravilhosa beleza do seu reino. Magnetizado pelo seu amor, o povo o escutava num grande transporte de ventura. No céu havia uma vibração de claridade desconhecida.Ao longe, no firmamento de Cafarnaum, o horizonte se tornara um deslumbramento de luz e, bem no alto, na cúpula dourada e silenciosa, as nuvens delicadas e alvas tomavam a forma suave das flores e dos arcanjos do Paraíso.
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