Aprendemos com a Doutrina Espírita que o progresso dos
seres é inevitável, pois que é estabelecido pela Lei Divina. Podemos
postergar nossa evolução ou permanecer estagnados por longos períodos,
mas jamais regredimos na escalada de aprimoramento espiritual.
Desta
forma, Deus não exige de nós o despertamento para as questões éticas,
morais e espirituais, tampouco nos pressiona para que arregacemos as
mangas e comecemos a trabalhar.
Isso não representa, contudo, uma
postura de omissão do Criador. Somos constantemente convidados a
ingressar nas boas obras, nos mais diversos segmentos, mas nem sempre
prestamos atenção às oportunidades ou, se as percebemos, fingimos
ignorância e continuamos na inércia.
Por que isso ocorre?
“Estipulamos algo, um pagamento, mesmo de forma inconsciente,
proporcional àquilo que estamos fazendo. Vivenciar, pois, o altruísmo é
algo difícil de ser verificado.”[1]
E não satisfeitos em esperar
uma retribuição pelos serviços prestados, ainda exigimos que esta seja
proporcional ao tempo dedicado no serviço do bem.
“Aportamos numa
instituição e nos candidatamos a realizar trabalhos, abraçando um após
outro, e às vezes verificamos que outro companheiro espírita realiza
somente um e é ovacionado. Tal fato pode causar descontentamento.”[1]
Ao
apresentar os trabalhadores da última hora no seu rol de ensinamentos,
Jesus teve por objetivo destacar que o importante não é quando
começamos, mas se começamos – e com sinceridade e devoção.
“Às
vezes estamos há décadas na Doutrina Espírita, mas ela não completou um
ano em nossas vidas, enquanto outros adentraram há pouco e já a
incorporaram plenamente.”[1]
Portanto, não podemos pensar que
somos especiais. Neste mundo de provas e expiações estamos todos no
mesmo estágio e somos todos trabalhadores da última hora, sendo
insistentemente chamados ao trabalho no bem. Basta saber se realmente
aceitamos o trabalho e se a mensagem que aprendemos ficará internalizada
no coração.
1. Trecho extraído da matéria de capa desta edição: Os trabalhadores da última hora.
"O tempo não é condição demarcatória para candidatar-nos
a ser ou não cristãos,
mas sim nosso comportamento diante da mensagem.
“O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha.”
Deus,
este Pai de família que cria incessante e obstinadamente, convida todos
nós a trabalhar na sua vinha, em sua obra. Alguns chegaram muito antes,
outros depois, enquanto há aqueles que ainda não despertaram para a
verdade bendita, a transformação moral que O Evangelho Segundo o
Espiritismo, a Doutrina Cristã e o Mestre Jesus vieram nos ensinar.
Em
suas passagens evangélicas, Jesus sempre traz, na simplicidade do
ensino, as experiências pessoais do povo. Nós, espíritas, fazemos o
mesmo para convocar as pessoas a um pensamento, a um entendimento mais
fácil, para que depois, cada um à sua maneira, possa trazer para a sua
vida pessoal e para as suas experiências a compreensão daquela mensagem.
Jesus sempre traz um elemento pedagógico para fixar o aprendizado.
“Tendo
convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por
dia, mandou-os para a vinha. – Saiu de novo à terceira hora do dia e,
vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, –
disse-lhes: Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que
for razoável. Eles foram.”
A questão do denário é para explicitar
a vinculação ao pagamento, entendendo-se aqui que foi estipulado um
valor como provento pelo serviço prestado. Outro ponto a ser destacado
neste trecho: pagará o que for razoável. Todos nós que nos dedicamos à
labuta espírita, falando dos trabalhadores em particular, nos
convencionamos, mesmo que implicitamente, a um “salário”. Este pode ser
pago através da prece ou acreditando que os bons Espíritos, alguma obra
ou algo de bom nos ajudarão nos momentos de sofrimento.
Estipulamos
algo, um pagamento, mesmo de forma inconsciente, proporcional àquilo
que estamos fazendo. Vivenciar, pois, o altruísmo é algo difícil de ser
verificado. Significa sair e deixar de enxergar a si próprio e passar a
observar a necessidade do outro, sem esperar algo em troca. Podemos não
esperar do outro, mas esperamos dos Espíritos, da Divindade, da Lei, de
alguém. De alguma forma combinamos uma retribuição, uma restituição por
aquilo que estamos fazendo. Então, por analogia, todos aqueles que eram
convocados a trabalhar na vinha daquele senhor esperavam receber o
pagamento razoável diante de seu trabalho.
“Saiu novamente à hora
sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. – Saindo mais uma vez à hora
undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais
disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É, disseram
eles, que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também
para a minha vinha.”
A questão das horas destacadas explica-se
porque, à época, o dia de trabalho começava às seis horas da manhã e
terminava às dezoito horas. As horas em questão são respectivamente:
seis, doze, quinze e dezessete horas. A hora undécima, correspondia às
dezessete horas, sendo este o elemento estranho da passagem.
Aos
que desejamos trabalhar na Vinha do Senhor, que procuramos por essa
renovação moral, por essa transformação de nós mesmos, que buscamos o
melhoramento, que temos como ponto de partida a modificação interior
para chegarmos à perfeição, para todos nós, não importa a hora da vida
que acordamos para a verdade eterna. Se são nas nossas primeiras horas
da encarnação, alguns adentram na adolescência, outros na fase adulta,
uns na idade madura, outros às portas de desencarnar, na hora undécima,
mas todos somos convidados pelo Senhor.
Que importa em que momento
estamos? Todos nós abraçamos a Doutrina Espírita, voltando o olhar para
esta mensagem rediviva que nos cala fundo e nos diz que existe uma vida
melhor, bastando nos colocarmos à disposição dessa modificação,
trabalhando por nós, melhorando quem somos no silêncio do aprendizado.
“Ao
cair da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus
negócios: Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e
indo até aos primeiros.”
Mesmo entre os espíritas este trecho
causa certo desajuste. Esquecemos que nosso acordo foi com a Lei, com a
própria consciência, não com os homens. Aportamos numa instituição e nos
candidatamos a realizar trabalhos, abraçando um após outro, e às vezes
verificamos que outro companheiro espírita realiza somente um e é
ovacionado. Tal fato pode causar descontentamento. Mas será que ao
absorvermos os trabalhos que nos foram ofertados, realmente entendemos o
sentido da obra ou queríamos tão somente ser bem quistos pela
coletividade?
“Aproximando-se então os que só à undécima hora
haviam chegado, receberam um denário cada um. – Vindo a seu turno os que
tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber
mais; porém, receberam apenas um denário cada um. – Recebendo-o,
queixaram-se ao pai de família, – dizendo: Estes últimos trabalharam
apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso do
dia e do calor. Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu
amigo, não te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um
denário pelo teu dia? Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim
dar a este último tanto quanto a ti. – Não me é então lícito fazer o que
quero? Tens mau olho, porque sou bom? Assim, os últimos serão os
primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados
e poucos os escolhidos.” (S. MATEUS, cap. XX, vv. 1 a 16.)
Quando
nos dedicamos a qualquer obra, inclusive a de renovação íntima,
acordamos com a Divindade o que entendemos como sendo bom e razoável.
Somos, contudo, tão infantis espiritualmente que quando vemos nosso
próximo recebendo um pouco mais do que estamos recebendo, e acreditamos
que ele não se esforçou tanto quanto nós, reclamamos com a Divindade,
esquecendo-nos da carga reencarnatória de méritos que possuímos e o
porvir da criatura.
Às vezes estamos há décadas na Doutrina
Espírita, mas ela não completou um ano em nossas vidas, enquanto outros
adentraram há pouco e já a incorporaram plenamente. O tempo não é
condição demarcatória para candidatar-nos a ser ou não cristãos, mas sim
nosso comportamento diante da mensagem. Somos todos trabalhadores da
última hora, sendo convocados incessantemente pelo Pai, num convite
amoroso a trabalharmos na sua Vinha de Renovação.
(...)
os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. Mateus, 20:16.
No contexto do comportamento
histórico-sociológico, o ser humano prefere utilizar-se dos primeiros lugares,
aqueles que lhe podem oferecer maior destaque no conjunto em que se movimenta,
com essa atitude agradando ao ego sempre necessitado de emulação para
desempenhar a tarefa que lhe diz respeito.
Não raro, dominado pelas
paixões derivadas da necessidade do prazer e da posse, que lhe parecem
constituir metas únicas, transforma a existência num calvário de lutas
intérminas, porquanto as ambições em crescendo não lhe facultam a paz nem o
preenchimento interior, que são indispensáveis à vida feliz.
Educado para o triunfo na
sociedade, mediante propostas hedonistas, a sua vitória deve ser disputada a
qualquer preço, não importando as consequências que possam advir dessa
filosofia utilitarista de efeitos perturbadores.
Atingido o patamar que
constituía o objetivo central dos seus esforços e interesses, não se pode
furtar ao vazio existencial ou ao continuado empenho para ter mais, tornar-se
conhecido, dominador, como se os infortúnios, as enfermidades, a velhice e a
morte não o pudessem atingir.
A existência física
parece-lhe ser a saga de realizações externas, o acumular de louros e aplausos,
num vaivém ininterrupto, cansativo e desgastante.
Os vitoriosos de um dia, no
entanto, passam, como sucede com os indivíduos de todas as camadas nas
diferentes luas que travam.
Essa conduta ilusória
responde por transtornos psicológicos muito graves e danos espirituais de
libertação penosa.
O mundo é educandário,
oficina para atividades nobres e nunca uma ilha de sorrisos e plenitude, ou um
palco de tragicomédias que deleitam apenas por um momento.
O Evangelho de Jesus é um
repositório de ensinamentos convidando à mudança de entendimento da finalidade
existencial.
Sem jamais combater a posse
ou o prazer que se derivam dos esforços dignos e dos objetivos de serviço à
Humanidade, Jesus sempre conclamou aqueles que O escutavam ao progresso
mediante o trabalho, à dignidade por meio do auxílio recíproco, demonstrando,
no entanto, a transitoriedade de todas as coisas ante a perenidade do Espírito.
Sendo possuidor de recursos
incomparáveis, aplicou-os pelo bem dos outros, nunca se permitindo humilhar ou
menosprezar os carentes, ou entregando-se ao desperdício, ao abuso do poder, à
exploração de outrem.
Vivendo intensamente o
mundo, este com suas imposições, às vezes, arbitrárias, deu curso à meta que
trazia: a instalação do Reino de Deus nas mentes e nos corações humanos.
Não seja de estranhar a sua
informação de que nesse Reino de
justiça, os que se exaltam, se glorificam e desfrutam das comodidades e
honradas terrestres, sempre nos primeiros lugares,serão os últimos, enquanto que aqueles
que sofrem que jamais experimentaram as concessões terrestres, os tesouros da
cobiça e do orgulho,serão os
primeiros.
Paradoxalmente, os eleitos
pelos homens, que deles esperam colher as migalhas que sobram nas suas mesas
elegantes e fartas de poder transitório e prestígio, salvadas as exceções
compreensíveis, acumulam os frutos da avareza, do crime silencioso e oculto, da
traição, do suborno, da astúcia desenfreada. Eles próprios sabem da conduta que
mantém, de como são interiormente e do seu desinteresse pelo progresso da
sociedade e bem-estar do seu próximo. O egoísmo que neles predomina cega-os
para a realidade existencial e para as mínimas expressões de compaixão e de
misericórdia em favor dos deserdados da fortuna, os denominados párias
sociais...
É natural que, após a
embriaguez dos sentidos e o demorado letargo na glória, despertem para a
realidade que difere do que lhes aprouve viver no mundo, anestesiando a razão e
torcendo a óptica de observação do seu irmão situado economicamente em degrau
mais baixo, quiçá pela sua indiferença ou perversidade.
À luz da Psicologia
Profunda, o texto evangélico em epígrafe trabalha contra a sombra do
poder-prazer, diluindo o ego ambicioso e perverso ante as claridades
diamantinas do Subconsciente das suas altas responsabilidades de edificação da
criatura humana.
A coragem de Jesus é
incomparável, porquanto diante da alucinação dominante nos Seus dias, formulou
a Parábola dos trabalhadores da última hora, enfrentando a presunção farisaica
e o orgulho hebreu de considerar-se privilegiado por Deus, em face do seu comportamento
monoteísta e das inúmeras Revelações de que a raça foi instrumento. Em
contrapartida, eles não se davam conta de que a abundância de informações que
esclarecem constitui pesada carga de responsabilidade moral para aqueles que
lhe recebem o benefício.
Nasceu Jesus em Israel de
forma que se cumprissem as profecias; no entanto, Ele não pertence a um povo, a
uma raça, a uma época, sendo de todas as nações e de todos os tempos, sem
compromisso específico com quaisquer que Lhe queiram disputar a dominação.
Ele asseverou com severidade
que tinha outras ovelhas que não eram daquele rebanho, confirmando a Sua
independência e total liberdade de ação em relação a todas as criaturas
humanas.
Os profetas foram os
primeiros a trazerem a notícia da vida espiritual, da Justiça Divina, das
consequências dos atos morais em relação ao próprio ser. Cumpriram com as suas
missões abrindo espaços luminosos para aqueles que viriam mais tarde. São
considerados trabalhadores da primeira hora, na visão da Psicologia Profunda à
Parábola do Mestre, por haverem suportado a invernia dos sentimentos e a
canícula das paixões desequilibradas. Enfrentaram o solo áspero dos corações e
não desistiram mesmo quando as dificuladades se lhes apresentavam quase
impossíveis de superadas.
Logo depois, vieram os
intelectuais, seus herdeiros, os mártires, os Pais da Igreja, os missionários
do bem, os lutadores da solidariedade humana, que haviam haurido, nos
ensinamentos recebidos, os exemplos e os estímulos para continuarem trabalhando
a terra ingrata dos sentimentos terrestres, nessa luta incessante contra a
sombra coletiva poderosa, mesmo que a contributo da própria vida, conforme
ocorrera com o seu Mestre.
Por fim veio a Revelação
Espírita, que faz desaguar no oceano do mundo espiritual todas as propostas da
imortalidade, que é desvelada pela mediunidade, da Justiça Divina atestada pela
reencarnação e confirmada pelos fatos e pela experiência da fé raciocinada e
lógica.
Os tempos modificaram-se,
mas as lutas, embora com aspectos diferentes, prosseguem terrificantes e de
efeitos cruéis. As atrações do prazer estão multiplicadas pelos veículos da
Informática, o abuso dos sentimentos torna-se quase hediondo, as facilidades
para o vício e o desvio de rota multiplicam-se a cada instante, e o discípulo
sincero da Boa–nova apresenta-se como um estranho no palco das excentricidades
hodiernas.
Parece mesmo não haver lugar
na sociedade para quem abraça a Doutrina de Jesus desvelada dos enigmas e
libertada das mazelas e desvios que sofreu através dos séculos...
Sabendo, no entanto, que o
tempo é escasso e as circunstâncias não são favoráveis, uma empatia superior
domina o sentimento desse servidor devotado, impulsionando-o ao prosseguimento
do esforço de autotransformação para melhor, superando as marcas do passado, as
heranças primitivas e trabalhando com acendrado amor. Os seus objetivos
centram-se no serviço do Bem e mesmo vivendo os condicionamentos do mundo,
psicologicamente mantém-se em termos de consciência de si mesmo, administrando
as funções da máquina física sem castrar-se ou fugir dos compromissos que lhe
dizem respeito, não dependendo dos caprichos terrestres, porque vinculado
emocionalmente à Vida sem limite.
Compreendendo o convite de
Jesus para que sirva em quaisquer condições que apareçam, nunca desanima no
serviço, reforçando as convicções espirituais quanto maiores testemunhos surjam
pelo caminho iluminativo.
Sucede que muitos desses
trabalhadores, ora engajados na renovação, retornaram ao proscênio terrestre
para darem cumprimento aos deveres que ficaram interrompidos na retaguarda, em
outras reencarnações fracassadas, quando, atraídos pelos ouropéis abandonaram a
charrua, embriagando-se de prazeres e enlouquecendo mais tarde de remorso,
quando então solicitaram a bênção do recomeço e da reparação... Repetem hoje as
experiências malogradas anteriormente.
Sem qualquer desconsideração
pelos diferentes credos religiosos e filosofias existentes, aos espíritas
conscientes das suas responsabilidades – aqueles mesmos que se equivocaram e
agora recomeçam em condições melhores – cabem neste momento graves compromissos
que não podem nem devem ser postergados, quais sejam os de proclamar a Era Nova
e demonstrar pela lógica e pelo bom senso, assim como através dos fatos da
mediunidade dignificada, a existência do mundo causal, a anterioridade do
Espírito ao corpo, os incomparáveis recursos saudáveis defluentes da conduta
correta, dos pensamentos edificantes, da ação do bem ininterrupto.
Comprometido com os Imortais
que têm a tarefa de apressar estas horas, o trabalhador convidado pela
consciência lúcida do dever é estimulado a superar o ego e investir as suas
melhores energias na vivência e divulgação da Mensagem evangélica sem jaça.
Simultaneamente, deverá
preparar a sociedade terrestre para a reencarnação de milhões de missionários
do bem e da caridade, que logo mais brilharão no mundo em sombras como estrelas
polares apontando os novos rumos para a Humanidade cansada de gozo e prazer,
sequiosa de paz e de renovação.
Nessa oportunidade que
chega, espocarão as luzes da verdade desbastando as trevas teimosas da
ignorância, os preconceitos doentios da vaidade, os prejuízos morais
estabelecidos pelos gananciosos, e o amor triunfará dos caprichos da libido,
expressando-se sem tormentos nem angústias, em formoso contributo para a
felicidade geral.
É inevitável, portanto, que
os últimos sejam os primeiros, e os primeiros sejam os últimos, conforme
expressou Jesus na Sua delicada parábola.
do livro Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda
A Terra Espera; Arai! José Carlos da Silva Silveira
Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai! Erasto
No capítulo XX de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec - Os Trabalhadores da Última Hora
-, destacamos uma mensagem, assinada pelo Espírito Erasto, de alto
significado para o Movimento Espírita. Trata-se do texto intitulado Missão dos espíritas, que trazemos a estas páginas, para reflexão. A
mensagem em referência traça o programa a ser desenvolvido pelos
espíritas, com vistas à divulgação do Espiritismo, ressaltando o momento
presente de transformação moral do Planeta como oportunidade
inigualável para a realização dessa tarefa. Erasto sintetiza-o usando de
magnífica imagem, que expressa vibrante convocação: Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai!
Esse programa de ação se desdobra em três aspectos. O primeiro deles se patenteia na expressão o arado está pronto.
O arado
é aparelho usado para arar a terra, a fim de prepará-la para receber a
semente. Em nossa tarefa de divulgação da Doutrina Espírita, o arado
pode ser entendido como os instrumentos que possuímos, ou detemos, para
agir. São os nossos conhecimentos, as nossas experiências, as nossas
disponibilidades, às nossas aquisições intelectuais e morais, as nossas
possibilidades materiais e sociais, enfim, todos os talentos de que
dispomos, convidando-nos, incessantemente a servir.
O arado está pronto.
Assim é porque a Doutrina Espírita vem, ao longo do tempo, educando-nos
para compreender a vida sob um novo prisma: o do espírito. Sob esse
enfoque, possuímos já condições de usar os nossos talentos tendo em
vista o bem geral e não apenas os nossos interesses pessoais,
enquadrando-nos, assim, dentro dos parâmetros definidos por Karde para o
verdadeiro espírita - aquele que se reconhece pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.
Dessa forma, para a ação que nos compete, falta-nos tão-somente um
elemento: o exercício da nossa vontade. Daí apressar-se Erasto a
concitar: Mãos à obra!, recordando Jesus, quando afirmou: Ni8nguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus. (Kycasm 9:62.)
Com efeito, é preciso pôr mãos à obra:
Não
escutais já o ruído da tempestade que há de arrebatar o velho mundo e
abismar no nada o conjunto das iniquidades terrenas? Ah! bendizei o
Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que,
novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores,
ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres.
Não
vos assusteis! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Ó
verdadeiros adeptos do Espiritismo!... sois os escolhidos de Deus! Ide e
pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à
sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas
ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados. (Erasto, Missão dos Espíritas.)
O segundo aspecto do programa vem descrito pela expressão a terra espera.
De fato, a terra espera a semente, pois é nela que esta deve germinar. Consoante ensina Jesus, na Parábola do semeador,
mesmo a terra improdutiva pode receber a semente. Compete, porém, ao
agricultor, quando necessário, preparar previamente a terra, para que a
semente aí lançada tenha condições de germinar e dar frutos. De igual
sorte, a Humanidade anseia por ensinamentos que a despertem ou estimulem
para o progresso moral. Principalmente nos dias atuais, em que o
Planeta está prestes a entrar em novo estágio evolutivo, vê-se uma
carência generalizada de espiritualidade. Os homens desejam novos rumos
para a sua vida, embora muitas vezes não saibam o que fazer para
descobri-los. Assemelham-se, em tudo, à terra, segundo descrito na Parábola do semeador,
encontram-se na expectativa de algo novo que os possa guiar por
caminhos menos íngremes na busca de horizontes espirituais mais amplos;
entretanto, enfrentam dificuldades para a recepção dos ensinos
superiores, por não serem, ainda, em grande parte, maduros para
compreendê-los. Como proceder, então, para preparar a terra dos corações
humanos de modo que se torne, de alguma forma, receptiva aos ensinos do
Espiritismo? Erasto aponta o caminho a seguir, descerrando-nos o
terceiro aspecto do seu programa de ação: "arai!". A propósito, explica:
Ide
e pregai. (...) Certamente falareis a criaturas que não quererão
escutar a voz de Deus, porque essa voz as exorta incessantemente à
abnegação. Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos
dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos como aos déspotas!
Palavras perdidas, eu o sei; mas não importa. Faz-se mister regueis com
os vossos suores o terreno onde tendes de semear, porquanto ele não
frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e
da charrua evangélicas. Ide e pregai!
A
fé é a virtude que desloca montanhas (...). Todavia, mais pesados do
que as maiores montanhas, jazem depositados nos corações dos homens a
impureza e todos os vícios que derivam da impureza. Parti, então, cheios
de coragem, para removerdes essa montanha de iniquidades que as futuras
gerações só deverão conhecer como lenda (...).
Ide, pois, e
levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que
exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque,
principalmente entre os mártires do trabalho, desta provação terrena,
encontrareis fervor e fé.
Assim, é preciso [i]ir e pregar,[/i] não medindo esforços para que a Doutrina Espírita seja devidamente compreendida por todos.
A tarefa não é fácil. Mas, se o arado está pronto, e se a terra espera, o que nos compete é arar, pois, só assim, colheremos:
Um
arado promete serviço, disciplina, aflição e cansaço; no entanto, não
se deve esquecer que, depois dele, chegam semeaduras e colheitas, pães
no prato e celeiros guarnecidos. (Emmanuel, Pão Nosso, ed. FEB, cap. 3)
Torna-se
necessário, contudo, tomarmos as devidas precauções, a fim de que o
trabalho atinja dos resultados propostos pelos Espíritos Superiores.
Nesse contexto, urge atentar para o real sentido das palavras de Erasto,
quando comanda: Ide e pregai.
Em verdade, esse chamamento não se circunscreve à tarefa da divulgação do Espiritismo por meio da palavra, sob quaisquer das suas modalidades. Esse ponto Erasto apresenta, com extrema nitidez, na parte final da sua mensagem, in verbis:
Ide
e agradecei a Deus a gloriosa tarefa que Ele vos confiou; mas, atenção!
entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai,
pois, o vosso caminho e segui a verdade.
Pergunta. - Se,
entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os
sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho?
Resposta. - Reconhecê-lo-eis
pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e
praticarão. Reconhecê-lo-eis pelo número de aflitos a que levem consolo;
reconhecê-lo-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu
desinteresse pessoal; reconhecê-lo-eis, finalmente, pelo triunfo de
seus princípios, porque Deus quer o triunfo de Sua lei, os que seguem
Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele
destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau
para contentar sua vaidade e sua ambição.
Vê-se,
claramente, nas palavras acima reproduzidas, que a exemplificação dos
ensinos espíritas é a real garantia da correta divulgação do
Espiritismo. E isso se torna perfeitamente lógico quando se compreende o
valor da força do exemplo no processo de atração dos Espíritos, em
quaisquer graus evolutivos em que estagiem.
Isto posto,
poderíamos, com base na mensagem sob estudo, relacionar algumas
qualidades morais necessárias aos espíritas para o bom êxito do seu
trabalho na divulgação do Espiritismo. São as seguintes: ter fé, ensinar
e praticar a caridade; consolar os aflitos; amar o próximo; ter
perseverança, abnegação e desinteresse pessoal; ser capaz de conquistar
para o bem.
Evidentemente, a aquisição dessas qualidades não é
trabalho de um dia, constituindo-se, de fato, em meta sublime a atingir,
em nossas lutas evolutivas. Nada obstante, não se pode negar que, à
medida que as vamos adquirindo, mais se nos enriquece a ação
doutrinária, e mais se amplia a nossa convicção de que não estamos
incluídos dentre aqueles que, chamados para o Espiritismo (...) se transviaram.
Por
outro lado, a busca das qualidades em apreço fortalecerá a união dos
espíritas, ampliando, pelos esforços de uma ação conjunta, as
possibilidades de expansão do Espiritismo. É o que deflui das seguintes
palavras do Espírito de Verdade, constantes na mensagem Os obreiros do Senhor, também inserida no capítulo XX de O Evangelho segundo o Espiritismo:
Aproxima-se
o tempo em que se cumprirão as coisas anunciadas para a transformação
da Humanidade. Ditosos os que houverem trabalhado no campo do Senhor,
com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade! Seus dias de
trabalho serão pagos pelo cêntuplo do que tiverem esperado. Ditosos os
que hajam dito a seus irmãos: "Trabalhemos juntos e unamos os nossos
esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra",
porquanto o Senhor lhes dirá: "Vinde a mim, vós que sois bons
servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às
vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra."
A
precariedade, por ora, das nossas qualidades morais diante do grave
compromisso assumido junto à Doutrina Espírita não afasta a
possibilidade de sentirmos, desde já, a alegria e a paz advindas do
cumprimento do nosso dever. Nesse sentido, encontramos belíssima página
de Emmanuel - intitulada No Paraíso -, inserida na obra Pão Nosso,
cap. 81. Na referida página, o abnegado benfeitor espiritual situa todo
aquele que desperta para as verdades do espírito na posição do chamado bom ladrão, a quem Jesus promete a entrada imediata no paraíso. São dele as palavras seguintes:
Podemos
apresentar-nos com volumosa bagagem de débitos do passado escuro, ante a
verdade; mas desde o instante em que nos rendemos aos desígnios do
Senhor, aceitando sinceramente o dever da própria regeneração, avançamos
para região espiritual diferente, onde tudo jugo é suave e todo fardo é
leve. Chegado a essa altura, o espírito endividado não permanecerá em
falsa atitude beatífica, reconhecendo, acima de tudo, que, com Jesus, o
sofrimento é retificação e as cruzes são claridades imortais.
Ainda, para finalizar esta reflexão em torno das considerações de Erasto, a respeito da missão dos espíritas, trazemos a lume outra instrução de Emmanuel bastante significativa para o entendimento deste assunto. Trata-se da mensagem Crê e Segue, contida também no livro Pão Nosso, cap. 180. Com toda a delicadeza do seu espírito de escol, leciona Emmanuel:
Se
abraçaste, meu amigo, a tarefa espírita-cristã, em nome da fé
sublimada, sedento de vida superior, recorda que o Mestre te enviou o
coração renovado ao vasto campo do mundo para servi-Lo.
Não só ensinarás o bom caminho. Agirás de acordo com os princípios elevados que apregoas.
Ditarás diretrizes nobres para os outros, contudo, marcharás dentro delas, por tua vez.
Proclamarás
a necessidade de bom ânimo, mas seguindo, estrada a fora, semeando
alegrias e bênçãos, ainda mesmo quando incompreendido de todos.
Ora e vigia. Ama e espera. Serve e renuncia. Se não te dispões a aproveitar a lição do Mestre Divino, afeiçoando a própria vida aos seus ensinamentos a tua fé terá sido vã.
Ante
o exposto, forçoso é convir na permanência do cumprimento do programa
de ação delineado por Erasto, e que se alicerça na exemplificação da
vivência espírita. Arai! - exorta o benfeitor espiritual -, porque a terra espera. Urge fazê-lo sem detença, porque o arado está pronto.
É
pela perseverança no bem que atrairemos os nossos irmãos em humanidade
para a excelência da proposta de vida que o Espiritismo descerra,
preparando os seus corações para a germinação dos ensinos superiores,
que frutificarão em alegria e paz, proporcionando, para eles e para nós,
a colheita farta da felicidade sem mescla.
_______________________ Extraído da Revista Reformador nº 2072, novembro/2001