Eternidade

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sábado, 14 de janeiro de 2017

Educação e função dos médiuns


Nada verdadeiramente importante se adquire sem trabalho. Uma lenta e laboriosa iniciação se impõe aos que buscam os bens superiores. Como todas as coisas, a formação e o exercício da mediunidade encontram dificuldades, bastantes vezes já assinaladas; convém insistirmos nisso, a fim de prevenir os médiuns contra as falsas interpretações, contra as causas de erro e de desânimo.
Desde que, por um trabalho preparatório, as faculdades do médium adquirem certa flexibilidade, os resultados que se começam a obter são quase sempre devidos às relações estabelecidas com os elementos inferiores do mundo invisível.
Uma multidão de Espíritos nos cerca, sempre ávidos de se comunicarem com os homens. Essa multidão é sobretudo composta de almas pouco adiantadas, de Espíritos levianos, algumas vezes maus, que a densidade de seus próprios fluidos conserva presos à Terra. As inteligências elevadas, animadas de nobres aspirações, revestidas de fluidos sutis, não permanecem escravizadas à nossa atmosfera depois da separação carnal: remontam mais alto, a regiões que o seu grau de adiantamento lhes indica. Daí baixam muitas vezes - é certo - para velar pelos seres que lhes são caros; imiscuem-se conosco, mas unicamente para um fim útil e em casos importantes. Donde resulta que os principiantes quase nunca obtêm senão comunicações sem valor, respostas çhocarreiras, triviais, às vezes inconvenientes, que os impacientam e desanimam.
Noutros casos o médium inexperto recebe, pela mesinha ou pelo lápis, ditados subscritos por nomes célebres, contendo revelações apócrifas que lhe captam a confiança e o enchem de entusiasmo. O inspirador invisível, conhecendo-lhe os lados vulneráveis, lisonjeia-lhe o amor-próprio e as opiniões, superexcita-lhe a vaidade, cumulando-o de elogios e prometendo-lhe maravilhas. Pouco a pouco o vai desviando de qualquer outra influência, de todo exame esclarecido, e o leva a se insular em seus trabalhos. É o começo de uma obsessão, de um domínio exclusivista, que pode conduzir o médium a deploráveis resultados.
Esses perigos foram, desde os primórdios do Espiritismo, assinalados por Allan Kardec; todos os dias, estamos ainda vendo médiuns deixarem-se levar pelas sugestões de Espíritos embusteiros e serem vítimas de mistificações que os tornam ridículos e vêm a recair sobre a causa que eles julgam servir.
Muitas decepções e dissabores seriam evitados se compreendesse que a mediunidade percorre fases sucessivas, e que, no período inicial de desenvolvimento, o médium é sobretudo assistido por Espíritos de ordem inferior, cujos fluidos, ainda impregnados de matéria, se adaptam melhor aos seus e são apropriados a esse trabalho de bosquejo, mais ou menos prolongado, a que toda faculdade está sujeita.
Só mais tarde, quando a faculdade mediúnica, suficientemente desenvolvida, adquiriu a necessária maleabilidade e se tornou dúctil o instrumento, é que os Espíritos elevados podem intervir e utilizá-la para um fim moral e intelectual.
O período de exercício, de trabalho preparatório, tão fértil muitas vezes em manifestações grosseiras e mistificações, é, pois, uma fase normal de desenvolvimento da mediunidade; é uma escola em que a nossa paciência e discernimento se exercitam, em que aprendemos a nos familiarizar com o modo de agir dos habitantes do Além.
Nessa fase de prova e de estudo elementar, deve sempre o médium estar de sobreaviso e nunca se afastar de uma prudente reserva. Cumpre-lhe evitar cuidadosamente as questões ociosas ou interesseiras, os gracejos, tudo, em suma, que reveste caráter frívolo e atrai os Espíritos levianos.
É preciso não se deixar esmorecer pela mediocridade dos primeiros resultados, pela abstenção e aparente indiferença dos nossos amigos do Espaço. Médiuns principiantes, ficai certos de que alguém vela por vós e de que a vossa perseverança é posta à prova. Quando houverdes chegado ao ponto requerido, influências mais altas baixarão a vós e hão de continuar a vossa educação psíquica.
Não procureis na mediunidade um objetivo de mera curiosidade ou de simples diversão; considerai-a de preferência um dom do Céu, uma coisa sagrada, que deveis utilizar com respeito, para o bem de vossos semelhantes. Elevai o pensamento às almas generosas que trabalham no progresso da Humanidade; elas virão a vós e vos hão de amparar e proteger. Graças a elas, as dificuldades do começo, as inevitáveis decepções que experimentareis não terão desagradáveis consequências; servirão para vos esclarecer a razão e vos desenvolver as forças fluídicas.
A boa mediunidade se forma lentamente, no estudo calmo, silencioso, recolhido, longe dos prazeres mundanos e do tumulto das paixões. Depois de um período de preparação e expectativa, o médium colhe o fruto de seus perseverantes esforços; recebe dos Espíritos elevados a consagração de suas faculdades, amadurecidas no santuário de sua alma, ao abrigo das sugestões do orgulho. Se guarda em seu coração a pureza de ato e de intenção, virá, com a assistência de seus guias, a se tornar cooperador utilíssimo na obra de regeneração que eles vêm realizando.

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Terminada a primeira fase de desenvolvimento de suas faculdades, o importante para o médium é obter a proteção de um Espírito bom, adiantado, que o guie, inspire e preserve de qualquer perigo.
Na maior parte das vezes é um parente, um amigo desaparecido que desempenha ao pé dele essas funções. Um pai, uma mãe, uma esposa, um filho; se adquiriram a experiência e o adiantamento necessários, podem-nos dirigir no delicado exercício da mediunidade. Mas o seu poder é proporcional ao grau de elevação a que chegaram, e nem sempre a sua ternura e solicitude bastam para nos defender das investidas dos Espíritos inferiores.
Dignos de louvor são os médiuns que, por seu desinteresse e fé profunda, têm sabido atrair, como uma espécie de aliados, os Espíritos de escol, e participar de sua missão. Para fazer baixar das excelsas regiões esses Espíritos, para os decidir a mergulhar em nossa espessa atmosfera, é preciso oferecer-lhes aptidões, notáveis qualidades.
Seu ardente desejo de trabalhar na regeneração do gênero humano torna, entretanto, essa intervenção muito menos rara do que se poderia imaginar. Centenas de Espíritos superiores pairam acima de nós e dirigem o movimento espiritualista, inspirando os médiuns, projetando sobre os homens de ação as vibrações de sua vontade, a fulguração do seu próprio gênio.
Conheço vários grupos que possuem uma assistência dessa ordem. Pela pena, pelos lábios dos médiuns, os Espíritos-guia ditam instruções, fazem ouvir exortações; e não obstante as imperfeições do meio e as obscuridades que lhes amortecem e velam as irradiações do pensamento, é sempre um penetrante enlevo, um gozo da alma, um gratíssimo conforto saborear a beleza de seus pensamentos escritos, escutar as inflexões de sua palavra, que nos vem como longínquo e mavioso eco das regiões celestes.
A descida ao nosso mundo terrestre é um ato de abnegação e um motivo de sofrimento para o Espírito elevado. Nunca seriam demasiados a nossa admiração e reconhecimento à generosidade dessas almas, que não recuam diante do contacto dos fluidos grosseiros, à semelhança dessas nobres damas, delicadas, sensitivas, que, ao impulso da caridade, penetram em lugares repugnantes, para levar socorros e consolações.
Quantas vezes, em sessões de estudo, temos ouvido dizerem os nossos guias: "Quando, do seio dos Espaços, vimos até vós, tudo se restringe, se amesquinha e se vai pouco a pouco retraindo. Lá, nas alturas, possuímos meios de ação que nem podeis compreender, esses meios se enfraquecem logo que entramos em relação com o ambiente humano."
Tanto que um desses grandes Espíritos baixa ao nosso nível e se demora em nossas obscuras regiões, logo o invade uma impressão de tristeza; ele sente como que uma depressão, uma diminuição de seus poderes e percepções. Só por um constante exercício da vontade, com o auxílio das forças magnéticas hauridas no Espaço, é que se habitua ao nosso mundo e nele cumpre as missões de que é encarregado.
Porque, na obra providencial, tudo se acha regulado para o ensino gradual e o progresso da Humanidade. Os Espíritos missionários e instrutores vêm revelar, por meio das faculdades mediúnicas, as verdades que o nosso grau de evolução nos permite apreender e compreender. Desenvolvem, na esfera humana, as elevadas e puras concepções da divindade e nos vão, passo a passo, conduzindo a uma compreensão mais vasta do objetivo da existência e dos humanos destinos. Não se deve esperar de tais Espíritos as provas banais, os testemunhos de identidade que tantos experimentadores exigem; mas de nossos colóquios com eles se exala uma impressão de grandeza, de elevação moral, uma irradiação de pureza, de caridade, que sobre excederá todas as provas materiais e constituirá a melhor das demonstrações morais.
Os Espíritos superiores lêem o que em nosso íntimo se passa, conhecem as nossas intenções e dão muito pouco apreço às nossas fantasias e caprichos. Para atender aos nossos chamados e prestar-nos assistência, exigem de nossa parte uma vontade firme e perseverante, uma fé elevada, um veemente desejo de nos tornarmos úteis. Reunidas essas condiçõeos, aproximam-se de nós; começa então, muitas vezes sem o sabermos, um demorado trabalho de adaptação dos seus fluidos aos nossos. São as preliminares forças de toda relação consciente. À medida que se estabelece a harmonia das vibrações, a comunicação se acentua sob formas apropriadas às aptidões do sensitivo; audição, visão, escrita, incorporação.
Os Espíritos superiores, indiferentes às satisfações de opiniões materiais e interesseiras, comprazem-se ao pé dos homens que procuram no estudo um meio de aperfeiçoamento. A pureza de nossos sentimentos lhe facilita a ação e aumenta a influência.
Outros Espíritos de menor categoria, por um impulso de dedicação, ligam-se a nós e nos acompanham até ao termo de nossa peregrinação terrestre. São os gênios familiares ou Espíritos protetores. Cada pessoa tem o seu. Eles nos guiam, em meio das provações, com uma paciência e uma bondade admiráveis, sem jamais se cansarem. Os médiuns devem recorrer à proteção desses amigos invisíveis, quase sempre membros adiantados de nossa família espiritual, com quem outrora vivemos neste mundo. Aceitaram a missão, tantas vezes ingrata, de velar por nós; através de nossas alegrias e aflições, de nossas quedas e reabilitações, nos encaminham para uma vida melhor, em que nos acharemos de novo reunidos para uma mesma tarefa, identificados em um mesmo amor.

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Em todo o ser humano existem rudimentos de mediunidade, faculdades em gérmen, que se podem desenvolver pelo exercício. Para o maior número, um longo trabalho perseverante é necessário. Em alguns, essas faculdades se revelam desde a infância, e sem esforço vêm a atingir, com os anos, um alto grau de perfeição. Representam, em tal caso, o resultado das aquisições anteriores, o fruto dos labores efetuados na Terra ou no Espaço, fruto que conosco, ao renascer, trazemos.
Entre os sensitivos, muitos têm a intuição de um mundo superior, extraterrestre, em que existem, como em reserva, poderes que lhes é possível adquirir mediante íntima comunhão e elevadas aspirações, para em seguida os manifestarem sob diversas formas, apropriadas à sua natureza: adivinhação, ensinamentos, ação curativa, etc.
Aplicada em tal sentido, a mediunidade torna-se uma faculdade preciosa, por meio da qual podem ser liberalizados imensos benefícios e realizadas grandes obras.
À Humanidade seria facultado um poderoso elemento de renovação, se todos compreendessem que há, acima de nós, um inesgotável manancial de energia, de vida espiritual, que se pode atingir por gradativo adestramento, por constante orientação do pensamento e da vontade no sentido de assimilar as suas ondas e radiações, e com o seu auxílio desenvolver as faculdades que em nós jazem latentes.
A aquisição dessas forças nos bloqueia contra o mal, nos coloca acima dos conflitos materiais e nos torna mais firmes no cumprimento do dever. Nenhum dentre os bens terrenos é comparável à posse desses dons. Sublimados a seu mais alto grau, fazem os grandes missionários, os renovadores, os grandes inspirados.
Como podemos adquirir esses poderes, essas faculdades superiores? Descerrando nossa alma, pela vontade e pela prece, às influências do Alto. Do mesmo modo que abrimos as portas da nossa casa, para que nela penetrem os raios do Sol, assim também por nossos impulsos e aspirações podemos franquear aos eflúvios celestes o nosso ego interior.
É aí que se manifesta a ação benéfica e salutar da prece. Pela prece humilde, breve, fervorosa, a alma se dilata e dá acesso às irradiações do divino foco. A prece, para ser eficaz, não deve ser uma recitação banal, uma fórmula decorada, senão antes uma solicitação do coração, um ato da vontade, que atrai o fluido universal, as vibrações do dinamismo divino. Ou deve ainda a alma projetar-se, exteriorizar-se por um vigoroso surto e, consoante o impulso adquirido, entrar em comunicação com os mundos etéreos.
Assim, a prece rasga uma vereda fluídica pela qual sobem as almas humanas e baixam as almas superiores, de tal modo que uma íntima comunhão se estabeleça entre umas e outras, e o espírito do homem seja iluminado e fortalecido pelas centelhas e energias despedidas das celestiais esferas.

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Em Espiritismo, a questão de educação e adestramento dos médiuns é capital; os bons médiuns são raros - diz-se muitas vezes - e a ciência do invisível, privada de meios de ação, só com muita lentidão vem a progredir.
Quantas faculdades preciosas, todavia, não se perdem, à míngua de atenção e de cultura! Quantas mediunidades malbaratadas em frívolas experiências, ou que, utilizadas ao sabor do capricho, não atraem mais que perniciosas influências e só maus frutos produzem! Quantos médiuns inconscientes de seu ministério e do valor do dom que lhes é outorgado, deixam inutilizadas forças capazes de contribuir para a obra de renovação!
A mediunidade é uma delicada flor que, para desabrochar, necessita de acuradas precauções e assíduos cuidados. Exige o método, a paciência, as altas aspirações, os sentimentos nobres e, sobretudo, a terna solicitude do bom Espírito que a envolve em seu amor, em seus fluidos vivificantes. Quase sempre, porém, querem fazê-la produzir frutos prematuros, e desde logo ela se estiola e fana ao contato dos Espíritos atrasados.
Na antiguidade, os jovens sensitivos que revelavam aptidões especiais eram retirados do mundo, segregados de toda influência degradante, em lugares consagrados ao culto, rodeados de tudo o que lhes pudesse elevar o sentido do belo. Tais eram as vestais, as druidesas, as sibilas, etc. O mesmo acontecia nas escolas de profetas e videntes da Judéia, situadas longe do ruído das cidades. No silêncio do deserto, na paz dos alterosos cimos, melhor podiam os iniciados atrair as influências superiores e interrogar o invisível. Graças a essa educação, obtinham-se resultados que a nós nos surpreendem.
Tais processos são hoje inaplicados. As exigências sociais nem sempre permitem ao médium dedicar-se, como conviria, ao cultivo de suas faculdades. Sua atenção é distraída pelas mil necessidades da vida de família, suas aspirações estorvadas pelo contato da sociedade mais ou menos corrompida ou frívola.
Muitas vezes é ele chamado a exercer suas aptidões em círculos impregnados de fluidos impuros, de inarmônicas vibrações, que reagem sobre o seu organismo tão impressionável e lhe produzem desordens e perturbações.
É preciso que, ao menos, o médium, compenetrado da utilidade e grandeza de sua função, se aplique a aumentar seus conhecimentos e procure espiritualizar-se o mais possível, que se reserve horas de recolhimento e tente então, pela visão interior, alçar-se até às coisas divinas, à eterna e perfeita beleza. Quanto mais desenvolvidos forem nele o saber, a inteligência, a moralidade, mais apto se tornará para servir de intermediário às grandes almas do Espaço. Uma organização prática do Espiritismo comportará, no futuro, a criação de asilos especiais, onde os médiuns encontrarão reunidas, com os meios materiais de existência, as satisfações do coração e do espírito, as inspirações da Arte e da Natureza, tudo o que às suas faculdades pode imprimir um caráter de pureza e elevação, fazendo em torno deles reinar uma atmosfera de paz e confiança.
Em tais meios, poderiam os estudos experimentais produzir muito melhores resultados que os que até agora se têm muitas vezes obtido em condições defeituosas. A intrusão dos Espíritos levianos, as tendências à fraude, os pensamentos egoísticos e os malévolos sentimentos se atenuariam pouco a pouco e terminariam por desaparecer. A mediunidade se tornaria mais regular, mais segura em suas aplicações. Não mais se havia de, com tanta frequência, observar esse mal-estar que experimenta o sensitivo, nem ocorreriam esses períodos de suspensão das faculdades psíquicas, culminando mesmo em seu completo desaparecimento em seguida ao mau uso delas feito.
Os espiritualistas de além-mar cogitam de fundar, em muitos dos grandes centros americanos, "homens" ou edifícios dotados de certo número de salas apropriadas aos diferentes gêneros de manifestações e munidas de aparelhos de experimentação e fiscalização. Cada sala, vindo, com o uso, a impregnar-se do magnetismo particular que convém a tais experiências, seria destinada a uma ordem especial de fenômenos: materializações, incorporações, escrita, tiptologia, etc. Um órgão, colocado no centro do edifício, propagaria a todas as suas partes, nas horas de sessão, enérgicas vibrações, a fim de estabelecer nos fluidos circulantes e no pensamento dos assistentes a unidade e harmonia tão necessárias. A música exerce, com efeito, uma soberana influência nas manifestações, facilitando-as e tornando-as mais intensas, como inúmeros experimentadores o têm reconhecido.
Merecem inteira aprovação esses projetos e devemos fazer votos pela sua realização em todos os países, porque viriam, por sua natureza, uma vez realizados, a dar vigoroso impulso aos estudos psíquicos e facilitar em larga escala essa comunhão dos vivos e dos mortos, mediante a qual se afirmam tantas verdades de valor incalculável, capazes de, em sua propagação pelo mundo, renovar a Fé e a Ciência.

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O importante para o médium, dissemos mais acima, é assegurar-se uma proteção eficaz. O auxílio do Alto é sempre proporcionado para o fim a que nos propomos, aos esforços que empregamos para o merecer. Somos auxiliados, amparados, conforme a importância das missões que nos incumbem, tendo-se em vista o interesse geral. Essas missões são acompanhadas de provas, de dificuldades inevitáveis, mas sempre reguladas conforme as nossas forças e aptidões.
Desempenhadas com dedicação, com abnegação, as nossas tarefas nos elevam na hierarquia das almas. Negligenciadas, esquecidas, não realizadas, nos fazem retrotrair a escala de progresso. Todas acarretam responsabilidades. Desde o pai de família que incute em seus filhinhos as noções elementares do bem, o preceptor da mocidade, o escritor moralista, até o orador que procura arrebatar as multidões às culminâncias do pensamento, cada um tem sua missão a preencher.
Não há mais nobre, mais elevado cargo que ser chamado a propagar, sob a inspiração das potências invisíveis, a verdade pelo mundo, a fazer ouvir aos homens o atenuado eco dos divinos convites, incitando-os à luz e à perfeição. Tal é o papel da alta mediunidade.
Falamos de responsabilidade. É necessário insistir sobre esse ponto. Muitos médiuns procuram, no exercício de suas faculdades, satisfações de amor-próprio ou de interesse. Descuram de fazer intervir em sua obra esse sentimento grave, refletido, quase religioso, que é uma das condições de êxito. Esquecem muitas vezes que a mediunidade é um dos meios de ação pelos quais se executa o plano divino, e que ele não tem o direito de utilizá-la ao sabor de sua fantasia.
Enquanto se não tiverem compenetrado os médiuns da importância de sua função e da extensão de seus deveres, haverá no exercício de suas faculdades uma fonte de abusos e de males. Os dons psíquicos, desviados de seu eminente objetivo, utilizados para fins de interesses medíocres, pessoais e fúteis, revertem contra os seus possuidores, atraindo-lhes, em lugar dos gênios tutelares, as potências malfazejas do Além.
Fora das condições de elevação de pensamento, de moralidade e desinteresse, pode a mediunidade constituir-se um perigo; ao passo que tendo por fim firme propósito no bem, por suas aspirações ao ideal divino, o médium se impregna de fluidos purificados; uma atmosfera protetora se forma em torno dele, o envolve, o preserva dos erros e das ciladas do invisível.
E se, por sua fé e comprovado zelo, pela pureza da alma em que nenhum cálculo interesseiro se insinue, obtém ele a assistência de um desses Espíritos de luz, depositários dos segredos do Espaço, que pairam acima de nós e projetam sobre a nossa fraqueza as suas irradiações; se esse Espírito se constitui seu protetor, seu guia, seu amigo, graças a ele sentirá o médium uma força desconhecida penetrar-lhe todo o ser, uma chama lhe iluminar a fronte. Todos quantos tomarem parte em seus trabalhos e colherem os seus resultados sentirão reanimar-se-lhes o coração e a inteligência às fulgurações dessa alma superior; um sopro de vida lhes transportará o pensamento às regiões sublimes do Infinito.

sábado, 9 de abril de 2016

Os Precursores do Espiritismo: As Mesas Girantes



Fenômenos espirituais sempre teve em todas as épocas da humanidade. Como encontramos na bíblia inumeráveis casos mediúnicos, em que antes eram tidos como sobrenaturais,como também encontramos várias outras histórias por meio do tempo, mas que depois da Codificação do Espiritismo são explicados e que fazem parte das Leis da Natureza. Uma dessas histórias que encontramos através do tempo é a das Mesas Girantes.



  
No princípio, elas só giravam. Varias pessoas em torno de uma mesa colocavam as mãos sobre ela e o móvel começava a girar. Via-se, então, um corpo mais pesado que o ar flutuar sem ser tocado por ninguém. Quando o efeito começava a se produzir, geralmente se ouvia um pequeno estalido na mesa, que era o prelúdio do movimento; parecia fazer esforços para desprender-se, depois o movimento de rotação se pronunciava; se acelerava ao ponto de adquirir uma rapidez tal que os assistentes experimentavam serias dificuldades para segui-la. Uma vez estabelecido o movimento podia-se mesmo afastar-se da mesa, que continuava a se mover, em diversos sentidos, sem contato. Alguns moveis dançavam ou subiam até o teto. A única prescrição, rigorosamente obrigatória era o recolhimento, um silêncio absoluto, e, sobretudo, a paciência se o efeito se fazia esperar. Ele poderia produzir-se em alguns minutos, como poderia tardar meia hora ou uma hora; isso depende da força medianímica dos coparticipantes. 

Em outras circunstâncias, a mesa se levantava e se endireitava, tanto sobre um só pé, tanto sobre outro, depois retoma docemente sua posição natural. Outras vezes ela se balança imitando o movimento transversal ou longitudinal de um barco. De outras vezes, enfim, mas para isso é preciso uma força medianímica considerável, se destacava inteiramente do solo, e se mantinha em equilíbrio no espaço, sem ponto de apoio, erguendo-se mesmo, por vezes, até o teto, de modo que se podia passar-lhe por debaixo; depois descia lentamente, balançando como o faria uma folha de papel, ou caia violentamente e se quebrava, o que provava, de maneira patente, que não era joguete de uma ilusão de ótica.



          A forma da mesa, a substancia da qual foi feita, a presença de metais, não tinha importância. Só o volume da mesa tinha alguma importância, mas somente no caso de que a força medianímica seja insuficiente para vencer a resistência; em caso contrário, uma única pessoa, uma criança mesmo, que possuía mediunidade, poderia fazer erguer uma mesa de 100 quilos, enquanto que, em condições menos favoráveis, doze pessoas não fariam mover a menor mesinha.

         Um outro fenômeno que se produzia, muito frequentemente, segundo a natureza do médium, é o dos golpes dados na própria textura da madeira, sem nenhum movimento da mesa; esses golpes, algumas vezes muito fracos, outras vezes bastante fortes, se faziam ouvir igualmente nos outros móveis do recinto, contra as portas, as paredes e o teto.

         Posteriormente, colocando as mãos em cima da mesa, enquanto recitava o alfabeto, a mesa batia um golpe a cada uma das letras que o espírito queria para formar as palavras. Esse procedimento, era muito lento, mas produzia excelentes resultados, e assim se tinha desta forma, as mesas falantes e girantes, em que também fazia rotação, e movimentos em todos os sentidos, erguimentos e pancadas com violência, etc. Esses fatos estranhos chamaram a atenção geral e virou moda, um dos maiores entretenimento da época.


 Até então, os fatos eram explicados somente por uma suposta ação magnética ou de uma corrente elétrica, mas não tardou a se reconhecer nesses fenômenos, efeitos inteligentes, porque o movimento obedecia a uma vontade; a mesa se dirigia à direita ou à esquerda, sobre um ou dois pés, batendo o número de pancadas convencionadas para a obtenção de respostas, etc. Desde então ficou evidente que a causa não era puramente física.


Para melhorar a comunicação entre os espíritos e os homens, outras formas foram sendo criadas. Como as comunicações por pancadas eram lentas e incompletas; reconheceu-se que a adaptando-se um lápis a uma cesta ou a uma prancheta ou a outro objeto qualquer sob o qual colocam-se os dedos, esse objeto se punha em movimento e traçava caracteres. Mais tarde, certificou-se que esses objetos não eram senão acessórios os quais podia-se dispensar. A experiência demonstrou que o espírito agindo sobre um corpo inerte para dirigi-lo a vontade, poderia agir do mesmo modo sobre o braço ou a mão, a fim de conduzir o lápis. Desde este momento, as comunicações não tiveram mais limites e a troca de ideias pode ser feita com tanta rapidez e desenvolvimento quanto entre os vivos. Era um vasto campo aberto à exploração, à descoberta de um mundo novo: O mundo dos Espíritos. 




A codificação espírita
Hippolyte Leon Denizard Rivail, não aceitou de imediato os fenômenos das
mesas girantes, mas estudou-os atentamente, observou que uma força inteligente as movia e investigou a natureza dessa força, que se identificou como os “espíritos dos homens” que haviam morrido. Rivail fez centenas de perguntas aos espíritos, analisou as respostas, comparou-as e codificou-as, tudo submetendo ao crivo da razão, não aceitando e não divulgando nada que não passasse por esse crivo. Assim nasceu O Livro dos Espíritos. O professor Rivail, imortalizou-se adotando o pseudônimo de Allan Kardec.


A Doutrina Codificada por Allan Kardec tem caráter cientifico, religioso e filosófico. Essa proposta de aliança da Ciência com a Religião está expressa em uma das máximas de Kardec, no livro “A Gênese”: “ O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se um nova verdade se revelar, ele a aceitará”.

Gravura apresentada nos noticiários da época na Alemanha, 1853. 
Para mostrar como as pessoas se reunião em torno de uma mesa para fazê-la mover.

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Fonte: Blog Jardim Espírita.

sexta-feira, 18 de março de 2016

MEDIUNISMO E MEDIUNIDADE


MEDIUNISMO E MEDIUNIDADE

Ao iniciar estudos sobre a mediunidade, é necessário esclarecer que eles seguirão o roteiro apresentado pela Doutrina Espírita. Recorde-se que mediunidade é faculdade encontrada nos seres humanos em todos os tempos. É expressão espiritual do ser, através de diferentes formas de manifestação, compatíveis com os níveis de evolução do Homem.

Coube ao Espiritismo, através de Allan Kardec e dos Espíritos que trabalharam na Codificação, dar à mediunidade a ética que pode capacitar o Homem a se tornar um trabalhador de Jesus.

Para entender mediunidade sob a visão Espírita, é necessário regressarmos no tempo, identificando registros materiais e espirituais que mostram os exercícios de manifestação espiritual do Homem, na longa jornada em que evolui conquistando diferentes patamares do pensamento, o que permitiu ao Plano Espiritual estabelecer novos rumos da humanidade, no seu destino à Perfeição.

Relembramos que mediunidade é uma faculdade humana natural, através da qual se estabelecem as relações entre o mundo espiritual e o mundo material.

No livro O Espírito e o Tempo, o prof Herculano Pires analisa as manifestações mediúnicas através da história da humanidade e suas civilizações, identificando as fases de desenvolvimento dessa faculdade, dividindo-as em:

*Mediunismo Primitivo,

*Culto dos Ancestrais,

*Mediunismo Oracular,

*Mediunismo Biblíco e,

*Mediunidade Positiva.

Mediunismo , termo criado pelo Espírito Emmanuel, designa as formas , as manifestações primitivas da mediunidade, constituindo o recurso natural de que o Homem dispõe para transcender sua condição primitiva, elevando-se no plano da mediunidade.

A Mediunidade é o mediunismo desenvolvido, racionalizado, submetido à reflexão e ao entendimento, tornando-se instrumento de progresso humano.

* Mediunismo Primitivo: é a designação da mediunidade em sua expressão natural; constitui a fase prática, experimental da mediunidade. O primeiro fato a ser identificado nessa fase é a captação de uma força misteriosa que imanta objetos e coisas, podendo atuar sobre as criaturas humanas. O homem primitivo ainda não desenvolveu suficientemente seu psiquismo e interpreta todas as coisas de modo rudimentar, sem razão.

* Culto dos Ancestrais: Caracteriza-se pela fusão da experiência e da imaginação com desenvolvimento do seu psiquismo estruturando o progresso do mediunismo. Dessa fusão surge a mitologia popular, impregnada de magia e prática do culto dos ancestrais.

* Mediunismo Oracular: Nesta fase surgem os deuses representando as forças da natureza, porém personalizadas, demonstrando maior capacidade de abstração do homem, com formulação de juízo ético e moral, começando a romper os liames da organização social para descobrir-se no processo de tornar-se indivíduo. A representação dessa fase são os oráculos, lugares sagrados procurados por todos, pois representavam uma força sobrenatural, transmitida a eles pela pitonisa ou o próprio oráculo. Nessa fase ainda não há individualização mediúnica, caracterizando-se como fase de transição para o culto individual dos Espíritos.

* Mediunismo Biblíco: Resultante da natural evolução do homem tribal, o homem gregário já visualiza sua individualização. O poder do raciocínio o elevou à condição de senhor da sociedade e da natureza, conseguindo se impor ao invés de se submeter. Descobre sua capacidade, seu talento para manobrar as circunstâncias com maior habilidade. Surgem as individualidades dos sábios, dos místicos, profetas; caracteriza-se pela aceitação do monoteísmo, acentuação dos atributos éticos, estabelecimento de ligações diretas do Deus individual com o individuo humano, no caso o profeta, que representa o médium que rompeu o gregarismo psíquico, arvorou-se em senhor de si mesmo, passou a responder pessoalmente pelos seus pronunciamentos mediúnicos.

* Mediunidade Positiva: Fase em que não mais estamos no plano místico e misterioso do mediunismo, mas no plano científico, racional da mediunidade; o homem tornou-se capaz de servir de intermediário entre seres espirituais e carnais, ambos da mesma natureza.

Como assinala Kardec em A Gênese, essa evolução se realiza num contexto histórico, juntamente com a evolução mental , moral e espiritual do homem, no processo de desenvolvimento econômico-social da humanidade. Sem desenvolvimento científico, assinala Kardec, não se criaria no mundo o clima necessário à compreensão do Espiritismo.

Através do desenvolver de suas potencialidades , o homem percebe-se como um ser mediúnico, apto a relacionar-se com os Espíritos. É inerente ao homem, a idéia da Divindade como sendo um poder superior que criou o mundo e essa idéia, associada ao assombro que o mundo misterioso e cheio de seres causava à sua imaginação, desenvolveu um sentimento mágico, levando-o a estabelecer relações com as coisas e com os outros seres. A partir daí, desenvolve-se a lei de adoração, que levou a imaginação primitiva aos ritos do culto solar e lunar, das montanhas, dos grandes rios e assim por diante.

A reverência aos chefes poderosos desenvolveu os ritos de submissão, que se estenderam aos pagés e xanãs, sacerdotes mágicos das tribos e das hordas, dotados de poderes mediúnicos. Esses processos abriram caminho para desenvolvimento das religiões mitológicas e das religiões reveladas, estas apoiadas na crença dos homens-deuses, conhecedores dos mistérios da vida e da morte.

A crença nos poderes divinos era reafirmada pelos fenômenos produzidos por indivíduos que utilizavam os próprios recursos mediúnicos.

A expressão mediunismo criada por Emmanuel designa as formas primitivas de Mediunidade, que fundamentam as crenças e religiões primitivas, as quais, sem desenvolvimento cultural e intelectual, caracterizam-se por práticas mágicas ligadas ao mediunismo. O sincretismo religioso encontrado no Brasil e em outros países americanos, resultante da mistura das religiões africanas e das religiões indígenas e primitivas desses países, impulsionaram acentuadamente o desenvolvimento do mediunismo no Continente.

A diferença entre Mediunismo e Mediunidade está na conscientização, na ética utilizada para estabelecer as relações com o Mundo Espiritual. Nas religiões primitivas não havia nem podia haver reflexão sobre os fenômenos e seu sentido e natureza. Tudo se resumia à prática dissociada da razão. A Mediunidade é o Mediunismo desenvolvido, submetido à reflexão religiosa e filosófica e às pesquisas científicas necessárias ao esclarecimento dos fenômenos, sua natureza e leis.

O Espiritismo através de estudos e pesquisas, integrou a Mediunidade à sua estrutura, concedendo-lhe os direitos e valores que lhe são inerentes, reconhecendo a sua importância fundamental para a vida humana na Terra e o seu desenvolvimento futuro no mundo espiritual.

Inúmeras vezes mal interpretada pelas religiões que nela identificam uma natureza diabólica, ou como campo inferior de manifestações suspeitas e perigosas, é constantemente atacada e não obstante,cresce sem cessar o interesse pela mediunidade no mundo, pois o próprio desenvolvimento científico ao deparar com os fenômenos paranormais, é forçado a reconhecer a realidade dos fenômenos mediúnicos em todos os campos do Conhecimento.

É necessário que os espíritas resguardem e defendam a Mediunidade dos sincretismos religiosos que rondam as Casa Espíritas, produzindo enxertias e práticas distantes da proposta da Doutrina Espírita.

O Homem caminha para o futuro e necessita desprender-se das grosseiras superstições do longínquo passado, procurando atender suas necessidades espirituais de maneira lógica, racional e natural, isentando-se de buscar práticas mediúnicas como solução de problemas financeiros, políticos, moral e social. Proporcional ao conhecimento adquirido , o homem terá a responsabilidade por usar e manter essas práticas, criando vínculos com o plano espiritual utilizado para obter as vantagens almejadas.

As práticas sincréticas em que predominam a mentalidade primitiva, são o contrário das práticas espíritas, que se resumem na prece e meditação, no passe (imposição das mãos), no estudo e aplicação do Evangelho e no esclarecimento caridoso de Espíritos sofredores ou vingativos. A Doutrina Espírita é a única que trata os obsessores e os obsediados como Espíritos doentes, profundamente necessitados de evangelização, porque todos são filhos de Deus. Demonstram grande ignorância aqueles que utilizam a palavra Espiritismo para designar as manifestações do animismo primitivo e do mediunismo selvagem, onde incautos tentam resolver problemas diversos de seus clientes, mediante pagamentos e barganhas que expressam a inversão dos valores espirituais; não haveria sofrimento, perseguições, lutas, violências, injustiças, se o homem pautasse seus atos pelas Leis Divinas, fazendo ao outro o que deseja para si mesmo, seja esse outro um Homem (encarnado) ou um Espírito (desencarnado).

O Espiritismo é unicamente a doutrina que está nas obras de Kardec e dos que continuam seu trabalho, sem trair os seus princípios básicos.

Essas práticas que se caracterizam como mediunismo e atendiam às necessidades primárias dos homens primitivos; se aplicadas ao homem civilizado, representam um retrocesso evolutivo de sua mentalidade e personalidade, causando desajustes psicológicos e mentais naqueles que se envolvem em suas práticas.

Devemos entender o mediunismo como instrumento natural de que o homem dispõe para elevar-se ao plano da mediunidade, transcendendo suas condições primitivas rumo à Perfeição.

É pelo conhecimento trabalhado, transformado em vivência, que o homem se eleva , supera as condições da vida no plano físico, atingindo as possibilidades de sublimação . Nada nos oferece melhor visão desse processo, em sua extensão e profundidade, do que o estudo da evolução humana à luz dos princípios espíritas.

Sob essa visão estaremos estudando a mediunidade, a fim de percebe-la como possibilidade de trabalho com Jesus. Se o objetivo maior do Espiritismo é a renovação moral da Humanidade , compreendemos que para educar essa faculdade necessitamos, antes de tudo, elevar os nossos próprios sentimentos, num processo de evangelização constante.

No próximo estudo: AS MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS

Tereza Cristina D'Alessandro
Julho / 2001 
Bibliografia:
• PIRES, J. HERCULANO - O Espírito e o Tempo, Fase pré-histórica - EDICEL.- 7ª ed. Sobradinho- DF -Mediunidade, cap VI, O Mediunismo - PAIDÉIA - 1ª ed. São Paulo- SP

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Mediunidade - Possibilidades e Desafios (Jorge Hessen)



A mediunidade, digamos natural, é uma faculdade psicofísica presente em todas os seres humanos. Porém, nem todos percebemos a presença ostensiva dos Espíritos. É uma percepção à qual Charles Richet chamou de “sexto sentido”. Ela sempre esteve presente na História da humanidade desde as épocas mais recuadas. O surto de manifestação dos fenômenos mediúnicos é efeito natural da maior incidência dos Espíritos sobre os homens.

Allan Kardec diz que não se deve lidar com a mediunidade sem conhecê-la. Aquele que frequenta uma casa espírita com a exclusiva intenção de servir apenas no campo da mediunidade não entendeu ainda o papel do Espiritismo em sua vida, muito menos a oportunidade que está tendo de servir com equilíbrio na Causa do Bem. Uma Casa espírita proporciona muitas tarefas diversificadas no campo da evangelização, da assistência social, da divulgação, da administração etc.

Médium ignorante, em desequilíbrio, é médium obsedado. O grande tratamento para este mal (obsessão) que hoje dizima milhões de criaturas que se encontram em estado de psicopatologia degenerativa, com desequilíbrio da personalidade e da própria vida mental, repetimos, é o estudo da mediunidade e o trabalho cristão. O Espiritismo oferece ao homem a direção moral para que ele, erguendo-se na ordem psíquica moral e emocional, passe a sintonizar com os espíritos evoluídos de cujo contato sobrevirão efeitos aprazíveis.

A mediunidade esteve presente em Francisco de Assis; contudo, igualmente esteve presente nos seres mais aberrantes da humanidade. Nabucodonosor pereceu sob o látego da possessão (licantropia). Sabe-se que Nero, nos últimos dias de seu reinado, viu-se fora do corpo carnal, junto de Agripina e de Otávia, sua genitora e esposa, ambas assassinadas por sua ordem, a lhe pressagiarem a queda no abismo. Os Espíritos vingativos em torno de Calígula eram tantos que, depois de lhe enterrarem os restos nos jardins de Lâmia, eram ali vistos frequentemente, até que lhe exumaram os despojos para a incineração. Há notícias que revelam ter sido Adolfo Hitler portador de uma mediunidade especialmente exercida em Berlim, no grupo de Tullis, entre os anos de 1914 e 1918. A mediunidade, portanto pode acentuar estados psicopatológicos muito graves por desequilíbrio do indivíduo.

Mas a mediunidade potencializou as energias espirituais de uma Tereza d’Ávila, de uma admirável Rita de Cássia, de uma abnegada irmã Dulce da Bahia, de um “cisco” Cândido Xavier ou tantas outras personalidades que na história conseguiram atrair o pensamento universal pela síntese do amor e pelo intercâmbio com os Espíritos elevados.

A mediunidade, hoje tão vulgarizada pelas novelas da tevê, é ainda pouco compreendida pelos cristãos, não obstante esteja muito bem descrita nos Atos dos apóstolos, mormente nas assertivas de Paulo quando cita os dons e os carismas dos médiuns. Escreve o Convertido de Damasco que uns veem, outros ouvem, outros falam, outros profetizam e outros curam. Ora, os dons nomeados por Paulo e os carismas nada mais são que a mediunidade.

Nos tempos apostólicos a mediunidade atinge a culminância desde o famoso dia de Pentecoste, em que foram produzidos diversos fenômenos físicos tais como sinais luminosos e vozes diretas, psicofonia e xenoglossia. Naqueles áureos idos históricos o magnetismo curativo através do passe era muito exercitado. Através de Jesus, muitos fenômenos ocorreram. Em Cafarnaum e Jericó O Cristo aplica o passe aos cegos; em Betsaida (piscina de Siloé) levanta os paralíticos; em Gerasa liberta possessos.

Paulo, através da clarividência, vê o próprio Cristo e se converte definitivamente nas portas de Damasco. Nos domínios dos fenômenos de efeitos físicos notamos Jesus no rio Jordão diante do fenômeno de pneumatofonia (voz direta) durante o célebre batismo. Nas bodas de Caná, Jesus transforma água em vinho. Em Betsaida e Gerasa o Mestre divino promove a multiplicação dos peixes e pães pelo processo de transubstanciação. Em Genesaré o meigo nazareno caminha sobre as águas no processo de levitação. No Tabor o Governador da Terra promove a transfiguração. Na Galileia abranda a tempestade. Sob o império dos fenômenos de efeitos intelectuais, Jesus antevê a Sua crucificação, prevê a negação de Pedro, pressagia a traição de Judas e previne a dispersão do povo judeu. No jardim de Getsamani provoca o fenômeno de clarividência e clariaudiência.

Nos tempos do Calvário os apóstolos (na condição de médiuns) sofriam inquéritos e terríveis perseguições: Pedro e João são presos; Estevão é morto a pedradas; Tiago, filho de Zebedeu, é morto a golpes de espada; Paulo é decapitado na via Ápia, em Roma; Pedro é crucificado. Mesmo sofrendo profunda estagnação e desvios, o “Cristianismo” nos presenteia com belos fenômenos mediúnicos: Tertuliano, através da sua bacia, profetiza; Francisco de Assis tem visões arrebatadoras; Lutero tem visões aterradoras; Teresa d'Ávila viaja em desdobramentos; José de Cupertino promove a levitação diante do papa Urbano III; Antônio de Pádua trazia a bicorporeidade.

Detalhe importante: a mediunidade não traz regalia a ninguém. Por oportuno, lembramos o exemplar histórico de Chico Xavier. Ele que aos 15 anos ficou órfão, aos 8 trabalhava à noite numa fábrica de tecidos, aos 12 ralava num empório, e laborou por 32 anos como escriturário no ministério da agricultura. Chico, durante três anos (dos 12 aos 15) foi acometido de coreia, ou mal de São Guido. Na década de 40 o “Mineiro do século” foi acionado judicialmente pela família de Humberto de Campos. Logo depois, como se não bastassem tantos desafios, foi submetido a uma cirurgia de hérnia estrangulada. Em 1958 teve que mudar-se para Uberaba por causa dos escândalos provocados por um sobrinho atormentado. O médium mineiro era cego de um olho e carregava uma catarata no olho esquerdo, e ainda sofria de constantes ataques de angina, e muito mais.


Infelizmente há pessoas que ao sentirem influência dos Espíritos creem que por isso estão prontas para lidar com os seres do além-tumba. Comumente não aceitam a ideia de que precisam se instruir sobre o tema. Qualquer médium que não tiver os cuidados necessários com a sua edificação moral e se colocar a serviço do intercâmbio sem o devido preparo e conhecimento cairá fatalmente presa de Espíritos perversos. Ninguém é obrigado a “desenvolver” a mediunidade. É absurda a ideia de que a mediunidade é a causa de sofrimentos e desajustes psíquicos. Naturalmente, os médiuns ostensivos, que já demonstram algum “sinal” desde cedo, devem ser submetidos obrigatoriamente ao estudo disciplinado e à orientação doutrinária dentro de um centro espírita que possa dar-lhe direcionamento seguro de sua faculdade.
 
 
Fonte: Jorge Hessen, estudando o espiritismo

terça-feira, 19 de maio de 2015

Licantropia


Licantropia

Compilado do livro Libertação de
André Luiz (espírito) e Francisco Xavier


A frente de vasta tribuna vazia e sob as galerias laterais abarrotadas de povo, compacta multidão se amontoava, irreverente. Alguns minutos decorreram, desagradáveis e pesados, quando absorvente vozerio se fez ouvido: Os magistrados! Os magistrados! Lugar! Lugar para os sacerdotes da justiça!
Procurei a paisagem exterior, curiosamente, tanto quanto me era possível, e vi que funcionários rigorosamente trajados à moda dos lictores da Roma antiga, carregando a simbólica machadinha (fasces) ao ombro, avançavam, ladeados por servidores que sobraçavam grandes tochas a lhes clarearem o caminho.
Penetraram o átrio em passos rítmicos e, depois deles, sete andores, sustentados por dignitários diversos daquela corte brutalizada, traziam os juízes, esquisitamente ataviados. Que solenidade religiosa era aquela? As poltronas suspensas eram, em tudo, idênticas à sédia gestatória das cerimônias papalinas.
Varando, agora, o recinto, os lictores passaram o instrumento simbólico às mãos e alinharam-se, corretos, perante a tribuna espaçosa, sobre a qual resplandecia alarmante facho de luz. Os julgadores, por sua vez, desceram, pomposos, dos tronos içados e tomaram assento numa espécie de nicho a salientar-se de cima, inspirando silêncio e temor, porque a turba inconsciente, em redor, calou-se de súbito.
Tambores variados rufaram, como se estivéssemos numa parada militar em grande estilo, e uma composição musical semi-selvagem acompanhou-lhes o ritmo, torturando-nos a sensibilidade. Terminado aquele ruído, um dos julgadores se levantou e dirigiu-se à massa, aproximadamente nestes termos: “Nem lágrimas, nem lamentos. Nem sentença condenatória, nem absolvição gratuita. Esta casa não pune, nem recompensa. A morte é caminho para a justiça. Escusado qualquer recurso à compaixão, entre criminosos. Não somos distribuidores de sofrimento, e, sim, mordomos do Governo do Mundo”.
Nossa função é a de selecionar delinqüentes, a fim de que as penas lavradas pela vontade de cada um sejam devidamente aplicadas em lugar e tempo justos. Quem abriu a boca para vilipendiar e ferir, prepare-se a receber, de retorno, as forças tremendas que desencadeou através da palavra envenenada.
Quem abrigou a calúnia, suportará os gênios infelizes aos quais confiou os ouvidos. Quem desviou a visão para o ódio e para a desordem, descubra novas energias para contemplar os resultados do desequilíbrio a que se consagrou. Quem utilizou as mãos em sementeiras de malícia, discórdia, inveja, ciúme e perturbação deliberada, organize resistência para a colheita de espinhos.
Quem centralizou os sentidos no abuso de faculdades sagradas espere, doravante, necessidades enlouquecedoras, porque as paixões envilecentes, mantidas pela alma no corpo físico, explodem aqui, dolorosas e arrasadoras. A represa por longo tempo guarda micróbios e monstros, segregados a distância do curso tranquilo das águas; todavia, chega um momento em que a tempestade ou a decadência surpreendem a obra vigorosa de alvenaria e as formas repelentes, libertadas, se espalhem e crescem em toda a extensão da corrente.
Seguidores do vício e do crime, tremei! Condenados por vós mesmos, conservais a mente prisioneira das mais baixas forças da vida, à maneira do batráquio encarcerado no visco do pântano, ao qual se habituou no transcurso dos séculos! Nesse ponto, o orador fez pausa e reparei os circunstantes. Olhos esgazeados pelo pavor jaziam abertos em todas as máscaras fisionômicas.
O juiz, por sua vez, não parecia respeitar o menor resquício de misericórdia. Mostrava-se interessado em criar ambiente negativo a qualquer espécie de soerguimento moral, estabelecendo nos ouvintes angustioso temor. Prolongando-se o intervalo, enderecei com o olhar silenciosa interrogação ao nosso orientador, que me falou quase em segredo:
— O julgador conhece à saciedade as leis magnéticas, nas esferas inferiores, e procura hipnotizar as vítimas em sentido destrutivo, não obstante usar, como vemos, a verdade contundente. Não vale acusar a edilidade desta colônia — prosseguiu a voz trovejante —, porque ninguém escapará aos resultados das próprias obras, quanto o fruto não foge às propriedades da árvore que o produziu.
Amaldiçoados sejam pelo Governo do Mundo quem nos desrespeite as deliberações, baseadas, aliás, nos arquivos mentais de cada um. Assinalando, intuitivamente, a queixa mental dos ouvintes, bradou, terrificante: Quem nos acusa de crueldade? Não será benfeitor do espírito coletivo o homem que se consagra à vigilância de uma penitenciária? e quem sois vós, senão rebotalho humano? Não viestes, até aqui, conduzidos pelos próprios ídolos que adorastes?
Nesse momento, convulsivo choro invadiu a muitos. Gritos atormentados, rogativas de compaixão se fizeram ouvir. Muitos se prosternaram de joelhos. Imensa dor generalizara-se. Gúbio trazia a destra sobre o peito, como se contivesse o coração, mas, vendo por minha vez aquele grande grupo de espíritos rebelados e humilhados, orgulhosos e vencidos, lastimando amargamente as oportunidades perdidas, recordei meus velhos caminhos de ilusão e, porque não dizer? Ajoelhei-me também, compungido, implorando piedade em silêncio.
Exasperado, o julgador bradou, colérico: Perdão? Quando desculpastes sinceramente os companheiros da estrada? Onde está o juiz reto que possa exercer, impune, a misericórdia? E incidindo toda a força magnética que lhe era peculiar, através das mãos, sobre uma pobre mulher que o fixava, estarrecida, ordenou-lhe com voz soturna: Venha! Venha!
Com expressão de sonâmbula, a infeliz obedeceu à ordem, destacando-se da multidão e colocando-se, em baixo, sob os raios positivos da atenção dele. — Confesse! Confesse! Determinou o desapiedado julgador, conhecendo a organização frágil e passiva a que se dirigia. A desventurada senhora bateu no peito, dando-nos a impressão de que rezava o “confiteor” e gritou, lacrimosa: Perdoai-me! Perdoai-me, ó Deus meu!
E como se estivesse sob a ação de droga misteriosa que a obrigasse a desnudar o íntimo, diante de nós, falou, em voz alta e pausada: “Matei quatro filhinhos inocentes e tenros e combinei o assassínio de meu intolerável esposo. O crime, porém, é um monstro vivo. Perseguiu-me, enquanto me demorei no corpo. Tentei fugir-lhe através de todos os recursos, em vão e por mais buscasse afogar o infortúnio em “bebidas de prazer”, mais me chafurdei no charco de mim mesma.
De repente, parecendo sofrer a interferência de lembranças menos dignas, clamou:  “Quero vinho! Vinho! Prazer! Em vigorosa demonstração de poder, afirmou, triunfante, o magistrado: “Como libertar semelhante fera humana ao preço de rogativas e lágrimas? Em seguida, fixando sobre ela as irradiações que lhe emanavam do temível olhar, asseverou, peremptório: “A sentença foi lavrada por si mesma! Não passa de uma loba, de uma loba...
A medida que repetia a afirmação, qual se procurasse persuadi-la a sentir-se na condição do irracional mencionado, notei que a mulher, profundamente influenciável, modificava a expressão fisionômica. Entortou-se lhe a boca, a cerviz curvou-se, espontânea, para a frente, os olhos alteraram-se, dentro das órbitas. Simiesca expressão revestiu-lhe o rosto. Via-se, patente, naquela exibição de poder, o efeito do hipnotismo sobre o corpo perispirítico.
Em voz baixa, procurei recolher o ensinamento de Gúbio, que me esclareceu num cicio: “O remorso é uma bênção, sem dúvida, por levar-nos à corrigenda, mas também é uma brecha, através da qual o credor se insinua, cobrando pagamento. A dureza coagula-nos a sensibilidade durante certo tempo; todavia, sempre chega um minuto em que o remorso nos descerra a vida mental aos choques de retorno das nossas próprias emissões.
E acentuando, de modo singular, a voz quase imperceptível, acrescentou: “Temos aqui a gênese dos fenômenos de “licantropia”, inexplicáveis, ainda, para a investigação dos médicos encarnados. Lembras-te de Nabucodonosor, o rei poderoso, a que se refere a Bíblia? Conta-nos o Livro Sagrado que ele viveu, sentindo-se animal, durante sete anos. O hipnotismo é tão velho quanto o mundo e é recurso empregado pelos bons e pelos maus, tomando-se por base, acima de tudo, os “elementos plásticos do perispírito”.
Notando, porém, que a mulher infeliz prosseguia guardando estranhos caracteres no semblante perguntei: “Esta irmã infortunada permanecerá doravante em tal aviltamento da forma? Finda longa pausa, o Instrutor informou, com tristeza: “Ela não passaria por esta humilhação se não a merecesse”.
Além disso, se se adaptou às energias positivas do juiz cruel, em cujas mãos veio a cair, pode também esforçar-se intimamente, renovar a vida mental para o bem supremo e afeiçoar-se à influenciação de benfeitores que nunca escasseiam na senda redentora. Tudo, André, em casos como este, se resume à problema de sintonia. Onde colocamos o pensamento, aí se nos desenvolverá a própria vida.



Fonte: Harmonia espiritual