Eternidade

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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A educação dos sentimentos



Os sentimentos, intimamente ligados à moral, estão entre as áreas psíquicas que podem e devem sofrer aperfeiçoamento, fazendo aflorar as virtudes morais.

Aperfeiçoar os sentimentos é educá-los. É vencer os instintos, em proveito dos sentimentos. E a educação dos sentimentos tem como objetivo chegar ao caminho das virtudes.


Por que o Perdão? Como espíritos imperfeitos que somos, todos nós erramos. É necessário, pois, perdoar sempre e a todos: familiares, amigos, colegas, conhecidos e inimigos; perdoar, inclusive, a nós mesmos, evitando culpas, mágoas e desequilíbrios. Perdoar sem restrições, sinceramente, olhando com bondade e benevolência as imperfeições de nossos irmãos, eis o verdadeiro sentido dessa virtude.


Por que a Caridade? Definida como "benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas” a caridade é um valor moral imprescindível para a conquista da felicidade. Benevolência significa boa vontade, bondade e complacência para com todos; a indulgência manifesta-se através da tolerância e clemência para com os erros alheios; e o perdão é uma forma de libertação, onde o maior beneficiado é o que perdoa, esquecendo a ofensa.


Por que a Humildade? A humildade, conforme assevera Emmanuel, é a fonte de todas as virtudes, de todo o progresso e de toda a elevação moral e intelectual. Embora o orgulho, muitas vezes, sufoque a humildade, ela se manifesta através da simplicidade, da modéstia, do respeito e da submissão às leis de Deus.


Por que a Bondade? A bondade é um sentimento superior da alma, uma virtude dinâmica de ação no bem, sendo considerada o amor em ação. A bondade, exteriorizada por pensamentos, palavras e atitudes é uma força capaz de harmonizar ambientes, iluminar corações, minorar sofrimentos, construir equilíbrio, remover obstáculos e conduzir o indivíduo pelos caminhos da evolução.


Por que o Amor? O amor transforma a alma, através do pensar, do sentir e do agir no bem. O Espírito de Verdade afirmou: "Espíritas, amai-vos, este é o primeiro mandamento", lembrando o que foi ensinado por Jesus: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo". Para entender e vivenciar verdadeiramente o amor é necessário conhecer, estudar, observar, comparar, sentir, refletir, intuir, aprender essa sublime virtude.


A paz interior e a felicidade, através da educação dos sentimentos, devem fazer parte de nossos objetivos primordiais nesta encarnação.


Mas como fazer? Optar pelos caminhos regidos pelas Leis de Deus: amor, perdão, indulgência, caridade, compaixão, humildade, bondade, virtudes que elevam o ser humano de um simples animal racional para a condição de espírito sublimado.


O meio prático e eficaz para o homem se melhorar e resistir ao mal é o autoconhecimento, isto é, ele se conhecer profundamente, saber quem ele é e quais suas obrigações consigo mesmo e com a sociedade em que labora. Ele necessita estudar mais para saber a respeito de suas emoções e sentimentos, a respeito de seu psiquismo e de como realizar as transformações necessárias em sua vida.



Referência: CAMARGO, Jason. Educação dos Sentimentos. Porto Alegre: Letras de Luz, 2001.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Uma Leitura para o Coração


"Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos."
O Espírito de Verdade. (Bordéus, 1861.)

O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo VI - item 7


Afastemos um pouco das reflexões mais densas e façamos uma pausa para meditação.
Dilata tua sensibilidade e lê com o sentimento as anotações a seguir. Depois escuta os recados do teu coração.

* * *

A Doutrina Espírita é a medicação recuperativa das nossas vidas. Sua "substância ativa" é o Evangelho. Sua "bula" é estritamente individual. Para cada um haverá uma dosagem e forma de aplicação.

O movimento espírita é a nossa enfermaria abençoada onde encontramo-nos internados na busca de nossa alta médica.

Tarefa e estudo, provas e oportunidades são terapêuticas necessárias na solução de nossas enfermidades.

Perante esse quadro de experiências da nossa trajetória de aprendizado, listemos algumas prescrições indispensáveis para a cura:

. Onde se reúnem doentes, torna-se dispensável realçar imperfeições e deslizes. Todos sabemos de nossa condição. Falemos de saúde e aproveitamento.

. Esqueçamos as vivências dolorosas e examinemos as conquistas. Indaguemos: em que melhorei? O que aprendi?

. Somos doentes graves, mas temos o melhor médico, Jesus.

. Perdoemos incondicionalmente o companheiro de enfermaria. Ele também é alguém em busca de si mesmo.

. Trazemos na intimidade todos os antídotos para nossas imperfeições. Resta-nos descobrí-los.

. De fato, alguns doentes esquecem suas necessidades. O melhor a fazer para auxiliá-los é a oração.

. Alguns enfermos carecem de tratamentos específicos. Por não entendermos tais medidas, evitemos julgá-los.

. Uma única certeza: todos nós teremos alta médica e alcançaremos a saúde.

. As raras criaturas sadias foram chamadas a Postos Maiores. Cuidam de nós.

. Uma pergunta diária: que farei pela minha recuperação?

. Uma atitude diária: doses elevadas de prece e trabalho.

. O caminho seguro para fortalecimento e alegria: a amizade sincera, leal e fraterna.

. O que nunca devemos esquecer: antes repudiávamos a ideia da internação. Hoje desejamos tratar.

. Esqueçamos a noção de tempo e sejamos gratos pela oportunidade de uma vaga nessa benfazeja enfermaria.

. Nos momentos de crise, evitemos projetar decepções e revolta nos outros ou reclamar do ambiente que nos acolheu para refazimento e orientação. Crises são indícios oportunos para exames e diagnósticos mais apurados sobre nossas dores.

. Saber que estamos enfermos não basta. É preciso sentir. Nossa cura virá do coração.

Recordemos a frase confortadora do Espírito Verdade:  Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos.

Agora vá e escuta os recados do teu coração e Deus te abençoe com paz íntima.



pelo Espírito Ermance Dufaux , psicografia de Wanderley S. de Oliveira.
Escutando Sentimentos - A Atitude de Amar-nos como Merecemos. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Comportamentos que te impedem de ser feliz

Felicidade é um termo muito abrangente e subjetivo e, muitas vezes, difícil de ser explicado.
Os motivos pelos quais uma pessoa é feliz ou infeliz são relativos, mas eu acredito que muitos deles venham das conquistas, realizações pessoais e da satisfação com a própria vida ou da falta de tudo isso.

Acho que todo mundo conhece alguém que está sempre insatisfeito, reclamando e infeliz, não é?

Depois de um tempo estudando sobre felicidade e observando pessoas que estão sempre reclamando da vida ou deprimidas – não considerando aquelas que muitas vezes têm razões legítimas para isso – eu identifiquei algumas caraterísticas comuns entre a maioria delas.

As pessoas infelizes geralmente:

1. Não assumem o controle da própria vida.
Uma frase que traduz isso é a famosa “eu não tenho escolha” como justificativa para tudo aquilo que faz a vida dessas pessoas infeliz, seja um trabalho que elas odeiam, um relacionamento falido ou filhos para sustentar.
O que elas muitas vezes não entendem é que não ter escolha é uma escolha. Aturar o chefe mala e chorar todos os dias antes de ir para o trabalho é uma escolha. Elas estão escolhendo ter o dinheiro, estabilidade ou qualquer outra coisa que esse trabalho proporciona em detrimento da sua possível liberdade ou de uma nova carreira.
Continuar em um relacionamento falido por causa do apartamento, das dívidas ou dos filhos é uma escolha, assim como abrir mão das próprias vontades para dar o melhor a eles também é. Quando elas fazem isso, estão escolhendo não lidar com as consequências que uma mudança pode trazer, como ter de cair o padrão de vida ou lidar com o fato de que podem perder o contato com os filhos depois de um eventual divórcio, por exemplo.
Se você não tem coragem de mudar aquilo que faz com que a sua vida não seja do jeito que você quer, apenas aceite que você fez uma escolha e tente ser feliz com ela. Tente olhar para o lado positivo daquela situação que você se encontra, como ter o sossego da estabilidade financeira quando se tem um emprego.
Não estou falando em pensar positivo ou ser falsamente otimista, mas em ser verdadeiramente grato pelo benefício que toda escolha (por pior que seja) também proporciona.

2. Desistem antes mesmo de tentar.
As pessoas que se consideram infelizes geralmente assumem que elas não sabem ou não conseguem fazer algo, muitas vezes sem tentar ou depois de ter falhado uma única vez.
São aquelas que simplesmente aceitam o fato de não serem boas com números ou trabalhos manuais, de não saberem cozinhar ou de que nem adianta pensar em abrir um negócio X ou Y porque já existem outras pessoas bem sucedidas naquelas áreas e não tem mais espaço para elas.
Uma coisa é não querer aprender ou fazer algo porque você não gosta, até aí, tudo bem. O problema é que muitas vezes elas não querem (ou não conseguem) assumir isso e ficam criando barreiras e desculpas que justifiquem o fato de elas não terem motivação sequer para tentar.
Perfeição e talento vem da prática. Se existe algo que você gosta e quer muito fazer, faça! Faça isso todos os dias. É a única maneira de saber se vai dar certo ou não. Inventar desculpas antes de tentar é exatamente o que te afasta do sucesso.

3. Se comparam excessivamente com outras pessoas.
Uma das coisas que mais faz o ser humano infeliz, na minha opinião, é se comparar com os outros. Quando você se compara com alguém, você deixa de olhar para fatores, nem sempre óbvios, que colocaram aquela pessoa com quem você se compara no lugar onde ela está.
Por mais que você ache que o sucesso, a beleza ou seja lá o que for, tenha vindo de forma fácil, você não estava na pele dela para saber e não tem o direito de julgar.
É preciso entender que cada um é merecedor do que tem, seja para o bem ou para o mau, mesmo que você não consiga enxergar o motivo.

4. Não lidam bem com adversidades.
Uma das descobertas mais interessantes dessa minha pesquisa sobre felicidade foi que as pessoas mais felizes são aquelas que sabem como lidar com as adversidades da vida.
É impossível viver uma vida toda evitando problemas ou coisas negativas que possam nos acontecer. O que algumas pessoas não entendem é que tentar jogar para baixo do tapete ou fingir que não está acontecendo também não vai fazer com que elas sejam mais felizes.
Tudo o que nos acontece é sim uma oportunidade para aprendermos. Não adianta achar que a vida é injusta ou tentar encontrar culpados em vez de entender o porquê estamos passando por aquela situação tão desagradável e o que podemos fazer para que aquilo não se repita ou não nos abale tanto.
Ser feliz não significa nunca chorar ou não ter problemas e sim, não se deixar abater e acreditar que amanhã é sempre um novo dia e uma oportunidade para fazer melhor.

5. Não tem um objetivo de vida.
Elas podem ter sonhos, mas esses raramente são transformados em um objetivo claro e concreto e, por isso, acabam quase nunca sendo realizados.
As pessoas sem um objetivo vivem como se estivessem em um barco à deriva. Por mais que passem o dia todo navegando pelo mar, não chegam a lugar algum ou, quando chegam, não é onde queriam estar.
São os nossos objetivos que determinam a forma com que usamos o nosso tempo e se as nossas escolhas estão nos levando para perto dele ou não. Cada dia vivido sem um objetivo é um dia desperdiçado.
Se você se sente perdido e sem propósito, comece com coisas pequenas. Escolha um objetivo de curto prazo e faça de tudo para alcança-lo. Quando você consegue conquistar algo, isso te motiva e faz você querer perseguir novos objetivos! Quem sabe no meio dessas pequenas conquistas você não encontra o propósito da sua vida?

6. Vivem em estado de inércia.
A inércia também é uma consequência da falta de objetivo. Quem não sabe para onde ir, geralmente não sai do lugar. De novo, não adianta ter grandes sonhos e fé seja lá no que for, mas não levantar a bunda do sofá para fazer com que as coisas aconteçam.
Quem está sempre esperando acaba frustrado, já que as melhores coisas da vida acontecem para aqueles que não esperam e sim, vão atrás do que querem.
Não adianta você sonhar em viajar o mundo, ter a sua casa própria ou o emprego dos sonhos se absolutamente nada do que você faz na sua vida te levam em direção a isso.

7. Não entendem o valor do tempo.
Quem não tem objetivos claros e vive em inércia, geralmente não entende a importância do tempo.
Vamos lá, e se a gente começar a pensar no tempo dessa forma: para cada dia que alguém que não está satisfeito com a própria vida não faz nada para mudar essa situação, uma quantia de dinheiro deveria ser debitada da sua conta corrente, mesmo que ela não tivesse. Aposta quanto que ia ter muita gente desesperada por aí?
Por que o mesmo não acontece quando perdemos nosso tempo? O dinheiro sempre pode ser ganho novamente, o tempo perdido nunca mais poderá ser reposto, mas algumas pessoas ainda não se deram conta de que ele é o bem mais precioso que temos.
O tempo desperdiçado com coisas inúteis nos traz um prejuízo muito maior do que qualquer conta negativa.

8. São procrastinadores.
Essa é outra característica de quem não valoriza o tempo. Essas pessoas olham para a vida como se ela fosse inesgotável. Elas não entenderam que começamos a morrer no dia que nascemos e cada dia que temos de vida é um presente, pois não sabemos quantos mais vamos ter.
Pense que tudo aquilo que você deixa para amanhã, pode nunca mais ser feito. A morte do meu pai aos 51 anos me ensinou isso e, hoje, eu posso dizer que esse triste episódio salvou muitos anos da minha vida. Foi por causa dele que eu passei a viver cada dia como se fosse o último e eu realmente acho que você deveria fazer o mesmo.

9. São apáticos.
Quando pensamos em pessoas apáticas nos vem à cabeça quem não tem opinião sobre as coisas ou quem não está nem aí para nada. Mas, apáticos, também são aqueles que não querem abrir a sua cabeça ao novo, que enxergam as coisas de uma forma e acham que essa é a correta e são resistentes a qualquer tipo de mudança.
São pessoas que, mesmo sendo intelectualmente capazes, não se interessam em aprender nada que não esteja relacionado ao mínimo aceitável. Não leem e não fazem questão alguma de parecerem engajadas com nada. Mesmo em um mundo cheio de maravilhas, curiosidades e novidades aparecendo a cada minuto, elas encontram um jeito de se sentirem entediadas o tempo todo.

10. São impacientes.
Por último, as pessoas infelizes tem grandes expectativas em relação a vida, mas fazem muito pouco para conseguirem o que tanto desejam. Elas sonham, mas não tem ambição. Elas querem o que o mundo tem de melhor, mas não entendem que nada acontece sem esforço, muito trabalho, persistência e paciência.
Estão sempre procurando um caminho mais rápido ou fácil já que não tem paciência para insistir naquilo que querem. É por isso que acabam frustradas e geralmente acham que talvez elas não tenham nascido para serem felizes.
As pessoas com essas características geralmente tendem a pensar que aqueles que são felizes, vivem uma vida incrível ou fazem coisas admiráveis são pessoas especiais ou extraordinárias.

A grande verdade é que a felicidade é uma decisão e deve ser tomada por todos nós diariamente. Ela é o resultado de um conjunto de pequenas coisas que, somadas, fazem com que tenhamos uma vida melhor e mais completa.

Como eu sempre digo, a sua felicidade é você que faz!


Fonte: Estudos Sistemáticos à Luz do Espiritismo e seus ensinamentos.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Como lidar com as emoções negativas



Na composição integral do ser humano, a ciência identifica as dimensões física, psíquica, social e espiritual como sendo, basicamente, as principais que possuímos. Mesmo que em algumas abordagens filosóficas e antropológicas apareçam mais ou menos dimensões, trataremos, por ora, dessas quatro.

No geral, o desejo humano tende a buscar somente o lado positivo de cada uma dessas dimensões, às vezes num afã quase neurótico por saúde, beleza, alegria, euforia, êxtase etc. Assim, se estamos em um ambiente social, queremos nos sentir amados e acolhidos, buscamos ser bem vistos pelas pessoas que estão por perto. Se num ambiente profissional, desejamos o reconhecimento por nossos feitos, os feedbacks positivos dos superiores etc.  Também queremos – às vezes exigimos – aceitação do nosso parceiro afetivo quando estamos numa “bad”, queremos elogios quando tiramos boas notas ou apresentamos um bom trabalho acadêmico e por aí vai.

Se fizermos um honesto exame de consciência, muito provavelmente nos identificaremos com alguns ou muitos desses exemplos. Entretanto, a proposta que faço aqui é para olharmos com mais receptividade para situações tão humanas quanto a alegria, o prazer, o riso, a paz. Por que não acolher também a tristeza, a frustração, a raiva? Como diria o poeta Terêncio: “nada do que é humano me é estranho”; podemos alargar o significado dessa frase reconhecendo que tudo o que é humano pode agregar, trazer mistérios reveladores, apresentar novas realidades que antes estavam encobertas pela luz da harmonia.

Não precisamos buscar sofrimentos; inevitavelmente as dores se apresentam a todas as realidades humanas. Contudo, é possível fazer escolhas dentro das circunstâncias mais opacas e densas que somos levados a provar vez ou outra. A perda, o luto, o fracasso, a inveja, a vergonha e tantas outras emoções não precisam receber nossa invariável resistência e rejeição. Se adotarmos posturas de negação frente aos sentimentos menos agradáveis, provavelmente eles persistirão e se agravarão ao longo do tempo.

A proposta, assim, é lançar um novo olhar para as emoções negativas, e não apresentar resistência a elas. Assim como acolheríamos a alegria, podemos receber a tristeza como uma companheira que tem algo a dizer nesse determinado momento. Quanto tempo essa hóspede irá permanecer? Talvez o tempo da aprendizagem do novo, o tempo da quebra de um tijolo dentro do peito, quem sabe o espaço entre você e a maturidade, entre você e a verdadeira liberdade interior.

Se aparecer a inveja, o ciúme, permita-se um olhar profundo para dentro de si e pergunte-se: o que essas emoções têm a me dizer? Pergunte à angústia, à ansiedade: onde querem me levar? Que lugares dentro de mim devo olhar com mais cuidado, onde devo depositar mais amor, ternura, em quais cantos escuros devo me demorar com mais paciência? No final das contas, essas emoções tão facilmente rejeitadas, podem ser amigas que o auxiliarão a encontrar respostas e a despertar o lado criativo que há dentro de você.

Os momentos de passagem tendem a ser desafiadores. Angustiamo-nos quando não enxergamos o outro lado do caminho, quando falta o horizonte e os consolos. Entretanto, se nos dispusermos a abaixar nossas resistências ao que é inesperado e desagradável, haverá a oportunidade de descobrir que, quando estamos na sombra, podemos observar a luz com mais nitidez. E então, o novo se abrirá em forma de crescimento, maturidade, humildade, paz etc.

Coragem! A aventura do autoconhecimento certamente te levará para vales, montanhas, lagos e abismos, mas é um desafio que te fará mais autêntico, maduro e livre.


Por Milena Carbonari Krachevski
Fonte: Psicologias do Brasil

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ser Feliz - Hammed

As Emoções


A palavra emoção provém do verbo latino emovere, que significa mover ou movimentar, sendo, portanto, qualquer tipo de sentimento que produza na mente algum tipo de movimentação, que tanto pode ser positiva, negativa ou mesmo neutra.

Importantes na ocorrência desse fenômeno são o seu propósito assim como as suas consequências. Quando se direciona ao bem estar, à paz, à alegria de viver e de construir, contribuindo em favor do próximo, temo-la como positiva ou nobre, porque edificante e realizadora. No entanto, se inquieta, estimulando transtornos e ansiedade conduzindo nossa mente a distúrbios de qualquer natureza, temo-la negativa ou perturbadora, que necessita de orientação e equilíbrio.

Os resultados serão analisados pelos efeitos que produzam no indivíduo assim como naqueles com os quais convive, estabelecendo harmonia ou gerando empecilhos.

São as emoções responsáveis pelos crimes hediondos, quando transtornadas, assim como pelas grandes realizações da Humanidade, quando direcionadas para os objetivos dignificantes do ser.

No primeiro caso, desfruta-se da alegria de viver e de produzir o bem, enquanto que, no segundo, proporciona sofrimento e angústia, desespero e consumpção.

Para um ou outro objetivo são necessárias ferramentas específicas, tais como o amor, a bondade, a compaixão, a gentileza, a caridade, a fim de se lograr os resultados nobres, ou, do contrário, a ira, a cólera, o ódio, o ressentimento, a desonestidade, que levam ao crime e a todas as urdiduras do mal.

No primeiro caso encontramos a nobreza de caráter e dos sentimentos edificantes, enquanto que, no segundo, constatamos a pequenez moral, o primarismo em que se detém o ser humano.

As emoções, do ponto de vista psicológico, podem ser agradáveis ou perturbadoras, estabelecendo identidades, tais como aproximação, medo, repugnância e rejeição.

O importante, no que concerne às emoções, é o esforço que deve ser desenvolvido a fim de que sejam transformadas as nocivas em úteis.

Quando se expressam prejudiciais, o indivíduo tem o dever de trabalha-las, porque alga em si mesmo não se encontra saudável nem bem orientado. Ao invés de dar expansão às sujas tempestades interiores, deve procurar examinar em profundidade a razão pela qual assim se encontra, de imediato, tentando alterar-lhe o direcionamento.

As emoções têm sua origem nas experiências anteriores do ser, que se permitiu o estabelecimento de paisagens internas de harmonia ou de conflitos.

Não se deve lutar contra as emoções, mesmo aquelas denominadas prejudiciais, antes cabendo o esforço para desviar-se a ocorrência daquilo que possa significar danos em relação a si mesmo ou a outrem.

Inevitavelmente ocorrem momentos em que as emoções nocivas assomam volumosas. A indisciplina mental e de comportamento abrem-lhes espaços para que se expandam, no entanto, a vigilância ao lado do desejo de evitar-se danos morais oferece recurso para impedir-lhe as sucessivas consequências infelizes.

Nem sempre é possível evitar-se ocorrências que desencadeiam emoções violentas. Pode-se, porém, equilibrar o curso da sua explosão e o direcionamento dos seus efeitos.

Raramente alguém é capaz de permanecer emocionalmente neutro em uma situação conflitiva, especialmente quando o seu ego é atingido. Irrompe, automaticamente, a hostilidade, em forma de autodefesa, de acusação defensiva, de revide...

Pode-se, no entanto, evitar que se expanda o sentimento hostil, administrando-se as reações que produz, mediante o hábito de respeitar o próximo, de te-lo em trânsito pelo nível de sua consciência, se em fase primária ou desenvolvida.

Torna-se fácil, desse modo, superar o primeiro impacto e corrigir-se o rumo daquele que se transformou em emoção de ira ou de raiva...

***
Se tomas consciência de ti mesmo, dos valores que te caracterizam, das possibilidades de que dispõe, é possível exercer um controle sobre as tuas emoções, evitando que as perniciosas se manifestem ante qualquer motivação e as edificantes sejam equilibradas, impedindo os excessos que sempre são prejudiciais.

Quando são cultivadas as reminiscências das emoções danosas, há mais facilidade para que outras se expressem ante qualquer circunstância desagradável. Como não se pode nem se deve viver de experiências transatas, o ideal é diluir-se em novas experiências todas aquelas que causaram dor e hostilidade.

Isso é possível mediante o cultivo de pensamento de paz e de solidariedade, criando um campo mental de harmonia, capaz de manifestar-se por automatismo, diante de qualquer ocorrência geradora de aflição.

Gandhi afirmava que não deve matar o indivíduo hostil, mas matar a hostilidade nesse indivíduo, o que corresponde ao comportamento pacífico encarregado de desarmar o ato agressivo de quem se faz adversário.

Eis por que a resistência passiva consegue os resultados excedentes da harmonia. Provavelmente, ou outro, o inimigo, não entenderá de momento a não violência daquele a quem aflige, mas isso não é importante, sendo valioso para aquele que assim procede, porque não permite que a insânia de fora alcance o país da sua tranquilidade interior.

A problemática apresenta-se como necessidade de eliminar os sentimentos negativos, o que não é fácil, tornando-se mais eficiente diluí-los mediante outros de natureza harmônica e saudável.

Acredita-se que a supressão da angústia, da ansiedade, da raiva proporciona felicidade. Não será o desaparecimento de um tipo de emoção que fará com que se desfrute imediatamente de outra. A questão deve ser colocada de maneira mais segura, trabalhando-se, sim, pela eliminação das emoções perturbadoras, porém, ao mesmo tempo, cultivando-se e desenvolvendo-se aquelas que são as saudáveis e prazenteiras.

Não se torna suficiente, portanto, libertar-se daquilo que gera mal estar e produz decepção, mas agir de maneira correta, a fim de que se consiga alegria e estímulo para uma vida produtiva.

Viver por viver é fenômeno biológico, automático, no entanto, é imprescindível viver-se em paz, bem viver-se, ao invés do tradicional conceito de viver de bem com tudo e com todos, apoiado em reservas financeiras e em posições relevantes, sempre transitórias...

Pensa-se que é uma grande conquista não se fazer o mal a ninguém. Sem dúvida que se trata de um passo avançado, entretanto, é indispensável fazer-se o bem,promover-se o cidadão, a cultura, a sociedade, ao mesmo tempo elevando-se moralmente.

Quando se está com a emoção direcionada ao bem e à evolução moral, o pensamento torna-se edificante e tudo concorre para a ampliação do sentimento nobre. O inverso também ocorre, porquanto o direcionamento negativo, as suspeitas que se acolhem, a hostilidade gratuita que se desenvolve, contribuem para que o indivíduo permaneça armado, porque sempre se considera desamado.

Mediante o cultivo das emoções positivas, aclara-se a percepção da verdade, das atitudes gentis, dos sentimentos solidários, enquanto que a constância das emoções prejudiciais faculta a distorção da óptica em torno dos acontecimentos, gerando sempre mau humor, indisposição e malquerença.

Quando se alcançar o amor altruísta haverá o sentimento da real fraternidade e o equilíbrio real no ser que busca de si mesmo e de Deus.

***
Jesus permanece como sendo o exemplo máximo do controle das emoções, não se deixando perturbar jamais por aquelas que são consideradas perniciosas. Em todos os Seus passos, o amor e a benevolência, assim como a compaixão e a misericórdia estavam presentes, caracterizando o biótipo ideal, guia e modelo para todos os indivíduos.

Traído e encaminhado aos Seus inimigos, humilhado e condenado à morte, não teve uma emoção negativa, mantendo-se sereno e confiante, lecionando em silêncio o testemunho que é pedido a todos quantos se entregam a Deus e devem servir de modelo à Humanidade.

Não se podendo viver sem as emoções, cuidar daqueles que edificam em detrimento das que perturbam, tal é a missão do homem e da mulher inteligentes na Terra.

Joanna de Ângelis

(Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, na manhã de 09 de março de 2009, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia, publicada em "Reformador" de junho de 2009).

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

CAPÍTULO 7 - AS RELAÇÕES COMO BASE PARA O EXERCÍCIO DOS SENTIMENTOS




CAPÍTULO 7 - AS RELAÇÕES COMO BASE PARA O EXERCÍCIO DOS SENTIMENTOS
(Gelson L. Roberto)
Um homem e uma mulher falam na solidão de nosso ser. (Gaston Bachelard)

Sabemos que muito da nossa criatividade depende de um "fluir" emocional que enriquece e abre novas possibilidades para as várias situações da vida. O sentimento é uma das fontes da vida psíquica e as relações são o seu palco fundamental.

A espontaneidade, a receptividade, a capacidade de não misturar os conteúdos pessoais com a função exercida, a flexibilidade, capacidade de empreendimento, entre outras, são fatores de ordem intrinsecamente emocional. Muitas situações vividas apresentam inúmeros problemas que tem por causa fatores emocionais. Assim, torna-se de vital impor¬tância o estudo e a reflexão sobre os relacionamentos e sua dinâmica emocional.

Joanna de Angelis afirma que "os sentimentos expressam a capa¬cidade que possui o ser humano de conhecer, de compreender, de sentir e compartir as emoções que o vitalizam nas suas diversas ocorrências existen-ciais .

Ficamos muito distantes do que seja realmente amar, expressão máxima do sentimento. O sentimento constitui em muito o problema do nosso tempo e a benfeitora aponta que os relacionamentos são um convite ao amor a fim de alcançar a plenitude existencial.1

Precisamos, então, tê-lo mais perto de nós, saber lidar com ele e buscar seus tesouros, pois se o intelecto é como uma luz a iluminar de fora o que toca, a fim de discriminar, o sentimento é a própria luz que cada ser carrega e que se impõe naturalmente como o brilho de um diamante.

Primeiramente, podemos dizer que as relações sao movidas por paixões e sentimentos. Muitas pessoas quando estão apaixonadas pen¬sam que estão envolvidas pelos melhores sentimentos, mas isso não é bem assim. Quantas pessoas matam em função de suas paixões? Quan¬tos traem seus princípios e relações por causa das paixões? Quantas re¬lações apaixonadas perdem sua força depois de alguns confrontos com a realidade? O desejo nos atrai e nos impele a muitas coisas, mas só o sentimento consegue estabelecer uma relação com profundidade. Lem¬bremos: intensidade não quer dizer profundidade.

A paixão é um estado de longa duração, de forte intensidade, com a tendência de sair da realidade. Quando estamos sob o seu efei¬to, tendemos a perder a dimensão dos sentimentos e suas distinções. O sentimento serve para organizar e dar uma direção para a paixão. Como nos diz O Evangelho Segundo o Espiritismo, "o dever íntimo do homem está entregue ao seu livre arbítrio: o aguilhão da consciência, esse guardião da probidade interior, o adverte e o sustenta, mas permanece, frequentemente, impotente diante dos sofismas da paixão. O dever do coração, fielmente observado, eleva o homem; mas, esse dever, como pre¬cisá-lo? Onde se detém? O dever começa precisamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranquilidade do vosso próximo; termina no limite que não gostaríeis de ver ultrapassado em relação a vós mesmos"?

Nesse sentido, é importante estabelecermos uma diferença entre eros e sentimento. Eros é uma força e não um sentimento. Tem raízes no desejo e se refere ao princípio da união, do apego a, do apego por, do envolvimento que une, da conexão.

Uma força universal e impessoal que, como nos diz Hillman3, pode se apresentar de forma inumana e demoníaca, seja como compulsão sexual ou como eros cosmogónico, que garante a integridade do universo. Sendo assim, há pessoas que podem ter muito eros (muito desejo, apetite sexual) e pouco sentimen¬to, e outras com pouco eros e um sentimento bem-desenvolvido. Aliás, muitas vezes até se opõem, basta olhar para os estados de perturbação que eros provoca para vermos como isso é comum. Tanto que muitos amantes unem-se sem nenhum sentimento. Por isso, Joanna assevera que o amor é permanente e o Eros é transitório e que o amor deve se utilizar de Eros sem que se lhe submeta.4

O Livro dos Espíritos também nos coloca, na questão 939, que "há duas espécies de afeições: a do corpo e a da alma e, frequentemente, se toma uma pela outra. A afeição da alma, quando pura e simpática, é durável; a do corpo perecível. Eis porque, frequentemente, aqueles que crêem se amar, com um amor eterno, se odeiam quando a ilusão termina"? Compreende-se que o sentimento não é um fenómeno único e absoluto, possuindo vários elementos que interagem num movimento dialético entre matéria e espírito.
A FUNÇÃO SENTIMENTO
Jung refere que o sentimento é, "em primeiro lugar, um processo que se realiza entre o eu e um dado conteúdo, um processo que atribui ao conteúdo um valor definido no sentido de aceitação ou rejeição (prazer ou 'desprazer), mas também um processo que, abstraindo do conteúdo mo¬mentâneo da consciência ou de sensações momentâneas, pode aparecer como que isolado, como 'disposição de ânimo' (humor). O sentimento é, portanto, também uma espécie de julgamento, mas que se distingue do julgamento intelectual, por não visar ao estabelecimento de relações conceituais, mas a uma aceitação ou rejeição subjetivas. A valorização pelo sentimento esten-de-se a cada conteúdo da consciência, seja de que espécie for.

Aumentando a intensidade, surge um afeto, isto é, um estado sentimental com inervações corporais sensíveis. O sentimento se distingue do afeto por não provocar inervações corporais sensíveis... Como o pensamento, o sentimento é uma função racional, porque, conforme a experiência o mostra, os valores em geral são atribuídos segundo leis da razão que, por sua vez, também gover¬nam a formação dos conceitos. Orientándose a atitude global do indivíduo pela função do sentimento, falamos de um tipo sentimento"?

Todo relacionamento humano é permeado por algum tipo de sen¬timento, sendo uma função da consciência que avalia. Através desse processo podemos dar um valor às experiências situacionais e pessoais. Em cada relação recebemos e damos cargas de sentimento, o que não quer dizer que esses sentimentos sejam sempre positivos. Pois sempre sentimos algo por alguém, mesmo que seja desprezo. Assim, nas rela¬ções, o sentimento pressupõe uma capacidade de afetar o mundo e de valor e o objeto ao sujeito, favorecendo ser capturado por um sistema subjetivo de valores. Por isso, podemos dizer que a função sentimento é uma função do relacionamento. E Joanna completa dizendo que os relacionamentos dependem do nível de consciência daqueles que estão envolvidos.7

Temos então um aspecto que é o amor em seu processo evoluti¬vo, que se abre e se exercita nas relações, e a consciência, orientando e estabelecendo uma atitude frente às relações de conformidade com seu nível. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo vamos encontrar no texto sobre "A Lei de Amor" a dimensão evolutiva do sentimento: "O amor resume inteiramente a doutrina de Jesus, porque é o sentimento por exce¬lência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso rea¬lizado. No seu início, o homem não tem senão instintos; mais avançado e corrompido, só tem sensações; mais instruído epurificado, tem sentimentos; e o ponto delicado do sentimento é o amor, não o amor no sentido vulgar do termo, mas este sol interior que condensa e reúne em seu foco ardente todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas". 8

Podemos perceber que o amor vai se construindo em níveis cada vez mais sublimes. Joanna diz que quando aparente, o amor é de caráter sensualista, buscando apenas o prazer imediato. Isto faz com que o sen¬timento se debilite, se entorpeça ou se envenene, gerando toda espécie de frustração. Já quando real, estruturado e maduro, a benfeitora afirma que é um sentimento que sabe esperar, que estimula e renova. Expressão que não se satura, sem altibaixos emocionais, esse amor real une as pes¬soas, alimentando o corpo e despertando o eu profundo. 9

Joanna também é consistente quando afirma que em nossa ca¬minhada de vida também passamos por fases nas formas de vivenciar o amor, "o infantil, que tem caráter possessivo, o juvenil, que se expressa pela insegurança, o maduro, pacificador, que se entrega sem reservas e faz-seplenificador"? Também afirma que há uma fase intermediária entre a insegurança e a plenificação que se estabelece no comportamento de dar e receber, procurando libertar-se da consciência de culpa.

Quando nossas relações são primitivas ou mesmo quando a ca¬pacidade do espírito ainda é bruta no seu sentir, a função sentimento csiauciccc uma avaliação que tende a ser reducionista e limitada, traba¬lhando mais com certas reaçóes do tipo aceitar-rejeitar, gostar-desgostar ou bom-ruim. Já quando mais elaborada, ela estabelece uma forma de apreciação sutil de valores e sistemas cada vez mais complexos que se apoiam numa hierarquia racional, seja ético, social, estético ou nas rela¬ções em geral. Assim, ao fazer julgamentos, a função sentimento busca coerência e sistematização, pesando valores, comparando nuanças, re¬lacionando qualidades, contextualizando, diferenciando a situação da pessoa e sua intenção e avaliando a importância dos elementos para to¬mar decisões. Mesmo no nível primitivo, ele busca essa coerência, ainda que numa lógica mais limitada. Por isso, ela é uma função racional.

O que está em jogo é que essa função racional vai partir de certos pressupostos de acordo com sua condição psicológica. Quando Joanna de Angelis afirma o estágio infantil do amor, estabelece-se uma lógica presa nessa imagem da necessidade de ser amado e, consequentemente, uma atitude obsessiva, dominadora, por estar centrado apenas em si e não também no ser amado. O resultado são comportamentos de am¬bição e posse e a perda de uma objetividade na relação. Afloram senti¬mentos inquietantes de insegurança, expressos nos ciúmes, incertezas, ansiedades, cobranças, entre outros.

O sentimento, quando desenvolvido como função, estabelece a ordem e a lógica do amor. E bem trabalhado capacita a uma relação confiante e libertadora. Esta lógica difere da racionalidade intelectiva, pois às vezes elas até se opõem. Digamos que a função sentimento é a razão do coração, que muitas vezes não é compreendida pela cabeça. Esses processos lógicos que ocorrem com o sentimento podem ser de diferentes formas, lineares ou complexos. Depende do desenvolvimento que cada um tem dessa função.

Em todo relacionamento temos a oportunidade de trabalhar e exercitar vários aspectos do sentimento. Nas relações, vários desses aspectos são acionados e são fundamentais para a compreensão e capacidade de estabelecer um contato pleno e construtivo. Alguns sentidos são operados pelo sentimento. As noções de tempo e de feeling são próprias da função sentimento. Quando o pensamento está dissociado do sentimento, somos levados a agir certo na hora errada ou, ao contrário, no momento adequado agirmos de forma incompatível. Por exemplo, numa situação afetivamente sensível não conseguimos falar nada de interessante e até mesmo acabamos sendo desajeitadamente indelicados. (!om esses dois elementos, de tempo e de feeling, estabelecemos um ritmo favorável ao momento e a sua importância conferindo a cada coisa Seu devido lugar, transformando uma situação ou uma história banal numa história de alma - significativa, encadeada, íntima e específica.

Não podemos, então, entender o sentimento de uma forma simplificada e reducionista, em uma mera alternativa do gostar-desgostar. Essa função é um processo complexo que, segundo Hillman,10registra a qualidade e o valor específico das coisas. Ela faz a exploração e amplificação de nuanças e tons.

Os sentimentos são a base de todo processo relacional, desde a atração, no seu princípio, entre moléculas e astros, até esse poder aglutinador envolvendo a família espiritual. Opõem-se à indiferença e conferem as condições essenciais para uma postura ética. Assim, a vida moral é determinada pelo nível de consciência e capacidade do sentimento de cada um. Onde falta sentimento e compreensão, a rigidez e o moralismo arbitrário tomam lugar.

O Espiritismo favorece uma melhor reflexão e oferece uma anatomia dos sentimentos, possibilitando maior clareza e profundidade em relação a eles.

O evangelho refere que a obediência é o consentimento da cabeça enquanto que a resignação é o consentimento do coração. Confundimos essas virtudes como uma negação da vontade e do sentimento, mas o fato é que elas são a própria expressão da vontade e do sentimento. Uma força ativa e amorosa que nos coloca em harmonia com o Todo. A indignação também é uma força ativa que reflete uma reação de oposição quando essa harmonia e consciência são feridas, ou seja, quando o ser humano se confronta com uma incompatibilidade com sua natureza. A indignação, por ser uma reação agressiva, não quer dizer que compactue com a violência, pois aí já é cólera que nada mais é do que o orgulho ferido. Na medida em que tomamos conhecimento desses aspectos, podemos fazer um entendimento mais realista de nossa condição interna. Podemos dizer que o espiritismo nos instrumentaliza a lidar com a razão do coração.

Esses exemplos reforçam a idéia que o sentimento, longe de ser um movimento de passividade e amolecimento, é um processo profundo de entendimento. Uma compreensão de si, do outro e da vida.

Para fins ilustrativos, elegemos três classes da vida afetiva para serem comparadas entre si: a emoção, a paixão e o sentimento.

Importa diferenciar melhor também essas três classes da vida afetiva. Cada uma tem seu movimento, sua manifestação e sua modalidade de ser. A emoção é passageira, isolada e é movida pela modalização do poder. Eros é um estado mais durável, cuja manifestação é episódica ou contínua e está baseado no querer. O amor é durável ou permanente, sua manifestação é contínua, mesmo que às vezes sutil, e é movida pelo saber. Sendo o sentimento no seu aspecto modal um saber, o saber abrange o querer e o poder. Com isso, as emoções e paixões podem ser substitutas do amor, levando ao desejo egoístico do querer apaixonado ou ao poder irracional da emoção que afloram, demonstrando a incapacidade daquele indivíduo em amar. Jung dizia que o poder aparece sempre quando somos incapazes de amarmos. Este sempre aparece quando alguém abdica ou é incapaz de se relacionar pelo amor. O amor faz sentir sua presença sem se impor, tem uma força que se apresenta naturalmente com uma capacidade infinita de cativar e transformar.

Vimos até aqui que o sentimento estabelece relações entre o sujeito e o objeto e entre o objeto e o sujeito. Essas relações aparecem de duas formas: na forma de uma carga emocional, provocada pela relação do indivíduo com sua experiência íntima diante de determinado objeto e na forma de valores, pela relação do indivíduo com conteúdos pré-estabelecidos que expressem um julgamento em relação ao mundo. É um processo que dá e recebe cargas de sentimento com e através de um entendimento estabelecido. Também podemos concluir até aqui que em torno das relações humanas, estamos lidando com três forças poderosas: Eros, a emoção e o amor.

A função sentimento tem estado reprimida e desconsiderada pela nossa sociedade, provocando reações bem-preocupantes, como a delinquência, a solidão, o erotismo exagerado, etc. O sentimento foi inferiorizado a tal ponto que só pode entrar pela porta dos fundos. Quando isso ocorre, tudo parece incerto, pois os sentimentos foram abalados. Temos medo do nosso próximo, medo de sermos atacados, sentimos um anseio vago que buscamos sem saber onde e, com isso, nos tornamos egoístas e superficiais, lutando, odiando, caluniando e gerando muito sofrimento. Nas relações de trabalho enfrentamos muitas dessas condições.

Atualmente, vemos o quanto nos afastamos do sentimento e de suas formas, e tentamos buscá-lo desesperadamente em movimentos desarticulados. Isto nos levou a buscar situações artificiais para o contato com os sentimentos. Organizamos, por exemplo, grupos pretensamente terapêuticos, nos quais se estabelecem vivências que forçam estados alterados de afetos e emoções. E uma espécie de "institucionalização" de um espaço e de tempo em que é permitido "sair do sério", que estranhos toquem nosso corpo, que libertemos raivas e desejos. Usamos de subterfúgios ou de drogas, buscando estímulos cada vez maiores para "sentir intensamente"... Tudo não deixa de ser uma tentativa desajeitada da alma humana, em seu recôndito esconderijo, num esforço para ser reconhecida e recuperar sua sensibilidade.
ANIMA E ANIMUS
Até o momento, procuramos reflerir o que é o sentimento, seus processos, a sua função e implicações nas relações. Antes de prosseguir¬mos, importa reconhecer quanto a identidade do sujeito é um produto das relações com os outros. Neste sentido, somos povoados de outras personagens internas em nossa história. Assim como, também povoado de pessoas que nos acompanham na nossa solidão, em momentos de dúvidas e conflitos, dor e prazer. Desta maneira, estamos sempre acom¬panhados por pessoas que vivem conosco permanentemente. Essa afir¬mação é ainda mais real quando levamos em consideração a realidade espiritual com nossos acompanhantes em Espírito.

Com isso, queremos dizer que além das pessoas que nos acompa¬nham externamente, temos um universo interno de pessoas que partici¬pam de nossa vida. Nossa personalidade é formada por diversas outras pessoas no nosso mundo interno e que muitas vezes permanecem in¬conscientes. Não nos damos conta que estamos repetindo e reproduzin¬do estilos e papéis que tem a ver com vínculos arcaicos em que outros personagens jogam por nós. Podemos relacionar esses "personagens in¬ternos" com o conceito de complexo na psicologia analítica.

Os complexos são elementos dinâmicos do sistema psíquico que têm funções próprias dentro desse sistema e se formam a partir de um conjunto autónomo de impulsos, agrupados em torno de ideias e emo¬ções, carregadas de energia. Todo complexo tem um núcleo que é o arquétipo. Assim, para cada complexo podemos reconhecer um arqué¬tipo em seu centro. O ego, a sombra, o complexo materno/paterno, entre outros, são exemplos de complexos que se formam como condição de nossa realidade psíquica.

Entre os complexos existentes, não podemos deixar de nos referir às estruturas relacionais que representam aspectos da alma do indivíduo - anima e animus. Como foi colocado, eles são complexos relacionais porque possuem em sua função essa qualidade e papel na psique. A ani¬ma (aspecto feminino no homem) e o animus (aspecto masculino na mulher) representam o outro (elemento contrassexual) dentro de nós. Segundo Jung, na medida em que integramos parcialmente este oposto dentro de nós, tornando-o consciente, aumentamos a nossa capacidade pessoal de lidar com a complexidade das outras pessoas.

Como arquétipos, eles representam forças essenciais da alma que organizam e apreendem a realidade. São os princípios universais ào yin eyang, em suas qualidades femininas e masculinas. Enquanto comple¬xos, são personificações pessoais relativas ao contexto histórico e reen-carnatório em que vivemos. Ou seja, imagens e funções que refletem conteúdos e experiências internalizadas do masculino e feminino.
Sabemos que o Espírito não tem sexo no sentindo estreito que entendemos e que em sua natureza ele é tanto feminino quanto mas¬culino, precisando experimentar essas duas realidades em seu processo evolutivo. Quando em nossa posição egoica assumimos uma polaridade masculina, nossa dimensão feminina estará mais inconsciente forman¬do uma personalidade parcial dentro da psique e, assim também, quando nosso ego c mais feminino, nosso universo masculino não se perde e se apresenta como uma imagem no nosso inconsciente.

Desse modo, diferentemente da condição de macho e fêmea que nos marca sexualmente, nossa identidade de género é extremamente complexa e de uma composição quase infinita de nuanças entre a di¬mensão masculina e feminina. O Espírito pode ter um corpo masculi¬no, mas com acentuada marca feminina e vice-versa sem que isto deter¬mine invariavelmente sua preferência sexual.
Angelis refere que Jesus conseguiu harmonizar essas duas nature¬zas e "ninguém como Ele, conseguiu essa perfeita identificação doyange do yin, provando ser o Espírito mais elevado que Deus ofereceu ao homem para servi-lhe de modelo e guia".11

Como o Self representa a totalidade do ser, reconhecemos que a anima e o animus são forças de conexão do Self numa relação de com¬plementação e compensação. Ou seja, reconhecemos neles aspectos im¬portantes para que a psique possa se relacionar plenamente com si e com o mundo. Portanto, a importância desses dois complexos ou arquétipos é que eles possuem para a psique essa função relacional. Para Jung, a ani¬ma e o animus, enquanto arquétipos, possibilitam a entrada ao incons¬ciente coletivo e a experiência com o Self, são psicopompos, ou seja, guias da alma para a viagem interior ao que é mais essencial e fundamental em nós. E também, como complexos, guardam as imagens masculinas e femininas que vão influenciar nas escolhas de nossos parceiros e nas relações humanas.

Todos estes integrantes do nosso mundo interno estão presentes na hora de qualquer ação, na realização de uma tarefa. Por isso, nosso ser individual nada mais é que um reflexo, no qual a imagem do espelho refletida é a de um "eu" que aparenta unicidade, mas que é composto por inumeráveis marcas de falas, presenças de modelos, etc.

Dessa forma, o relacionamento é uma necessidade inerente a todo indivíduo. É na relação com o outro que aprendemos a interagir social¬mente e que contatamos com as nossas dificuldades e limitações, bem como potencialidades a serem desenvolvidas. Onde nosso eu e nossos complexos da anima e do animus estarão ativados, nos colocando em coníronto com nossas imagens internas, necessidades e sentimentos que devem ser trabalhados.
Pessoas convivem e trabalham com pessoas, e reagem a estas nesse contato: comunicam-se, simpatizam e sentem atrações, antipatizam e sentem aversões, aproximam-se, afastam-se, entram em conflito, com¬petem, colaboram, desenvolvem afeto.

Assim, um olhar, um sorriso, um gesto, uma postura corporal, representam formas de relação entre as pessoas. Mesmo quando alguém vira as costas, fica em silêncio ou se mostra frágil, fraco, isso também é interação e têm um significado, pois comunica algo aos outros. Não há processos unilaterais na interação humana, tudo o que acontece no relacionamento interpessoal decorre de duas fontes: eu e o outro.

Essas reações voluntárias ou involuntárias constituem o processo de relação humana, em que cada pessoa na presença de outra pessoa não fica indiferente a essa situação de presença estimuladora. O processo de relação humana é complexo e ocorre permanentemente entre nós, sob forma de comportamentos manifestos e não manifestos, verbais e não verbais, pensamentos e sentimentos.

Isso nos remete a importância do reconhecimento dos aspectos sombrios da nossa personalidade, das questões internas de nossa anima e animus que refletem nossa condição ainda imperfeita e que são inva¬riavelmente projetadas nas relações com o outro. Para Jung, a modéstia é uma necessidade para chegarmos a nossa imperfeição, "e é exatamente esse reconhecimento consciente e essa consideração que são necessários onde quer que se estabeleça um relacionamento humano. Um relacionamento humano não se baseia na diferenciação e na perfeição, pois estas apenas enfatizam as diferenças ou trazem a tona o oposto exato; ele se baseia, isso sim, na imperfeição, naquilo que é fraco, indefeso e carente de apoio — a própria origem e razão da dependência. A perfeição não precisa dos outros, mas a fraqueza sim, pois ela procura apoio e não enfrenta o parceiro com qualquer coisa que possa forçá-lo a uma posição inferior e até mesmo hu¬milhá-lo. Essa humilhação pode ocorrer muito facilmente quando o alto idealismo representa um papel demasiado proeminente. Talvez isso pareça ser muito simples, mas as coisas simples sempre são as mais difíceis. Na vida real, exigem a grande arte de ser simples; portanto, a aceitação de si mesmo ê a essência do problema moral e a prova dos nove e de toda a perspectiva de vida da pessoa". 12

Agora podemos entender de que forma animalanimus atuam em nossas vidas práticas. Anima é a figura feminina no inconsciente do ho¬mem. Manifesta-se através dos humores: irritação, depressão, incerteza, insegurança, suscetibilidade, observação rancorosa e venenosa, frieza e indiferença, quando negativa. Também realiza um jogo intelectual de enigmas, formando um diálogo neurótico que impede o contato com a vida. Pensa tanto a respeito da vida que não consegue vivê-la, perdendo toda a espontaneidade e faculdade de comunicação.

Ela é a guia, mediadora entre o mundo interior e o Self. Responsá¬vel pela forma adequada de lidar com a natureza: por exemplo, escolha da companheira certa. E a anima que ajuda a discernir os fatos escon¬didos no inconsciente e sintonizar a mente com os valores interiores positivos. Possibilita a fé na vida.

Segundo a visão clássica, possui quatro estágios:

1) Eva - relacionamento puramente instintivo e biológico;

2) Helena (Fausto) - nível romântico e estético;

3) Virgem Maria - o Eros elevado à grandeza da devoção espiritual;

4) Sofia - a sapiência, a sabedoria que transcende até mesmo o sentido e a pureza.

Para integrar e desenvolver a anima, é necessário que o homem leve a sério seus sentimentos, humores, expectativas e fantasias, fixando--as de alguma forma: na literatura, arte, etc. Depois, examiná-la tanto ética como intelectualmente, considerando sempre essas manifestações como reais. Quanto mais distante o homem estiver de seu mundo in¬terior, mais difícil é sua relação com os sentimentos e mais literal será a sua relação com o mundo. A literalidade e a relação concreta com o mundo representam uma perda do contato com sua anima. Por exem¬plo, por não conseguir contatar com meu mundo interior e discernir meus sentimentos, projeto-os num cargo, num carro esportivo e fico excessivamente ligado ao culto do corpo.

Como bem define Hillman, "desenvolvimento do corpo não signi¬fica cultura muscular, ou tratá-lo e curti-lo com se fosse um objeto, aper¬feiçoá-lo em técnicas de judo, caratê, ou em habilidades sexuais. Devemos salientar uma diferença sempre esquecida - existente entre corpo e carne. A carne é ao mesmo tempo o opositor e companheiro secreto do ego. Atitudes mentais quanto à carne produzem sexo mental, egoísmo sexual, pornogra¬fia, e a imagem de nós mesmos passa a ser a do músculo bem treinado e enriquecido com vitaminas"}0

Quanto mais a mulher interior for representada nos sonhos ou nas fantasias por imagens do coletivo como modelos da moda ou cine¬ma, maior será a evidência de que a alma desse homem é coletivamente comum e igual à de todo mundo. No dizer de Hillman, "quanto mais engraçadinha a anima, menos bonita a alma. Pelo fato de expressarem minha capacidade de responder e de interiorizar, elas também mostram formas de desdobramento de minha vida religiosa. Se a minha alma for jovem demais, ou então muito fria ou materialista, ou ainda muito crítica, ê certo que haverá distorções correspondentes em minha vida religiosa"}*

O animus é a figura masculina no inconsciente da mulher. Não se manifesta sob a forma de fantasias ou inclinações eróticas como a anima, mas como uma convicção sagrada.

O animus nunca aceita exceçóes: Ou ele me ama ou não me ama... Não quer dizer que sua opinião seja equivocada. No entanto, raramente se enquadra numa determinada situação individual. É uma opinião que parece razoável, mas está fora de propósito. O que acontece é que muitas vezes a mulher já parte de um pressuposto interno dado pelo animus; assim, mesmo que a sua lógica esteja certa, como parte de um princípio equivocado, a conclusão acaba sendo equivocada também. É muito comum, então, a mulher ter um tipo de preconceito inconsciente contra ela ou contra os outros. Fantasias como "não vai dar certo", "essa roupa não fica bem em mim", "ele não me ama", são jogos internos feito pelo animus negativo.

Aparece através de pensamentos oníricos, dos desejos e julgamentos que definem as situações como elas deveriam ser, afastando a mu¬lher da vida. Pode aparecer como o demónio da morte (ideias e desejos de morte), assaltante, assassino personificado, reflexões semiconscientes frias e destruidoras que invadem a mulher durante as horas da madrugada, especialmente quando ela deixou de realizar uma obrigação ditada pelos sentimentos. Tece uma espécie de rede de pensamentos como brutalidade, indiferença, conversas vazias, idéias silenciosas, obstinadas e más.

Positivamente, enquanto função, é ele que lança uma ponte para o Self através da atividade criadora. Para integrá-lo e desenvolvê-lo é necessário que a mulher enfrente a realidade em lugar de deixar-se possuir por ela. O animus possibilita iniciativa, coragem, honestidade, objetividade e sabedoria espiritual.

Possui quatro estágios:

1) Atleta musculoso (ex. Tarzan) - personifica a agressividade (ação) como força física;

2) Herói de guerra / homem romântico / poeta - personifica a iniciativa e a capacidade de planejamento e ação;

3) Professor / orador - torna-se o verbo, o condutor do verbo;

4) O sábio (ex. Gandhi) - encarnação do Logos, aquele que leva a verdade espiritual.

No estágio elevado, o animus relaciona a mente feminina com a evolução espiritual de sua época. Mediador de uma experiência religiosa através da qual a vida adquire um novo sentido. Possibilita firmeza espiritual invisível, amparo interior. Torna a mulher mais receptiva as novas idéias criadoras do que o homem.

Para que possamos compreender o que se passa com nossa anima ou animus importa entender as relações não como um fato objetivo, mas como uma imagem subjetiva do meu mundo interior.
O SENTIMENTO INFERIOR
Nas nossas formas de reagir e nas atitudes, podemos reconhecer certos traços repetitivos que expressam fantasias internas e que se aproveitam da realidade para tomarem forma. Por exemplo, posso, sem me dar conta, toda vez que estabelecer algum tipo de relação, seja com amigo, colega ou familiar, ter a tendência de, frequentemente, sentir uma pressão forte ou sutil para pegar o comando da situação e manejar o poder sobre o outro. O poder, neste caso, significa a necessidade ou o desejo de ter o controle, por alguma necessidade não reconhecida estará presente em todos os relacionamentos Humanos. Isso pode vir de várias maneiras: dar ao outro conselho não solicitado sobre como melhorar uma atitude; insistindo numa observância rígida em relação a um comportamento; fazendo interpretações agressivas para estabelecer o predomínio; banalizando os efeitos e sentimentos que outras pessoas geram nele.

Tudo isso pode estar indicando uma resposta a um jeito inferior de se relacionar por necessidade de se sentir valorizado ou importante. Por isso, o processo de relação exige que deixemos de julgar o outro e busquemos olhar para nosso mundo interior, procurando reconhecer em nossas intenções e reações efeitos emocionais de questões mal resolvidas.

Isso indica duas coisas: uma que somos inconscientes de nossos estados internos, manifestando um desencontro com nossos sentimentos; e outra, que, além disso, lidamos com eles de forma inferior.

Para entendermos essas questões é importante sublinhar que ter sentimentos e usar a função sentimento são coisas diferentes. Eu posso ter sentimentos positivos e negativos como conteúdo e saber lidar com eles muito bem ou lidar de uma forma inferior. Assim, podemos ter sentimentos negativos na forma de conteúdos infantis e regressivos, viciosos, destrutivos, etc., e ter a maturidade de não explodir ou deslocar esses sentimentos para os outros. Ou podemos ter um sentimento positivo e não saber comunicar e agir de maneira inadequada apesar do sentimento positivo. Independente dos conteúdos envolvidos, a função sentimento só é inferior quando distorcida, imprópria ou inadequada.

Dessa forma, mais do que reconhecer o que se passa dentro de nós, é importante encontrar recursos para lidar com o que encontramos. Muitas vezes não são os sentimentos que levam a estragar a nossa relação com a vida ou ferir nossos entes queridos, mas sim o nosso jeito inferior de funcionar. E natural, em algum momento, estarmos feridos em nossos sentimentos, com alguma sensação negativa, mas isso não implica se deixar tomar por eles.

Também podemos considerar como exemplo certas atitudes tomadas pela espiritualidade quando desconsidera ou evita certas expressões sentimentais positivas, como júbilo e afeto, em certas práticas mediúnicas ou em momentos espiritualmente impoi lautes, por não favorecerem o objetivo almejado ou estarem sendo iratados de maneira inferior, ou por serem expressos de um jeito inadequado e no momento errado. Mesmo os sentimentos mais valorizados, como o amor altruísta e religioso, podem ser carregados de intensidade ilusória e serem "usados" pela função inferior servindo a outros interesses ou em excesso destrutivo, como é o caso de certas culturas e seitas fundamentalistas que doam a vida e matam cruelmente em nome de Deus. Uma coisa é o sacrifício pessoal em doação amorosa e outra é o barbarismo revestido de um discurso religioso.

Quando somos envolvidos e tomados por sentimentos, os transformamos em cargas afetivas. Essas cargas afetivas tendem a ser reprimidas, agregando distúrbios corporais ou comportamentais, e nos tornamos estranhos, pesarosos, exigentes, entre outras coisas. A carga de energia que gastamos se torna gigantesca. Ficamos "presos" em complexos que geram fantasias perniciosas, por exemplo, a tentativa de ficar antecipando coisas de forma negativa. Ou acabamos deslocando-os e escoando-os para os ambientes seguros a que estamos vinculados, principalmente na família, que termina pagando um preço caro por isso e também pode ficar "envenenada" por eles. O trabalho e o casamento são um prato cheio para isto: as relações são recheadas de projeção e exigências que desgastam o relacionamento em discussões intermináveis e imposições de necessidades.

Outro indício de nosso sentimento inferior é a perda de contato da pessoa com aquilo que sente. Quando a função sentir é, por algum motivo, deixada de lado ou ficou desestimulada, torna-se clandestina, descendo para esferas mais inconscientes.

Com isso, toda a orientação do sentir, do gostar, do querer, dá lugar a uma amargura, uma secura, que se faz sentir de forma deslocada. Perdemos a consciência avaliativa dos sentimentos que serão avaliadas de forma inferior, causando "todo tipo de sentimento deslocado, lágrimas na hora errada, brincadeiras esquisitas, apegos e entusiasmos peculiares, emissão de julgamentos de valor quando estes não são relevantes e oscilações generalizadas de humor que variam da exaltação geral à depressão geral". 15

Quando nos movemos pela incapacidade de avaliar através do Sentimento, acabamos exagerando situações sem muito significado e desvalorizamos assuntos importantes. Isto pode ocorrer aos outros ou a si mesmo, sentir o próprio valor não é tarefa fácil. Conforme Hillman, "perdemos contato com a nossa importância, alternando entre a falta de valor depressiva e as ilusões de grandeza. De um lado, exigimos demais e, de outro, vendemo-nos barato".14

Temos muitas formas de mascarar e fugir do confronto com a nossa condição. Preferimos deixar de lado os desafios dolorosos de nossa vida, perdendo a decência através de artimanhas pueris e primitivas. Até o mundo espiritual não escapa disto. Quantos se declaram espiritualistas, (e até alguns falsos espíritas que não entenderam e corrompem a Doutrina) mas se utilizam de informações, deturpando os conhecimentos espirituais, para justificar certas fraquezas ou para fugir de responsabilidades! Encontramos pessoas que chegam ao cúmulo de justificar suas relações extraconjugais com a absurda noção de que, por terem supostamente encontrado uma grande afeição do passado, uma "alma-gêmea", torna-se impossível evitar a traição. Outra grosseira distorção é quando deixamos de ser amorosos, afirmando que é o carma do outro e que ele tem que sofrer. Ou quando evocamos fortes emoções de caráter místico, e delegamos nossas responsabilidades para os Espíritos, chantageando-os com histórias melodramáticas para que eles sejam escravos dos nossos caprichos, isto quando não fazemos o mesmo, num ainda maior distanciamento da razão, em relação a entidades místicas, como duendes e gnomos. E muitas outras coisas... Temos medo de crescer e queremos ficar dependentes.

Agimos com medo e inferioridade, que fazem com que não consigamos assumir e ter claros os nossos sentimentos. Temos dificuldade de sustentar nossos valores e princípios. Em vez de educar, punimos exageradamente; na dificuldade de despedir um funcionário ineficiente, nos estressamos e acabamos magoando mais ainda; não conseguimos lidar com a agressividade alheia, e nem com a nossa. Falta objetividade e posicionamento no lidar com os sentimentos. Quando estamos sob o efeito de um sentimento inferior, tendemos a exagerar e reagimos no tudo ou nada.
A BASE PARA A EDUCAÇÃO DO SENTIMENTO
Dado que o sentimento tanto se manifesta como conteúdo e como função, podemos falar em educar o sentimento ou desenvolver o sentimento. Educação do sentimento parece ser a expressão mais completa, pois a educação é um processo dinâmico, contínuo de transformação que inclui a integração e o desenvolvimento dos sentimentos.

O sentimento só pode ser educado através do próprio sentimento. É uma educação através da fé, pois necessita que confiemos que funcione e que até possa errar. Os sentimentos negativos exigem coragem, paciência e honestidade para convivermos com eles. Quando começamos a relacioná-los de forma adequada e também nos relacionarmos apropriadamente com eles nas situações apresentadas, iniciamos o processo de elaborar um sentimento superior. O fato de trazermos esses sentimentos para a consciência gera conhecimento e começamos a modificar nossa personalidade, ocorrendo uma integração entre o eu e o sentimento negativo. Isto leva ao desenvolvimento da função sentimento, uma evolução que passa de uma estreita e rígida forma de perceber e reagir para uma adaptação mais livre e adequada.

Reafirmamos, então, que a educação do sentimento exige fé, humildade e coragem. Coragem psicológica, uma coragem da alma para encontrar-se consigo mesma e enfrentar os seus fantasmas e monstros interiores, para aceitar como seu tudo o que aparecer. Humildade para conseguir colocar-se por baixo, ao encontro de nossa inferioridade e impotência.

A partir disso, encontramos nas relações humanas a melhor forma de educar os sentimentos. Assim, os padrões e dinâmicas que envolvem as formas tradicionais de se relacionar são fontes importantes para o exercício do sentimento. São elas: modos e ajustamento, casamento e relações pessoais, estilo e oportunidade, efeitos, paixão e "tato". Esses são variantes que proporcionam dar expressão e desenvolver a função sentimento. Vamos ver um pouco de cada um deles, a partir do trabalho de Hillman.14

Os modos são fruto da codificação de padrões objetivos de relacionamento. Muitos se opõem a eles por acreditarem ser apenas uma apelo hipócrita aos "bons modos", que na verdade afastam os sentimentos. Costumam então "jogar tudo para o alto" e viver o que estão sentindo. Este tipo de afirmação demonstra a não compreensão real do que significa ter modos. Os modos de maneira alguma se opõem aos sentimentos, eles são na verdade formas de expressão levando em conta os sentimentos de todos. Eles se opõem aos afetos irracionais e não aos sentimentos. Os modos são parte dos ajustamentos. Uma atitude de consideração e compromisso com os outros. O ajustamento implica desenvolver valores do sentimento tais como compartilhar, ajudar, engajar, tomar parte e aceitar. Pressupõem deixar de se afastar e fugir do outro, abandonar certas reservas pessoais. Não podemos esquecer que tudo o que fazemos tem uma cota de poder e um efeito sobre o outro e somos responsáveis por isso.

Outra forma objetiva de nos relacionarmos é o estilo. As diversas situações da vida são oportunidades de cada um mostrar o seu estilo de se relacionar. O estilo não é o estilizado, aquela forma extravagante e árida de se expressar. É uma feliz união entre o sentimento pessoal e as necessidades externas. O estilo, então, é o resultado da ética e da estética, que na verdade não deixam de ser na essência a mesma coisa, pois nossas formas de expressão são também um jeito ético de agir. Mas de uma ética em concordância com essa relação entre os dois mundos, de tal maneira que aquilo que mantém o nosso estilo é adequado tanto à verdade interior do sentimento quanto ao mundo exterior. O estilo demonstra como cada um lida com seus sentimentos e vive os seus valores. Ê a busca de nós mesmos, da nossa marca, de um jeito que torna especial a nossa relação com o mundo.

O "tato" representa a sensibilidade de perceber o tempo e a necessidade dos sentimentos em cada coisa e lugar. Tudo tem um tempo adequado e o "tato" é o sentido da oportunidade, de agir de forma apropriada. Além da sensibilidade de usarmos o tempo ou conceber um tempo adequado, temos na noção de tempo o efeito emocional. O tempo passa tão depressa quando gostamos de alguém ou de alguma coisa, um momento especial e rico de alma, e passa lento e enfadonho quando não nos afeta positivamente. O tempo compartilhado com os outros flui naturalmente? O tato é também um feeling que temos em relação como, uma presença que sente e percebe sem precisar perguntar.

As relações são fundamentais para o exercício dos sentimentos .ique o outro funciona como um espelho para nós. Para Joanna de Ângelis,7 o calor humano nas relações constitui fator vital para o crescimento psicológico, favorecendo o desenvolvimento da área afetiva com da gama e profundidade de sentimentos que existem em germe no imo de cada ser. O efeito que causamos nas pessoas e os efeitos que elas os causam são aspectos sobre os quais devemos prestar atenção para tomarmos consciência das nossas dificuldades e características emocionais. Por exemplo, podemos num simples momento de conversação ter um campo rico de elementos para nos avaliarmos: temos a tendência de nos intimidar numa conversa com outro? Somos exagerados e queremos ha mais atenção nas conversas? Falamos demais e não deixamos o outro se expressar? Contamos vantagens e queremos impressionar? Deixamos as pessoas sonolentas e dispersivas com nossas conversas? Os efeitos e maneiras que nos comunicamos estão falando de como lidamos com os sentimentos. Temos um campo vibracional e estamos passando e recebendo energias pelo teor dos afetos. Que tipo de energia passamos para os outros?

Já que esses aspectos levantados ocorrem na sua maioria nas relações, é nas relações que o sentimento ganha forma, e é através das relações que temos a maior oportunidade de educarmos o sentimento. Prestar atenção às relações e dar a elas sua devida importância é um significativo passo nesse processo. O reconhecimento do valor numa situação ou de alguém cria uma atmosfera de importância que gera profundidade, entendimento e uma intensa troca energética, que alimenta a todos. Para isso, não precisamos lançar mão de artifícios como roupas, decoração e jantares suntuosos, basta ouvir com atenção e interesse. Com isso, vamos criando uma espécie de espelhamento para o outro, no qual ele pode se reconhecer através de nós, sentindo-se amado e cheio de vida. Também vamos ajudar para que eles possam extrair e intensificar valores naturalmente, colocando limite ao que for impróprio. Algumas pessoas possuem uma atitude interna tão bem integrada em termos de sentimento que, independente do lugar onde estiverem, criam uma atmosfera que determina o tom moral para o ambiente e os outros se ajustam naturalmente.

Uma das relações mais apropriadas para educar o sentimento é o casamento. Isto porque, pela intimidade e por questões do passado, ele oferece um terreno fértil para todo tipo de sentimentos negativos. Casar implica um exercício diário para elaborar as diferenças entre os cônjuges. Irritação, mau humor, mágoas, manias, exigências, tédio e tantos outros confrontos que são vividos na relação. Parece que o casamento e/ou a família é o laboratório onde se modelam todos os sentimentos humanos. Quando casamos, nossos votos de fidelidade e compromisso não são apenas para o lado que amamos do nosso cônjuge; casamos também com todos os outros lados que conhecíamos ou não, implicando que nosso lado inferior e do outro também sejam levados para a casa. O que é necessário mais uma vez é uma predisposição para crescer e mudar, mesmo que isso leve tempo. E as coisas da alma costumam ser demoradas. Quando há essa disponibilidade para crescer e aprender juntos, esse universo matrimonial se torna uma experiência profunda e transformadora, com muitas conquistas no campo do sentimento. Pena que nem todos estejam dispostos ou preparados para isso, o que também deve ser respeitado.

Percebemos que trabalhar e educar o sentimento exige uma boa dose de paciência e cuidado. Todo cuidado exige que olhemos para as pequenas coisas. Os relacionamentos pessoais requerem sentimentos pessoais. Nas pequenas atitudes e situações encontra-se o segredo da relação. Aprendemos com os sábios que, apesar de chegarem às questões profundas e cósmicas, nos trazem a beleza e o conhecimento pelas pequenas coisas. São os detalhes pequenos que "matam" ou dão "vida" para uma relação. Pequenas mágoas, constrangimentos, descasos aparentemente insignificantes, pequenos erros e atitudes inadequadas, que geram ressentimentos e vão sendo deixados de lado, tornando árida e apática a relação. Assim como certas atenções, reconhecer virtudes, pequenos favores dão substancialidade que vinculam um ao outro. Como nos diz Hillman: "perder o pequeno é desperdiçar a função sentimento".16 No contato com o outro nos confirmamos enquanto gente. Cada crédito confiado a alguém possibilita reafirmar quem somos, confiando e alimentando nossa autoestima. Isso gera um sentimento de redenção, um estado interior que nos acolhe, a nós e aos outros, que os nossos sentimentos e coração são bons e que mesmo as nossas feridas emocionais mais profundas podem ser expostas, experimentadas e curadas. Podemos chamar esse processo de amor. Um estado que nos recupera a força de viver e nos redime frente ao mundo.

Como refere Angelis, o amor é Hálito Divino que equilibra o Universo, essência fundamental para a vida, que vincula todas as formas vivas com Deus.17 E, para a benfeitora, a terapia eficaz para a maioria dos distúrbios comportamentais, favorecendo ao que ama uma existência edificante e felicitadora.7

Na questão dos relacionamentos, a educação dos sentimentos deve considerar também certos padrões objetivos. Existem certas "regras" ou rituais que são universalmente estabelecidos para reger determinados tipos de relação, como entre o mais velho e o mais novo, entre o mestre e o discípulo, entre o visitante e o anfitrião, entre o chefe e o empregado. São padrões arquetípicos que em muitas culturas apresentam uma riqueza de detalhes, que podem ter conotações místicas e simbólicas. Esses padrões orientam e favorecem a educação dos sentimentos, pois é muito difícil se manter numa posição superior sem arrogância ou subserviência, observar a ordem sem cair na castração familiar, pedir sem impor, etc. É o desafio de estabelecer um equilíbrio dinâmico entre o individual e o coletivo.

Gostaríamos também de comentar o poder transformador do sentimento quando ele pode ser expresso. A inibição dessa expressão danifica a função sentimento. Ou, ao contrário, vivemos exteriormente os nossos sentimentos com tanta intensidade que não conseguimos contatar com profundidade o seu sentido maior ou evitamos a solidão e as complicações que existem dentro de nós, fugindo em vez de trabalhá-las. Expressar o sentimento não quer dizer explosão de afeto, pois explodir é muito diferente de expressar.

A expressão requer um compromisso com aquilo que está sendo expresso, já que podemos explodir e esquecer tudo sem responsabilidade. Esse comprometimento, esse envolvimento desenvolve a função sentimento, favorecendo um aprofundamento e uma intimidade que nos capacita a desmistificar certos medos e inferioridades, o que possibilita potencializar o poder do coração. Vemos o quanto estamos distantes de nossos sentimentos, o quanto confundimos descontração com imaturidade e sentimento com superficialidade, como é difícil cantar, fazer um gesto magnânimo ou uma atitude cortês. Precisamos desenferrujar nosso coração e nos comprometer com os sentimentos sem sermos narcisistas.

O trabalho com nossos sentimentos evita a fuga ou que nos tornemos dissociados. Quando deixamos de lado esses exercícios, os sentimentos inferiores descem a níveis mais instintivos e/ou desaparecem nas profundezas do inconsciente. Isso nos torna confusos em relação aos sentimentos. Não sabemos como nos sentimos e trazemos substitutos ou condicionamentos para expressar os sentimentos, de uma forma que nos colocamos fora daquilo que está sendo vivido. Acabamos expressando com distância e num outro tempo os nossos sentimentos: "quando eu era pequeno...", "se eu tivesse tal coisa, seria feliz", "costumava me sentir de tal modo". Caso perguntemos se gostamos disso ou daquilo, respondemos com conceitos ou trazemos qualidades do objeto e não nossos sentimentos. Quando um dos cônjuges pergunta para a esposa ou para o marido se ela(e) gosta dele(a), não é tanto para reafirmar ou dirimir dúvidas, mas uma forma de fazer com que a pessoa contate com o sentimento que está lá dentro, escondido. A resposta força a contatar consigo e estar presente ali naquele momento.

Por último, devemos analisar certas considerações que julgam as pessoas com a função sentimento bem-trabalhada como supostamente frias. São pessoas que parecem não se envolver muito com o outro ou não demonstrar suas emoções. Na realidade, essas pessoas conseguiram estabelecer uma harmonia e um equilíbrio em torno da função sentimento. Assim, essa suposta "frieza" é fruto de uma capacidade de lidar com as tensões emocionais, do domínio dos elementos envolvidos entre a situação exterior e os valores internos, que para a maioria de nós provocaria suores frios a ponto de descompensar. Elas têm uma atitude positiva e objetiva perante a vida, sem serem melodramáticas. Aí está a diferença entre o conteúdo dos sentimentos (que elas possuem de uma forma intensa) e a função sentimento, que é a forma que elas lidam com os mesmos (com equilíbrio, objetividade e harmonia). Lembramos a imagem de Jesus serena e tranquila e que no coração expandia um amor que jamais outro alguém pode nos dar.

Não é fácil concluir diante deste universo complexo do sentimento. Podemos então dizer algo sobre nossa postura em face do sentimento, e, neste sentido, o melhor que temos a fazer é viver. Enfrentar o que sentimos e termos a coragem de suportar esses aspectos de nós mesmos que parecem imutáveis. Ser paciente é uma condição básica para educarmos o sentimento. Por quanto tempo temos que renunciar ou manter certos sentimentos é parte desse processo. E é assim que, pela continuidade do exercício da função sentimento, podemos encontrar uma nova forma de relação, um novo valor que permite perdoar e superar ressentimentos, assim como abrir novas perspectivas de crescimento.

A função sentimento é a razão da energia da vida, e aquela busca ser e deixar que o outro seja. Ela nos ensina que precisamos interagir e interação é o próprio processo de viver o sentimento, pois o sentimento pressupõe conexão. Ele afirma que nada pode ser adquirido em isolamento cultural. Ampliando isso para a dimensão de uma cultura universal, do homem anímico/mediúnico, notamos que os limites da matéria são quebrados num movimento em que o sentimento redefine o nosso ser.

Vivemos numa rede, uma teia cósmica que se forma pelo misterioso fluxo do amor. A capacidade de conexão, nossa conectividade possibilita a chave para entender uma nova realidade. E essa abertura para o sentimento que possibilita uma transformação de consciência - a consciência interativa do homem cósmico e mediúnico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Triunfo Pessoal. Salvador: LEAL, 2002, cap. 2- O Ser Pensante; p. 35.
2 KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2006, cap. 17, item 7.
" HILLMAN, J. Anima: anatomia de uma noção personificada. Sáo Paulo: Cultrix, 1990.
4ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Amor, Imbatível Amor. Salva¬dor: LEAL, 2000, cap. 1.
5 KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2003, questão 939. 6JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991 (Obras Completas, Vol. 6), cap. 11 - Definições, § 896-901.
7ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). O Despertar do Espírito. Sal¬vador: LEAL, 2000.
8 KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, cap. 11 -item 8.
'ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Amor, Imbatível Amor. Salva¬dor: LEAL, 2000, cap. 1.
10 HILLMAN, J. & FRANZ, M.-L. V. A Tipologia de Jung. Sáo Paulo: Cultrix, 1995.
11 ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Vida: desafios e soluções. Sal-
vador: LEAL, 1992, cap. 7.
12 JUNG, C. G. apud WHITMONT, E. A Busca do Símbolo. São Paulo: Cultrix,
1990, pp. 151-152.
13 HILLMAN, J. Uma busca interior em psicologia e religião. São Paulo: Paulus,
1984, p. 129.
14Ibidem, p. 105 e 109.
15 HILLMAN, J. & FRANZ, M.-L. V. Op. cit, pp. 154-156.
16 Ibidem, p.203.
17ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda. Salvador: LEAL, 2000.

JOANNA DE ÂNGELIS