CAPÍTULO
7 - AS RELAÇÕES COMO BASE PARA O EXERCÍCIO DOS SENTIMENTOS
(Gelson L. Roberto)
Um
homem e uma mulher falam na solidão de nosso ser. (Gaston Bachelard)
Sabemos que muito da nossa criatividade depende de um "fluir" emocional
que enriquece e abre novas possibilidades para as várias situações
da vida. O sentimento é uma das fontes da vida psíquica e as relações
são o seu palco fundamental.
A espontaneidade, a receptividade, a capacidade de não misturar os conteúdos
pessoais com a função exercida, a flexibilidade, capacidade de
empreendimento, entre outras, são fatores de ordem intrinsecamente emocional.
Muitas situações vividas apresentam inúmeros problemas
que tem por causa fatores emocionais. Assim, torna-se de vital impor¬tância
o estudo e a reflexão sobre os relacionamentos e sua dinâmica emocional.
Joanna de Angelis afirma que "os sentimentos expressam a capa¬cidade
que possui o ser humano de conhecer, de compreender, de sentir e compartir as
emoções que o vitalizam nas suas diversas ocorrências existen-ciais
.
Ficamos muito distantes do que seja realmente amar, expressão máxima
do sentimento. O sentimento constitui em muito o problema do nosso tempo e a
benfeitora aponta que os relacionamentos são um convite ao amor a fim
de alcançar a plenitude existencial.1
Precisamos, então, tê-lo mais perto de nós, saber lidar
com ele e buscar seus tesouros, pois se o intelecto é como uma luz a
iluminar de fora o que toca, a fim de discriminar, o sentimento é a própria
luz que cada ser carrega e que se impõe naturalmente como o brilho de
um diamante.
Primeiramente, podemos dizer que as relações sao movidas por paixões
e sentimentos. Muitas pessoas quando estão apaixonadas pen¬sam que
estão envolvidas pelos melhores sentimentos, mas isso não é
bem assim. Quantas pessoas matam em função de suas paixões?
Quan¬tos traem seus princípios e relações por causa
das paixões? Quantas re¬lações apaixonadas perdem sua
força depois de alguns confrontos com a realidade? O desejo nos atrai
e nos impele a muitas coisas, mas só o sentimento consegue estabelecer
uma relação com profundidade. Lem¬bremos: intensidade não
quer dizer profundidade.
A paixão é um estado de longa duração, de forte
intensidade, com a tendência de sair da realidade. Quando estamos sob
o seu efei¬to, tendemos a perder a dimensão dos sentimentos e suas
distinções. O sentimento serve para organizar e dar uma direção
para a paixão. Como nos diz O Evangelho Segundo o Espiritismo, "o
dever íntimo do homem está entregue ao seu livre arbítrio:
o aguilhão da consciência, esse guardião da probidade interior,
o adverte e o sustenta, mas permanece, frequentemente, impotente diante dos
sofismas da paixão. O dever do coração, fielmente observado,
eleva o homem; mas, esse dever, como pre¬cisá-lo? Onde se detém?
O dever começa precisamente no ponto em que ameaçais a felicidade
ou a tranquilidade do vosso próximo; termina no limite que não
gostaríeis de ver ultrapassado em relação a vós
mesmos"?
Nesse sentido, é importante estabelecermos uma diferença entre
eros e sentimento. Eros é uma força e não um sentimento.
Tem raízes no desejo e se refere ao princípio da união,
do apego a, do apego por, do envolvimento que une, da conexão.
Uma força universal e impessoal que, como nos diz Hillman3, pode se apresentar
de forma inumana e demoníaca, seja como compulsão sexual ou como
eros cosmogónico, que garante a integridade do universo. Sendo assim,
há pessoas que podem ter muito eros (muito desejo, apetite sexual) e
pouco sentimen¬to, e outras com pouco eros e um sentimento bem-desenvolvido.
Aliás, muitas vezes até se opõem, basta olhar para os estados
de perturbação que eros provoca para vermos como isso é
comum. Tanto que muitos amantes unem-se sem nenhum sentimento. Por isso, Joanna
assevera que o amor é permanente e o Eros é transitório
e que o amor deve se utilizar de Eros sem que se lhe submeta.4
O Livro dos Espíritos também nos coloca, na questão 939,
que "há duas espécies de afeições: a do corpo
e a da alma e, frequentemente, se toma uma pela outra. A afeição
da alma, quando pura e simpática, é durável; a do corpo
perecível. Eis porque, frequentemente, aqueles que crêem se amar,
com um amor eterno, se odeiam quando a ilusão termina"? Compreende-se
que o sentimento não é um fenómeno único e absoluto,
possuindo vários elementos que interagem num movimento dialético
entre matéria e espírito.
A
FUNÇÃO SENTIMENTO
Jung
refere que o sentimento é, "em primeiro lugar, um processo que se
realiza entre o eu e um dado conteúdo, um processo que atribui ao conteúdo
um valor definido no sentido de aceitação ou rejeição
(prazer ou 'desprazer), mas também um processo que, abstraindo do conteúdo
mo¬mentâneo da consciência ou de sensações momentâneas,
pode aparecer como que isolado, como 'disposição de ânimo'
(humor). O sentimento é, portanto, também uma espécie de
julgamento, mas que se distingue do julgamento intelectual, por não visar
ao estabelecimento de relações conceituais, mas a uma aceitação
ou rejeição subjetivas. A valorização pelo sentimento
esten-de-se a cada conteúdo da consciência, seja de que espécie
for.
Aumentando a intensidade, surge um afeto, isto é, um estado sentimental
com inervações corporais sensíveis. O sentimento se distingue
do afeto por não provocar inervações corporais sensíveis...
Como o pensamento, o sentimento é uma função racional,
porque, conforme a experiência o mostra, os valores em geral são
atribuídos segundo leis da razão que, por sua vez, também
gover¬nam a formação dos conceitos. Orientándose a
atitude global do indivíduo pela função do sentimento,
falamos de um tipo sentimento"?
Todo relacionamento humano é permeado por algum tipo de sen¬timento,
sendo uma função da consciência que avalia. Através
desse processo podemos dar um valor às experiências situacionais
e pessoais. Em cada relação recebemos e damos cargas de sentimento,
o que não quer dizer que esses sentimentos sejam sempre positivos. Pois
sempre sentimos algo por alguém, mesmo que seja desprezo. Assim, nas
rela¬ções, o sentimento pressupõe uma capacidade de
afetar o mundo e de valor e o objeto ao sujeito, favorecendo ser capturado por
um sistema subjetivo de valores. Por isso, podemos dizer que a função
sentimento é uma função do relacionamento. E Joanna completa
dizendo que os relacionamentos dependem do nível de consciência
daqueles que estão envolvidos.7
Temos então um aspecto que é o amor em seu processo evoluti¬vo,
que se abre e se exercita nas relações, e a consciência,
orientando e estabelecendo uma atitude frente às relações
de conformidade com seu nível. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo vamos
encontrar no texto sobre "A Lei de Amor" a dimensão evolutiva
do sentimento: "O amor resume inteiramente a doutrina de Jesus, porque
é o sentimento por exce¬lência, e os sentimentos são
os instintos elevados à altura do progresso rea¬lizado. No seu início,
o homem não tem senão instintos; mais avançado e corrompido,
só tem sensações; mais instruído epurificado, tem
sentimentos; e o ponto delicado do sentimento é o amor, não o
amor no sentido vulgar do termo, mas este sol interior que condensa e reúne
em seu foco ardente todas as aspirações e todas as revelações
sobre-humanas". 8
Podemos perceber que o amor vai se construindo em níveis cada vez mais
sublimes. Joanna diz que quando aparente, o amor é de caráter
sensualista, buscando apenas o prazer imediato. Isto faz com que o sen¬timento
se debilite, se entorpeça ou se envenene, gerando toda espécie
de frustração. Já quando real, estruturado e maduro, a
benfeitora afirma que é um sentimento que sabe esperar, que estimula
e renova. Expressão que não se satura, sem altibaixos emocionais,
esse amor real une as pes¬soas, alimentando o corpo e despertando o eu profundo.
9
Joanna também é consistente quando afirma que em nossa ca¬minhada
de vida também passamos por fases nas formas de vivenciar o amor, "o
infantil, que tem caráter possessivo, o juvenil, que se expressa pela
insegurança, o maduro, pacificador, que se entrega sem reservas e faz-seplenificador"?
Também afirma que há uma fase intermediária entre a insegurança
e a plenificação que se estabelece no comportamento de dar e receber,
procurando libertar-se da consciência de culpa.
Quando nossas relações são primitivas ou mesmo quando a
ca¬pacidade do espírito ainda é bruta no seu sentir, a função
sentimento csiauciccc uma avaliação que tende a ser reducionista
e limitada, traba¬lhando mais com certas reaçóes do tipo aceitar-rejeitar,
gostar-desgostar ou bom-ruim. Já quando mais elaborada, ela estabelece
uma forma de apreciação sutil de valores e sistemas cada vez mais
complexos que se apoiam numa hierarquia racional, seja ético, social,
estético ou nas rela¬ções em geral. Assim, ao fazer
julgamentos, a função sentimento busca coerência e sistematização,
pesando valores, comparando nuanças, re¬lacionando qualidades, contextualizando,
diferenciando a situação da pessoa e sua intenção
e avaliando a importância dos elementos para to¬mar decisões.
Mesmo no nível primitivo, ele busca essa coerência, ainda que numa
lógica mais limitada. Por isso, ela é uma função
racional.
O que está em jogo é que essa função racional vai
partir de certos pressupostos de acordo com sua condição psicológica.
Quando Joanna de Angelis afirma o estágio infantil do amor, estabelece-se
uma lógica presa nessa imagem da necessidade de ser amado e, consequentemente,
uma atitude obsessiva, dominadora, por estar centrado apenas em si e não
também no ser amado. O resultado são comportamentos de am¬bição
e posse e a perda de uma objetividade na relação. Afloram senti¬mentos
inquietantes de insegurança, expressos nos ciúmes, incertezas,
ansiedades, cobranças, entre outros.
O sentimento, quando desenvolvido como função, estabelece a ordem
e a lógica do amor. E bem trabalhado capacita a uma relação
confiante e libertadora. Esta lógica difere da racionalidade intelectiva,
pois às vezes elas até se opõem. Digamos que a função
sentimento é a razão do coração, que muitas vezes
não é compreendida pela cabeça. Esses processos lógicos
que ocorrem com o sentimento podem ser de diferentes formas, lineares ou complexos.
Depende do desenvolvimento que cada um tem dessa função.
Em todo relacionamento temos a oportunidade de trabalhar e exercitar vários
aspectos do sentimento. Nas relações, vários desses aspectos
são acionados e são fundamentais para a compreensão e capacidade
de estabelecer um contato pleno e construtivo. Alguns sentidos são operados
pelo sentimento. As noções de tempo e de feeling são próprias
da função sentimento. Quando o pensamento está dissociado
do sentimento, somos levados a agir certo na hora errada ou, ao contrário,
no momento adequado agirmos de forma incompatível. Por exemplo, numa
situação afetivamente sensível não conseguimos falar
nada de interessante e até mesmo acabamos sendo desajeitadamente indelicados.
(!om esses dois elementos, de tempo e de feeling, estabelecemos um ritmo favorável
ao momento e a sua importância conferindo a cada coisa Seu devido lugar,
transformando uma situação ou uma história banal numa história
de alma - significativa, encadeada, íntima e específica.
Não podemos, então, entender o sentimento de uma forma simplificada
e reducionista, em uma mera alternativa do gostar-desgostar. Essa função
é um processo complexo que, segundo Hillman,10registra a qualidade e
o valor específico das coisas. Ela faz a exploração e amplificação
de nuanças e tons.
Os sentimentos são a base de todo processo relacional, desde a atração,
no seu princípio, entre moléculas e astros, até esse poder
aglutinador envolvendo a família espiritual. Opõem-se à
indiferença e conferem as condições essenciais para uma
postura ética. Assim, a vida moral é determinada pelo nível
de consciência e capacidade do sentimento de cada um. Onde falta sentimento
e compreensão, a rigidez e o moralismo arbitrário tomam lugar.
O Espiritismo favorece uma melhor reflexão e oferece uma anatomia dos
sentimentos, possibilitando maior clareza e profundidade em relação
a eles.
O evangelho refere que a obediência é o consentimento da cabeça
enquanto que a resignação é o consentimento do coração.
Confundimos essas virtudes como uma negação da vontade e do sentimento,
mas o fato é que elas são a própria expressão da
vontade e do sentimento. Uma força ativa e amorosa que nos coloca em
harmonia com o Todo. A indignação também é uma força
ativa que reflete uma reação de oposição quando
essa harmonia e consciência são feridas, ou seja, quando o ser
humano se confronta com uma incompatibilidade com sua natureza. A indignação,
por ser uma reação agressiva, não quer dizer que compactue
com a violência, pois aí já é cólera que nada
mais é do que o orgulho ferido. Na medida em que tomamos conhecimento
desses aspectos, podemos fazer um entendimento mais realista de nossa condição
interna. Podemos dizer que o espiritismo nos instrumentaliza a lidar com a razão
do coração.
Esses exemplos reforçam a idéia que o sentimento, longe de ser
um movimento de passividade e amolecimento, é um processo profundo de
entendimento. Uma compreensão de si, do outro e da vida.
Para fins ilustrativos, elegemos três classes da vida afetiva para serem
comparadas entre si: a emoção, a paixão e o sentimento.
Importa diferenciar melhor também essas três classes da vida afetiva.
Cada uma tem seu movimento, sua manifestação e sua modalidade
de ser. A emoção é passageira, isolada e é movida
pela modalização do poder. Eros é um estado mais durável,
cuja manifestação é episódica ou contínua
e está baseado no querer. O amor é durável ou permanente,
sua manifestação é contínua, mesmo que às
vezes sutil, e é movida pelo saber. Sendo o sentimento no seu aspecto
modal um saber, o saber abrange o querer e o poder. Com isso, as emoções
e paixões podem ser substitutas do amor, levando ao desejo egoístico
do querer apaixonado ou ao poder irracional da emoção que afloram,
demonstrando a incapacidade daquele indivíduo em amar. Jung dizia que
o poder aparece sempre quando somos incapazes de amarmos. Este sempre aparece
quando alguém abdica ou é incapaz de se relacionar pelo amor.
O amor faz sentir sua presença sem se impor, tem uma força que
se apresenta naturalmente com uma capacidade infinita de cativar e transformar.
Vimos até aqui que o sentimento estabelece relações entre
o sujeito e o objeto e entre o objeto e o sujeito. Essas relações
aparecem de duas formas: na forma de uma carga emocional, provocada pela relação
do indivíduo com sua experiência íntima diante de determinado
objeto e na forma de valores, pela relação do indivíduo
com conteúdos pré-estabelecidos que expressem um julgamento em
relação ao mundo. É um processo que dá e recebe
cargas de sentimento com e através de um entendimento estabelecido. Também
podemos concluir até aqui que em torno das relações humanas,
estamos lidando com três forças poderosas: Eros, a emoção
e o amor.
A função sentimento tem estado reprimida e desconsiderada pela
nossa sociedade, provocando reações bem-preocupantes, como a delinquência,
a solidão, o erotismo exagerado, etc. O sentimento foi inferiorizado
a tal ponto que só pode entrar pela porta dos fundos. Quando isso ocorre,
tudo parece incerto, pois os sentimentos foram abalados. Temos medo do nosso
próximo, medo de sermos atacados, sentimos um anseio vago que buscamos
sem saber onde e, com isso, nos tornamos egoístas e superficiais, lutando,
odiando, caluniando e gerando muito sofrimento. Nas relações de
trabalho enfrentamos muitas dessas condições.
Atualmente, vemos o quanto nos afastamos do sentimento e de suas formas, e tentamos
buscá-lo desesperadamente em movimentos desarticulados. Isto nos levou
a buscar situações artificiais para o contato com os sentimentos.
Organizamos, por exemplo, grupos pretensamente terapêuticos, nos quais
se estabelecem vivências que forçam estados alterados de afetos
e emoções. E uma espécie de "institucionalização"
de um espaço e de tempo em que é permitido "sair do sério",
que estranhos toquem nosso corpo, que libertemos raivas e desejos. Usamos de
subterfúgios ou de drogas, buscando estímulos cada vez maiores
para "sentir intensamente"... Tudo não deixa de ser uma tentativa
desajeitada da alma humana, em seu recôndito esconderijo, num esforço
para ser reconhecida e recuperar sua sensibilidade.
ANIMA
E ANIMUS
Até
o momento, procuramos reflerir o que é o sentimento, seus processos,
a sua função e implicações nas relações.
Antes de prosseguir¬mos, importa reconhecer quanto a identidade do sujeito
é um produto das relações com os outros. Neste sentido,
somos povoados de outras personagens internas em nossa história. Assim
como, também povoado de pessoas que nos acompanham na nossa solidão,
em momentos de dúvidas e conflitos, dor e prazer. Desta maneira, estamos
sempre acom¬panhados por pessoas que vivem conosco permanentemente. Essa
afir¬mação é ainda mais real quando levamos em consideração
a realidade espiritual com nossos acompanhantes em Espírito.
Com isso, queremos dizer que além das pessoas que nos acompa¬nham
externamente, temos um universo interno de pessoas que partici¬pam de nossa
vida. Nossa personalidade é formada por diversas outras pessoas no nosso
mundo interno e que muitas vezes permanecem in¬conscientes. Não nos
damos conta que estamos repetindo e reproduzin¬do estilos e papéis
que tem a ver com vínculos arcaicos em que outros personagens jogam por
nós. Podemos relacionar esses "personagens in¬ternos" com
o conceito de complexo na psicologia analítica.
Os complexos são elementos dinâmicos do sistema psíquico
que têm funções próprias dentro desse sistema e se
formam a partir de um conjunto autónomo de impulsos, agrupados em torno
de ideias e emo¬ções, carregadas de energia. Todo complexo
tem um núcleo que é o arquétipo. Assim, para cada complexo
podemos reconhecer um arqué¬tipo em seu centro. O ego, a sombra,
o complexo materno/paterno, entre outros, são exemplos de complexos que
se formam como condição de nossa realidade psíquica.
Entre os complexos existentes, não podemos deixar de nos referir às
estruturas relacionais que representam aspectos da alma do indivíduo
- anima e animus. Como foi colocado, eles são complexos relacionais porque
possuem em sua função essa qualidade e papel na psique. A ani¬ma
(aspecto feminino no homem) e o animus (aspecto masculino na mulher) representam
o outro (elemento contrassexual) dentro de nós. Segundo Jung, na medida
em que integramos parcialmente este oposto dentro de nós, tornando-o
consciente, aumentamos a nossa capacidade pessoal de lidar com a complexidade
das outras pessoas.
Como arquétipos, eles representam forças essenciais da alma que
organizam e apreendem a realidade. São os princípios universais
ào yin eyang, em suas qualidades femininas e masculinas. Enquanto comple¬xos,
são personificações pessoais relativas ao contexto histórico
e reen-carnatório em que vivemos. Ou seja, imagens e funções
que refletem conteúdos e experiências internalizadas do masculino
e feminino.
Sabemos que o Espírito não tem sexo no sentindo estreito que entendemos
e que em sua natureza ele é tanto feminino quanto mas¬culino, precisando
experimentar essas duas realidades em seu processo evolutivo. Quando em nossa
posição egoica assumimos uma polaridade masculina, nossa dimensão
feminina estará mais inconsciente forman¬do uma personalidade parcial
dentro da psique e, assim também, quando nosso ego c mais feminino, nosso
universo masculino não se perde e se apresenta como uma imagem no nosso
inconsciente.
Desse modo, diferentemente da condição de macho e fêmea
que nos marca sexualmente, nossa identidade de género é extremamente
complexa e de uma composição quase infinita de nuanças
entre a di¬mensão masculina e feminina. O Espírito pode ter
um corpo masculi¬no, mas com acentuada marca feminina e vice-versa sem que
isto deter¬mine invariavelmente sua preferência sexual.
Angelis refere que Jesus conseguiu harmonizar essas duas nature¬zas e "ninguém
como Ele, conseguiu essa perfeita identificação doyange do yin,
provando ser o Espírito mais elevado que Deus ofereceu ao homem para
servi-lhe de modelo e guia".11
Como o Self representa a totalidade do ser, reconhecemos que a anima e o animus
são forças de conexão do Self numa relação
de com¬plementação e compensação. Ou seja, reconhecemos
neles aspectos im¬portantes para que a psique possa se relacionar plenamente
com si e com o mundo. Portanto, a importância desses dois complexos ou
arquétipos é que eles possuem para a psique essa função
relacional. Para Jung, a ani¬ma e o animus, enquanto arquétipos,
possibilitam a entrada ao incons¬ciente coletivo e a experiência com
o Self, são psicopompos, ou seja, guias da alma para a viagem interior
ao que é mais essencial e fundamental em nós. E também,
como complexos, guardam as imagens masculinas e femininas que vão influenciar
nas escolhas de nossos parceiros e nas relações humanas.
Todos estes integrantes do nosso mundo interno estão presentes na hora
de qualquer ação, na realização de uma tarefa. Por
isso, nosso ser individual nada mais é que um reflexo, no qual a imagem
do espelho refletida é a de um "eu" que aparenta unicidade,
mas que é composto por inumeráveis marcas de falas, presenças
de modelos, etc.
Dessa forma, o relacionamento é uma necessidade inerente a todo indivíduo.
É na relação com o outro que aprendemos a interagir social¬mente
e que contatamos com as nossas dificuldades e limitações, bem
como potencialidades a serem desenvolvidas. Onde nosso eu e nossos complexos
da anima e do animus estarão ativados, nos colocando em coníronto
com nossas imagens internas, necessidades e sentimentos que devem ser trabalhados.
Pessoas convivem e trabalham com pessoas, e reagem a estas nesse contato: comunicam-se,
simpatizam e sentem atrações, antipatizam e sentem aversões,
aproximam-se, afastam-se, entram em conflito, com¬petem, colaboram, desenvolvem
afeto.
Assim, um olhar, um sorriso, um gesto, uma postura corporal, representam formas
de relação entre as pessoas. Mesmo quando alguém vira as
costas, fica em silêncio ou se mostra frágil, fraco, isso também
é interação e têm um significado, pois comunica algo
aos outros. Não há processos unilaterais na interação
humana, tudo o que acontece no relacionamento interpessoal decorre de duas fontes:
eu e o outro.
Essas reações voluntárias ou involuntárias constituem
o processo de relação humana, em que cada pessoa na presença
de outra pessoa não fica indiferente a essa situação de
presença estimuladora. O processo de relação humana é
complexo e ocorre permanentemente entre nós, sob forma de comportamentos
manifestos e não manifestos, verbais e não verbais, pensamentos
e sentimentos.
Isso nos remete a importância do reconhecimento dos aspectos sombrios
da nossa personalidade, das questões internas de nossa anima e animus
que refletem nossa condição ainda imperfeita e que são
inva¬riavelmente projetadas nas relações com o outro. Para
Jung, a modéstia é uma necessidade para chegarmos a nossa imperfeição,
"e é exatamente esse reconhecimento consciente e essa consideração
que são necessários onde quer que se estabeleça um relacionamento
humano. Um relacionamento humano não se baseia na diferenciação
e na perfeição, pois estas apenas enfatizam as diferenças
ou trazem a tona o oposto exato; ele se baseia, isso sim, na imperfeição,
naquilo que é fraco, indefeso e carente de apoio — a própria
origem e razão da dependência. A perfeição não
precisa dos outros, mas a fraqueza sim, pois ela procura apoio e não
enfrenta o parceiro com qualquer coisa que possa forçá-lo a uma
posição inferior e até mesmo hu¬milhá-lo. Essa
humilhação pode ocorrer muito facilmente quando o alto idealismo
representa um papel demasiado proeminente. Talvez isso pareça ser muito
simples, mas as coisas simples sempre são as mais difíceis. Na
vida real, exigem a grande arte de ser simples; portanto, a aceitação
de si mesmo ê a essência do problema moral e a prova dos nove e
de toda a perspectiva de vida da pessoa". 12
Agora podemos entender de que forma animalanimus atuam em nossas vidas práticas.
Anima é a figura feminina no inconsciente do ho¬mem. Manifesta-se
através dos humores: irritação, depressão, incerteza,
insegurança, suscetibilidade, observação rancorosa e venenosa,
frieza e indiferença, quando negativa. Também realiza um jogo
intelectual de enigmas, formando um diálogo neurótico que impede
o contato com a vida. Pensa tanto a respeito da vida que não consegue
vivê-la, perdendo toda a espontaneidade e faculdade de comunicação.
Ela é a guia, mediadora entre o mundo interior e o Self. Responsá¬vel
pela forma adequada de lidar com a natureza: por exemplo, escolha da companheira
certa. E a anima que ajuda a discernir os fatos escon¬didos no inconsciente
e sintonizar a mente com os valores interiores positivos. Possibilita a fé
na vida.
Segundo a visão clássica, possui quatro estágios:
1) Eva - relacionamento puramente instintivo e biológico;
2) Helena (Fausto) - nível romântico e estético;
3) Virgem Maria - o Eros elevado à grandeza da devoção
espiritual;
4) Sofia - a sapiência, a sabedoria que transcende até mesmo o
sentido e a pureza.
Para integrar e desenvolver a anima, é necessário que o homem
leve a sério seus sentimentos, humores, expectativas e fantasias, fixando--as
de alguma forma: na literatura, arte, etc. Depois, examiná-la tanto ética
como intelectualmente, considerando sempre essas manifestações
como reais. Quanto mais distante o homem estiver de seu mundo in¬terior,
mais difícil é sua relação com os sentimentos e
mais literal será a sua relação com o mundo. A literalidade
e a relação concreta com o mundo representam uma perda do contato
com sua anima. Por exem¬plo, por não conseguir contatar com meu mundo
interior e discernir meus sentimentos, projeto-os num cargo, num carro esportivo
e fico excessivamente ligado ao culto do corpo.
Como bem define Hillman, "desenvolvimento do corpo não signi¬fica
cultura muscular, ou tratá-lo e curti-lo com se fosse um objeto, aper¬feiçoá-lo
em técnicas de judo, caratê, ou em habilidades sexuais. Devemos
salientar uma diferença sempre esquecida - existente entre corpo e carne.
A carne é ao mesmo tempo o opositor e companheiro secreto do ego. Atitudes
mentais quanto à carne produzem sexo mental, egoísmo sexual, pornogra¬fia,
e a imagem de nós mesmos passa a ser a do músculo bem treinado
e enriquecido com vitaminas"}0
Quanto mais a mulher interior for representada nos sonhos ou nas fantasias por
imagens do coletivo como modelos da moda ou cine¬ma, maior será a
evidência de que a alma desse homem é coletivamente comum e igual
à de todo mundo. No dizer de Hillman, "quanto mais engraçadinha
a anima, menos bonita a alma. Pelo fato de expressarem minha capacidade de responder
e de interiorizar, elas também mostram formas de desdobramento de minha
vida religiosa. Se a minha alma for jovem demais, ou então muito fria
ou materialista, ou ainda muito crítica, ê certo que haverá
distorções correspondentes em minha vida religiosa"}*
O animus é a figura masculina no inconsciente da mulher. Não se
manifesta sob a forma de fantasias ou inclinações eróticas
como a anima, mas como uma convicção sagrada.
O animus nunca aceita exceçóes: Ou ele me ama ou não me
ama... Não quer dizer que sua opinião seja equivocada. No entanto,
raramente se enquadra numa determinada situação individual. É
uma opinião que parece razoável, mas está fora de propósito.
O que acontece é que muitas vezes a mulher já parte de um pressuposto
interno dado pelo animus; assim, mesmo que a sua lógica esteja certa,
como parte de um princípio equivocado, a conclusão acaba sendo
equivocada também. É muito comum, então, a mulher ter um
tipo de preconceito inconsciente contra ela ou contra os outros. Fantasias como
"não vai dar certo", "essa roupa não fica bem em
mim", "ele não me ama", são jogos internos feito
pelo animus negativo.
Aparece através de pensamentos oníricos, dos desejos e julgamentos
que definem as situações como elas deveriam ser, afastando a mu¬lher
da vida. Pode aparecer como o demónio da morte (ideias e desejos de morte),
assaltante, assassino personificado, reflexões semiconscientes frias
e destruidoras que invadem a mulher durante as horas da madrugada, especialmente
quando ela deixou de realizar uma obrigação ditada pelos sentimentos.
Tece uma espécie de rede de pensamentos como brutalidade, indiferença,
conversas vazias, idéias silenciosas, obstinadas e más.
Positivamente, enquanto função, é ele que lança
uma ponte para o Self através da atividade criadora. Para integrá-lo
e desenvolvê-lo é necessário que a mulher enfrente a realidade
em lugar de deixar-se possuir por ela. O animus possibilita iniciativa, coragem,
honestidade, objetividade e sabedoria espiritual.
Possui quatro estágios:
1) Atleta musculoso (ex. Tarzan) - personifica a agressividade (ação)
como força física;
2) Herói de guerra / homem romântico / poeta - personifica a iniciativa
e a capacidade de planejamento e ação;
3) Professor / orador - torna-se o verbo, o condutor do verbo;
4) O sábio (ex. Gandhi) - encarnação do Logos, aquele que
leva a verdade espiritual.
No estágio elevado, o animus relaciona a mente feminina com a evolução
espiritual de sua época. Mediador de uma experiência religiosa
através da qual a vida adquire um novo sentido. Possibilita firmeza espiritual
invisível, amparo interior. Torna a mulher mais receptiva as novas idéias
criadoras do que o homem.
Para que possamos compreender o que se passa com nossa anima ou animus importa
entender as relações não como um fato objetivo, mas como
uma imagem subjetiva do meu mundo interior.
O
SENTIMENTO INFERIOR
Nas
nossas formas de reagir e nas atitudes, podemos reconhecer certos traços
repetitivos que expressam fantasias internas e que se aproveitam da realidade
para tomarem forma. Por exemplo, posso, sem me dar conta, toda vez que estabelecer
algum tipo de relação, seja com amigo, colega ou familiar, ter
a tendência de, frequentemente, sentir uma pressão forte ou sutil
para pegar o comando da situação e manejar o poder sobre o outro.
O poder, neste caso, significa a necessidade ou o desejo de ter o controle,
por alguma necessidade não reconhecida estará presente em todos
os relacionamentos Humanos. Isso pode vir de várias maneiras: dar ao
outro conselho não solicitado sobre como melhorar uma atitude; insistindo
numa observância rígida em relação a um comportamento;
fazendo interpretações agressivas para estabelecer o predomínio;
banalizando os efeitos e sentimentos que outras pessoas geram nele.
Tudo isso pode estar indicando uma resposta a um jeito inferior de se relacionar
por necessidade de se sentir valorizado ou importante. Por isso, o processo
de relação exige que deixemos de julgar o outro e busquemos olhar
para nosso mundo interior, procurando reconhecer em nossas intenções
e reações efeitos emocionais de questões mal resolvidas.
Isso indica duas coisas: uma que somos inconscientes de nossos estados internos,
manifestando um desencontro com nossos sentimentos; e outra, que, além
disso, lidamos com eles de forma inferior.
Para entendermos essas questões é importante sublinhar que ter
sentimentos e usar a função sentimento são coisas diferentes.
Eu posso ter sentimentos positivos e negativos como conteúdo e saber
lidar com eles muito bem ou lidar de uma forma inferior. Assim, podemos ter
sentimentos negativos na forma de conteúdos infantis e regressivos, viciosos,
destrutivos, etc., e ter a maturidade de não explodir ou deslocar esses
sentimentos para os outros. Ou podemos ter um sentimento positivo e não
saber comunicar e agir de maneira inadequada apesar do sentimento positivo.
Independente dos conteúdos envolvidos, a função sentimento
só é inferior quando distorcida, imprópria ou inadequada.
Dessa forma, mais do que reconhecer o que se passa dentro de nós, é
importante encontrar recursos para lidar com o que encontramos. Muitas vezes
não são os sentimentos que levam a estragar a nossa relação
com a vida ou ferir nossos entes queridos, mas sim o nosso jeito inferior de
funcionar. E natural, em algum momento, estarmos feridos em nossos sentimentos,
com alguma sensação negativa, mas isso não implica se deixar
tomar por eles.
Também podemos considerar como exemplo certas atitudes tomadas pela espiritualidade
quando desconsidera ou evita certas expressões sentimentais positivas,
como júbilo e afeto, em certas práticas mediúnicas ou em
momentos espiritualmente impoi lautes, por não favorecerem o objetivo
almejado ou estarem sendo iratados de maneira inferior, ou por serem expressos
de um jeito inadequado e no momento errado. Mesmo os sentimentos mais valorizados,
como o amor altruísta e religioso, podem ser carregados de intensidade
ilusória e serem "usados" pela função inferior
servindo a outros interesses ou em excesso destrutivo, como é o caso
de certas culturas e seitas fundamentalistas que doam a vida e matam cruelmente
em nome de Deus. Uma coisa é o sacrifício pessoal em doação
amorosa e outra é o barbarismo revestido de um discurso religioso.
Quando somos envolvidos e tomados por sentimentos, os transformamos em cargas
afetivas. Essas cargas afetivas tendem a ser reprimidas, agregando distúrbios
corporais ou comportamentais, e nos tornamos estranhos, pesarosos, exigentes,
entre outras coisas. A carga de energia que gastamos se torna gigantesca. Ficamos
"presos" em complexos que geram fantasias perniciosas, por exemplo,
a tentativa de ficar antecipando coisas de forma negativa. Ou acabamos deslocando-os
e escoando-os para os ambientes seguros a que estamos vinculados, principalmente
na família, que termina pagando um preço caro por isso e também
pode ficar "envenenada" por eles. O trabalho e o casamento são
um prato cheio para isto: as relações são recheadas de
projeção e exigências que desgastam o relacionamento em
discussões intermináveis e imposições de necessidades.
Outro indício de nosso sentimento inferior é a perda de contato
da pessoa com aquilo que sente. Quando a função sentir é,
por algum motivo, deixada de lado ou ficou desestimulada, torna-se clandestina,
descendo para esferas mais inconscientes.
Com isso, toda a orientação do sentir, do gostar, do querer, dá
lugar a uma amargura, uma secura, que se faz sentir de forma deslocada. Perdemos
a consciência avaliativa dos sentimentos que serão avaliadas de
forma inferior, causando "todo tipo de sentimento deslocado, lágrimas
na hora errada, brincadeiras esquisitas, apegos e entusiasmos peculiares, emissão
de julgamentos de valor quando estes não são relevantes e oscilações
generalizadas de humor que variam da exaltação geral à
depressão geral". 15
Quando nos movemos pela incapacidade de avaliar através do Sentimento,
acabamos exagerando situações sem muito significado e desvalorizamos
assuntos importantes. Isto pode ocorrer aos outros ou a si mesmo, sentir o próprio
valor não é tarefa fácil. Conforme Hillman, "perdemos
contato com a nossa importância, alternando entre a falta de valor depressiva
e as ilusões de grandeza. De um lado, exigimos demais e, de outro, vendemo-nos
barato".14
Temos muitas formas de mascarar e fugir do confronto com a nossa condição.
Preferimos deixar de lado os desafios dolorosos de nossa vida, perdendo a decência
através de artimanhas pueris e primitivas. Até o mundo espiritual
não escapa disto. Quantos se declaram espiritualistas, (e até
alguns falsos espíritas que não entenderam e corrompem a Doutrina)
mas se utilizam de informações, deturpando os conhecimentos espirituais,
para justificar certas fraquezas ou para fugir de responsabilidades! Encontramos
pessoas que chegam ao cúmulo de justificar suas relações
extraconjugais com a absurda noção de que, por terem supostamente
encontrado uma grande afeição do passado, uma "alma-gêmea",
torna-se impossível evitar a traição. Outra grosseira distorção
é quando deixamos de ser amorosos, afirmando que é o carma do
outro e que ele tem que sofrer. Ou quando evocamos fortes emoções
de caráter místico, e delegamos nossas responsabilidades para
os Espíritos, chantageando-os com histórias melodramáticas
para que eles sejam escravos dos nossos caprichos, isto quando não fazemos
o mesmo, num ainda maior distanciamento da razão, em relação
a entidades místicas, como duendes e gnomos. E muitas outras coisas...
Temos medo de crescer e queremos ficar dependentes.
Agimos com medo e inferioridade, que fazem com que não consigamos assumir
e ter claros os nossos sentimentos. Temos dificuldade de sustentar nossos valores
e princípios. Em vez de educar, punimos exageradamente; na dificuldade
de despedir um funcionário ineficiente, nos estressamos e acabamos magoando
mais ainda; não conseguimos lidar com a agressividade alheia, e nem com
a nossa. Falta objetividade e posicionamento no lidar com os sentimentos. Quando
estamos sob o efeito de um sentimento inferior, tendemos a exagerar e reagimos
no tudo ou nada.
A
BASE PARA A EDUCAÇÃO DO SENTIMENTO
Dado
que o sentimento tanto se manifesta como conteúdo e como função,
podemos falar em educar o sentimento ou desenvolver o sentimento. Educação
do sentimento parece ser a expressão mais completa, pois a educação
é um processo dinâmico, contínuo de transformação
que inclui a integração e o desenvolvimento dos sentimentos.
O sentimento só pode ser educado através do próprio sentimento.
É uma educação através da fé, pois necessita
que confiemos que funcione e que até possa errar. Os sentimentos negativos
exigem coragem, paciência e honestidade para convivermos com eles. Quando
começamos a relacioná-los de forma adequada e também nos
relacionarmos apropriadamente com eles nas situações apresentadas,
iniciamos o processo de elaborar um sentimento superior. O fato de trazermos
esses sentimentos para a consciência gera conhecimento e começamos
a modificar nossa personalidade, ocorrendo uma integração entre
o eu e o sentimento negativo. Isto leva ao desenvolvimento da função
sentimento, uma evolução que passa de uma estreita e rígida
forma de perceber e reagir para uma adaptação mais livre e adequada.
Reafirmamos, então, que a educação do sentimento exige
fé, humildade e coragem. Coragem psicológica, uma coragem da alma
para encontrar-se consigo mesma e enfrentar os seus fantasmas e monstros interiores,
para aceitar como seu tudo o que aparecer. Humildade para conseguir colocar-se
por baixo, ao encontro de nossa inferioridade e impotência.
A partir disso, encontramos nas relações humanas a melhor forma
de educar os sentimentos. Assim, os padrões e dinâmicas que envolvem
as formas tradicionais de se relacionar são fontes importantes para o
exercício do sentimento. São elas: modos e ajustamento, casamento
e relações pessoais, estilo e oportunidade, efeitos, paixão
e "tato". Esses são variantes que proporcionam dar expressão
e desenvolver a função sentimento. Vamos ver um pouco de cada
um deles, a partir do trabalho de Hillman.14
Os modos são fruto da codificação de padrões objetivos
de relacionamento. Muitos se opõem a eles por acreditarem ser apenas
uma apelo hipócrita aos "bons modos", que na verdade afastam
os sentimentos. Costumam então "jogar tudo para o alto" e viver
o que estão sentindo. Este tipo de afirmação demonstra
a não compreensão real do que significa ter modos. Os modos de
maneira alguma se opõem aos sentimentos, eles são na verdade formas
de expressão levando em conta os sentimentos de todos. Eles se opõem
aos afetos irracionais e não aos sentimentos. Os modos são parte
dos ajustamentos. Uma atitude de consideração e compromisso com
os outros. O ajustamento implica desenvolver valores do sentimento tais como
compartilhar, ajudar, engajar, tomar parte e aceitar. Pressupõem deixar
de se afastar e fugir do outro, abandonar certas reservas pessoais. Não
podemos esquecer que tudo o que fazemos tem uma cota de poder e um efeito sobre
o outro e somos responsáveis por isso.
Outra forma objetiva de nos relacionarmos é o estilo. As diversas situações
da vida são oportunidades de cada um mostrar o seu estilo de se relacionar.
O estilo não é o estilizado, aquela forma extravagante e árida
de se expressar. É uma feliz união entre o sentimento pessoal
e as necessidades externas. O estilo, então, é o resultado da
ética e da estética, que na verdade não deixam de ser na
essência a mesma coisa, pois nossas formas de expressão são
também um jeito ético de agir. Mas de uma ética em concordância
com essa relação entre os dois mundos, de tal maneira que aquilo
que mantém o nosso estilo é adequado tanto à verdade interior
do sentimento quanto ao mundo exterior. O estilo demonstra como cada um lida
com seus sentimentos e vive os seus valores. Ê a busca de nós mesmos,
da nossa marca, de um jeito que torna especial a nossa relação
com o mundo.
O "tato" representa a sensibilidade de perceber o tempo e a necessidade
dos sentimentos em cada coisa e lugar. Tudo tem um tempo adequado e o "tato"
é o sentido da oportunidade, de agir de forma apropriada. Além
da sensibilidade de usarmos o tempo ou conceber um tempo adequado, temos na
noção de tempo o efeito emocional. O tempo passa tão depressa
quando gostamos de alguém ou de alguma coisa, um momento especial e rico
de alma, e passa lento e enfadonho quando não nos afeta positivamente.
O tempo compartilhado com os outros flui naturalmente? O tato é também
um feeling que temos em relação como, uma presença que
sente e percebe sem precisar perguntar.
As relações são fundamentais para o exercício dos
sentimentos .ique o outro funciona como um espelho para nós. Para Joanna
de Ângelis,7 o calor humano nas relações constitui fator
vital para o crescimento psicológico, favorecendo o desenvolvimento da
área afetiva com da gama e profundidade de sentimentos que existem em
germe no imo de cada ser. O efeito que causamos nas pessoas e os efeitos que
elas os causam são aspectos sobre os quais devemos prestar atenção
para tomarmos consciência das nossas dificuldades e características
emocionais. Por exemplo, podemos num simples momento de conversação
ter um campo rico de elementos para nos avaliarmos: temos a tendência
de nos intimidar numa conversa com outro? Somos exagerados e queremos ha mais
atenção nas conversas? Falamos demais e não deixamos o
outro se expressar? Contamos vantagens e queremos impressionar? Deixamos as
pessoas sonolentas e dispersivas com nossas conversas? Os efeitos e maneiras
que nos comunicamos estão falando de como lidamos com os sentimentos.
Temos um campo vibracional e estamos passando e recebendo energias pelo teor
dos afetos. Que tipo de energia passamos para os outros?
Já que esses aspectos levantados ocorrem na sua maioria nas relações,
é nas relações que o sentimento ganha forma, e é
através das relações que temos a maior oportunidade de
educarmos o sentimento. Prestar atenção às relações
e dar a elas sua devida importância é um significativo passo nesse
processo. O reconhecimento do valor numa situação ou de alguém
cria uma atmosfera de importância que gera profundidade, entendimento
e uma intensa troca energética, que alimenta a todos. Para isso, não
precisamos lançar mão de artifícios como roupas, decoração
e jantares suntuosos, basta ouvir com atenção e interesse. Com
isso, vamos criando uma espécie de espelhamento para o outro, no qual
ele pode se reconhecer através de nós, sentindo-se amado e cheio
de vida. Também vamos ajudar para que eles possam extrair e intensificar
valores naturalmente, colocando limite ao que for impróprio. Algumas
pessoas possuem uma atitude interna tão bem integrada em termos de sentimento
que, independente do lugar onde estiverem, criam uma atmosfera que determina
o tom moral para o ambiente e os outros se ajustam naturalmente.
Uma das relações mais apropriadas para educar o sentimento é
o casamento. Isto porque, pela intimidade e por questões do passado,
ele oferece um terreno fértil para todo tipo de sentimentos negativos.
Casar implica um exercício diário para elaborar as diferenças
entre os cônjuges. Irritação, mau humor, mágoas,
manias, exigências, tédio e tantos outros confrontos que são
vividos na relação. Parece que o casamento e/ou a família
é o laboratório onde se modelam todos os sentimentos humanos.
Quando casamos, nossos votos de fidelidade e compromisso não são
apenas para o lado que amamos do nosso cônjuge; casamos também
com todos os outros lados que conhecíamos ou não, implicando que
nosso lado inferior e do outro também sejam levados para a casa. O que
é necessário mais uma vez é uma predisposição
para crescer e mudar, mesmo que isso leve tempo. E as coisas da alma costumam
ser demoradas. Quando há essa disponibilidade para crescer e aprender
juntos, esse universo matrimonial se torna uma experiência profunda e
transformadora, com muitas conquistas no campo do sentimento. Pena que nem todos
estejam dispostos ou preparados para isso, o que também deve ser respeitado.
Percebemos que trabalhar e educar o sentimento exige uma boa dose de paciência
e cuidado. Todo cuidado exige que olhemos para as pequenas coisas. Os relacionamentos
pessoais requerem sentimentos pessoais. Nas pequenas atitudes e situações
encontra-se o segredo da relação. Aprendemos com os sábios
que, apesar de chegarem às questões profundas e cósmicas,
nos trazem a beleza e o conhecimento pelas pequenas coisas. São os detalhes
pequenos que "matam" ou dão "vida" para uma relação.
Pequenas mágoas, constrangimentos, descasos aparentemente insignificantes,
pequenos erros e atitudes inadequadas, que geram ressentimentos e vão
sendo deixados de lado, tornando árida e apática a relação.
Assim como certas atenções, reconhecer virtudes, pequenos favores
dão substancialidade que vinculam um ao outro. Como nos diz Hillman:
"perder o pequeno é desperdiçar a função sentimento".16
No contato com o outro nos confirmamos enquanto gente. Cada crédito confiado
a alguém possibilita reafirmar quem somos, confiando e alimentando nossa
autoestima. Isso gera um sentimento de redenção, um estado interior
que nos acolhe, a nós e aos outros, que os nossos sentimentos e coração
são bons e que mesmo as nossas feridas emocionais mais profundas podem
ser expostas, experimentadas e curadas. Podemos chamar esse processo de amor.
Um estado que nos recupera a força de viver e nos redime frente ao mundo.
Como refere Angelis, o amor é Hálito Divino que equilibra o Universo,
essência fundamental para a vida, que vincula todas as formas vivas com
Deus.17 E, para a benfeitora, a terapia eficaz para a maioria dos distúrbios
comportamentais, favorecendo ao que ama uma existência edificante e felicitadora.7
Na questão dos relacionamentos, a educação dos sentimentos
deve considerar também certos padrões objetivos. Existem certas
"regras" ou rituais que são universalmente estabelecidos para
reger determinados tipos de relação, como entre o mais velho e
o mais novo, entre o mestre e o discípulo, entre o visitante e o anfitrião,
entre o chefe e o empregado. São padrões arquetípicos que
em muitas culturas apresentam uma riqueza de detalhes, que podem ter conotações
místicas e simbólicas. Esses padrões orientam e favorecem
a educação dos sentimentos, pois é muito difícil
se manter numa posição superior sem arrogância ou subserviência,
observar a ordem sem cair na castração familiar, pedir sem impor,
etc. É o desafio de estabelecer um equilíbrio dinâmico entre
o individual e o coletivo.
Gostaríamos também de comentar o poder transformador do sentimento
quando ele pode ser expresso. A inibição dessa expressão
danifica a função sentimento. Ou, ao contrário, vivemos
exteriormente os nossos sentimentos com tanta intensidade que não conseguimos
contatar com profundidade o seu sentido maior ou evitamos a solidão e
as complicações que existem dentro de nós, fugindo em vez
de trabalhá-las. Expressar o sentimento não quer dizer explosão
de afeto, pois explodir é muito diferente de expressar.
A expressão requer um compromisso com aquilo que está sendo expresso,
já que podemos explodir e esquecer tudo sem responsabilidade. Esse comprometimento,
esse envolvimento desenvolve a função sentimento, favorecendo
um aprofundamento e uma intimidade que nos capacita a desmistificar certos medos
e inferioridades, o que possibilita potencializar o poder do coração.
Vemos o quanto estamos distantes de nossos sentimentos, o quanto confundimos
descontração com imaturidade e sentimento com superficialidade,
como é difícil cantar, fazer um gesto magnânimo ou uma atitude
cortês. Precisamos desenferrujar nosso coração e nos comprometer
com os sentimentos sem sermos narcisistas.
O trabalho com nossos sentimentos evita a fuga ou que nos tornemos dissociados.
Quando deixamos de lado esses exercícios, os sentimentos inferiores descem
a níveis mais instintivos e/ou desaparecem nas profundezas do inconsciente.
Isso nos torna confusos em relação aos sentimentos. Não
sabemos como nos sentimos e trazemos substitutos ou condicionamentos para expressar
os sentimentos, de uma forma que nos colocamos fora daquilo que está
sendo vivido. Acabamos expressando com distância e num outro tempo os
nossos sentimentos: "quando eu era pequeno...", "se eu tivesse
tal coisa, seria feliz", "costumava me sentir de tal modo". Caso
perguntemos se gostamos disso ou daquilo, respondemos com conceitos ou trazemos
qualidades do objeto e não nossos sentimentos. Quando um dos cônjuges
pergunta para a esposa ou para o marido se ela(e) gosta dele(a), não
é tanto para reafirmar ou dirimir dúvidas, mas uma forma de fazer
com que a pessoa contate com o sentimento que está lá dentro,
escondido. A resposta força a contatar consigo e estar presente ali naquele
momento.
Por último, devemos analisar certas considerações que julgam
as pessoas com a função sentimento bem-trabalhada como supostamente
frias. São pessoas que parecem não se envolver muito com o outro
ou não demonstrar suas emoções. Na realidade, essas pessoas
conseguiram estabelecer uma harmonia e um equilíbrio em torno da função
sentimento. Assim, essa suposta "frieza" é fruto de uma capacidade
de lidar com as tensões emocionais, do domínio dos elementos envolvidos
entre a situação exterior e os valores internos, que para a maioria
de nós provocaria suores frios a ponto de descompensar. Elas têm
uma atitude positiva e objetiva perante a vida, sem serem melodramáticas.
Aí está a diferença entre o conteúdo dos sentimentos
(que elas possuem de uma forma intensa) e a função sentimento,
que é a forma que elas lidam com os mesmos (com equilíbrio, objetividade
e harmonia). Lembramos a imagem de Jesus serena e tranquila e que no coração
expandia um amor que jamais outro alguém pode nos dar.
Não é fácil concluir diante deste universo complexo do
sentimento. Podemos então dizer algo sobre nossa postura em face do sentimento,
e, neste sentido, o melhor que temos a fazer é viver. Enfrentar o que
sentimos e termos a coragem de suportar esses aspectos de nós mesmos
que parecem imutáveis. Ser paciente é uma condição
básica para educarmos o sentimento. Por quanto tempo temos que renunciar
ou manter certos sentimentos é parte desse processo. E é assim
que, pela continuidade do exercício da função sentimento,
podemos encontrar uma nova forma de relação, um novo valor que
permite perdoar e superar ressentimentos, assim como abrir novas perspectivas
de crescimento.
A função sentimento é a razão da energia da vida,
e aquela busca ser e deixar que o outro seja. Ela nos ensina que precisamos
interagir e interação é o próprio processo de viver
o sentimento, pois o sentimento pressupõe conexão. Ele afirma
que nada pode ser adquirido em isolamento cultural. Ampliando isso para a dimensão
de uma cultura universal, do homem anímico/mediúnico, notamos
que os limites da matéria são quebrados num movimento em que o
sentimento redefine o nosso ser.
Vivemos numa rede, uma teia cósmica que se forma pelo misterioso fluxo
do amor. A capacidade de conexão, nossa conectividade possibilita a chave
para entender uma nova realidade. E essa abertura para o sentimento que possibilita
uma transformação de consciência - a consciência interativa
do homem cósmico e mediúnico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Triunfo Pessoal.
Salvador: LEAL, 2002, cap. 2- O Ser Pensante; p. 35.
2 KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2006, cap.
17, item 7.
" HILLMAN, J. Anima: anatomia de uma noção personificada.
Sáo Paulo: Cultrix, 1990.
4ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Amor, Imbatível
Amor. Salva¬dor: LEAL, 2000, cap. 1.
5 KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2003, questão
939. 6JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991
(Obras Completas, Vol. 6), cap. 11 - Definições, § 896-901.
7ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). O Despertar do
Espírito. Sal¬vador: LEAL, 2000.
8 KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, cap. 11
-item 8.
'ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Amor, Imbatível
Amor. Salva¬dor: LEAL, 2000, cap. 1.
10 HILLMAN, J. & FRANZ, M.-L. V. A Tipologia de Jung. Sáo Paulo:
Cultrix, 1995.
11 ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Vida: desafios
e soluções. Sal-
vador: LEAL, 1992, cap. 7.
12 JUNG, C. G. apud WHITMONT, E. A Busca do Símbolo. São Paulo:
Cultrix,
1990, pp. 151-152.
13 HILLMAN, J. Uma busca interior em psicologia e religião. São
Paulo: Paulus,
1984, p. 129.
14Ibidem, p. 105 e 109.
15 HILLMAN, J. & FRANZ, M.-L. V. Op. cit, pp. 154-156.
16 Ibidem, p.203.
17ANGELIS, J. (Espírito); FRANCO, D. P. (Médium). Jesus e o Evangelho
à Luz da Psicologia Profunda. Salvador: LEAL, 2000.
JOANNA DE ÂNGELIS