Eternidade

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domingo, 24 de junho de 2018

O sentido condicional dos ensinos de Jesus

O sentido condicional 

dos ensinos de

Jesus

Deolindo Amorim¹

"A cada um será dado de acordo com as suas obras".
Jesus (Mateus, 16:27)  

Nas relações humanas como nas relações espirituais, não há efeito sem causa, portanto, é claro que cada um responde, cedo ou tarde, pelo mal que houver feito. 

Se assim é, para o espírita não há outro caminho senão o bem, a honestidade, a retidão de consciência, porque o espírita é o primeiro a saber que, pelo processo das vidas sucessivas ou reencarnação, todas as suas mazelas, assim como as suas boas obras, participam de seu acervo espiritual, não foram sepultadas no túmulo.

O "antes" e o "depois" também se aplicam ao Evangelho, pois as suas mais belas sentenças, justamente aquelas que mais tocam nas fibras do coração humano, são formuladas em dois termos: antecedente e consequente. Há sempre, um sentido de subordinação ou de dependência: isto depende daquilo; para obter aquilo é necessário que se faça isto, e assim por diante. Nada, portanto, é arbitrário na palavra de Jesus, pois os Seus mandamentos não se sobrepõem às leis nem às contingências inerentes à vida. Eis, aqui, por exemplo, uma passagem das mais ilustrativas:² buscai primeiro o Reino de Deus, e Sua justiça e todas as coisas vos serão acrescentadas. 

Dessa passagem evangélica decorrem duas ações sucessivas: a primeira é a ação de buscar o Reino de Deus, o que significa esforço, trabalho; a segunda é a ação de receber as coisas por acréscimo, como consequência das qualidades adquiridas pelo esforço próprio. A que coisas se referia o Cristo? Não se deve entender a designação indeterminada de coisas no sentido vulgar de objetos comezinhos, como não se deve tomar a expressão de Jesus na acepção banal de dar sorte na loteria etc. O ensino evangélico alude às coisas indispensáveis ao equilíbrio do homem, em suas relações com a Natureza e a Justiça Divina. Coisas, então, no sentido de aquisições essenciais à dignidade da vida.

Seja como for, é uma forma de condicionamento, como tantas outras, e sem azo para qualquer fuga: se o homem quer viver em paz com a sua consciência, se quer ser feliz, deve proceder com justiça, ser honesto, respeitar as leis da Natureza e praticar o bem. Sem essa condição inadiável, as "coisas" prometidas pelo Cristo não lhe serão acrescentadas. Uma situação depende da outra. Qual a conclusão prática de tudo isto? Simplesmente esta: ninguém conquista o Reino sem trabalho, sem reforma íntima, sem modificar os sentimentos ou sem destruir as paixões. Ensina-se, aí, aquilo mesmo que está nas linhas gerais da Codificação do Espiritismo: sem o trabalho não há progresso espiritual. Esta moral, que é a moral da ação e do mérito, é muito mais racional, mais compreensível do que a moral das graças caídas do céu e dos privilégios divinos. Se o indivíduo tem a consciência impura, se os seus sentimentos são maus, não pode implantar o "reino divino" dentro de si, por mais que faça penitências ou ainda que se ponha de joelhos na praça pública. O passo inicial é a transformação interior, tudo o mais são artifícios. É assim, e somente assim, que compreendemos o espírito do Evangelho, interpretado à luz da filosofia espírita. Podemos, agora, deduzir que a concordância da Doutrina Espírita com a moral do Evangelho impõe a cada um de nós, pelo conhecimento já acumulado, um estilo de vida que, sem esquisitice, sem extravagâncias nem farisaísmo, aproxime-se cada vez mais do tipo normal do homem de bem. E qual é a representação ideal do homem de bem, segundo os padrões morais do Espiritismo? Diz a Doutrina Espírita: ³

"O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor, de caridade na sua maior pureza. Se interroga a sua consciência em relação aos próprios atos, a si mesmo pergunta se não violou a lei; se não ocasionou prejuízos; se fez todo o bem que lhe era possível; se desprezou voluntariamente de ser útil; se alguém lhe tem queixas; se fez aos outros como quereria que lhe fizessem."

Nisto consiste toda a síntese normativa do Espiritismo. É o pensamento fundamental de Allan Kardec, resumido nestas palavras inconfundíveis: "Conhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral."4


_________
¹ Amorim, Deolindo. O Espiritismo e as doutrinas espiritualistas. Rio de Janeiro: CELD, 1989, cap. II, pp.61-63.
² Mateus, 6:33.
³ Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 125. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006, cap. XVII, item 3.
Ibidem, item 4.  

 Fonte: Revista Presença Espírita nº 317, novembro/dezembro 2016. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sacrifício Implícito


 
Jesus é o modelo incólume do sacrifício, pelo qual renunciou às esferas celestes para demandar um tempo com a Humanidade, convivendo com suas angústias, suas alegrias e suas complexas situações emocionais. Por ser amor de cunho cósmico, consciência madura e sublime, conseguiu iluminar o entendimento de muitos daqueles que buscavam soluções intensas para as suas emoções, não as solucionando, mas oferecendo diretrizes incontestáveis de amor. 

Uma delas é a diretriz do sacrifício pessoal. Todas as questões de ordem evolutiva demandam trabalho e minuciosa disciplina para serem exitosamente resolvidas. Com o sacrifício pessoal é assim. Para a criatura encontrar dentro do coração as balizas seguras para se libertar dos interesses eminentemente egoístas e auxiliar a si mesma a se desprender dos apegos que traz é possível, somente, por meio de uma intensa e vigorosa análise e constante trabalho de doação à Causa maior, que é o amor na sua máxima expressão. 

Foi por isso que o Cristo, pelo meio mais desafiador, convidou aqueles que O buscavam a ir direto aos seus próprios interesses e renunciá-los. Jesus fez isso várias vezes: ao jovem rico pediu renúncia imediata dos interesses da posse. Ele, no entanto, não soube aproveitar. Para a enlouquecida de Magdala o Mestre solicitou também a renúncia aos apegos sensualistas e ela soube muito bem aproveitar. 

Qual foi a diferença entre uma e outro, senão o reconhecimento muito sensível das dores que o orgulho gera? Quando reconhecemos com delicada atenção as dores que trazemos pela força do orgulho contumaz, nos dispomos a renunciar pelo trabalho constante e sacrificial para que realmente haja em nós a paz e o equilíbrio. 

Esse reconhecimento não é tarefa simplória, porque há nele o desafio de percebermos também os prazeres distorcidos que sentimos na exaltação da personalidade. Essa exaltação faz com que os desejos infrenes que movimentam os pensamentos e os sentimentos sejam atendidos. Por sua vez, ter esses desejos atendidos traz uma ideia que distorce gravemente o nosso senso de realidade. Como então nos libertar do ciclo vicioso dos desejos egoístas atendidos constantemente pela força do nosso orgulho? É o reconhecimento da dor mais profunda que sentimos, aquela que se faz tão intensa e silenciosa, não, porém, imperceptível, que somente um coração que se entrega ao sacrifício pode perceber. 

Essa dor é a dor de não amar, a mais profunda de todas e a mais esquecida dos homens, posto que praticamente o egoísmo toma nas emoções o desejo único de ser amado, ou desejado, ou ter os seus interesses atendidos. 

Prestemos atenção na jornada dos mártires, dos sábios, dos iluminados, e veremos claramente que aqueles superaram essa dor, acolheram essa estranha forma de se movimentar, de desejar tudo para si e escolheram querer apenas amar-se e amar aos outros, resumindo nisso o seu sagrado ofício, o seu sacrifício implícito.

Jesus, no alto da compaixão, com os braços abertos no madeiro injusto e egoísta dos homens, demonstrou para todos nós o convite consciencial: “Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem”. Que coração é esse, que na hora de clamar para ser atendido nas Suas mais indescritíveis dores, clama pelas nossas dores, roga pela nossa ignorância, suplica pelas nossas animalidades? 

Meditemos sobre isso e encontraremos na dor a forma de suplantá-la e sublimá-la na alma dorida!

Nos encorajemos diante do cordeiro de Deus, que viveu sacrifícios para que a Humanidade conhecesse os potenciais que trazemos.

Nós trazemos em nós as marcas emocionais de nossas fugas e declinações, trazemos em nós os anseios de paz e de fraternidade, trazemos em nós as dicotomias da alma, os paradoxos do pensamento, e, por isso, rogamos que em meio a tudo que nos aconteça seja Jesus a nossa fortaleza, iluminando os nossos corações!

Apesar dos dias que se seguem, sacrificiais para o Espírito e o seu aprimoramento, suplicamos que não cessem as provações libertadoras, mas que nós sejamos dóceis e amorosos nas mais tempestuosas adversidades, para que o nosso Eu busque de fato a oportunidade de sermos na prática o que queremos e almejamos na mente, o que suplicamos na alma e nos sentimentos! 
 
Para onde foram os Teus companheiros, Mestre, nas horas de maior testemunho?

Por isso, pedimos que em nossas horas tenhamos o carinho e o amor aos companheiros que estão ao nosso lado, sejam estes os que permanecem, sejam eles os que conosco não estão. O que mais pedimos é que sejamos nós o constante coração, sem jamais medir esforços de auxiliar, perdoar, compreender e servir, hoje e sempre, em nome do Teu amor!
 

Honório
 

(Mensagem psicofônica pelo médium Afro Stefanini II, na reunião mediúnica da Federação Espírita do Estado de Mato Grosso, em 21 de novembro de 2016)

sábado, 17 de outubro de 2015

O Reino Transitório e o Permanente



As notícias voavam céleres de bocas a ouvidos ansiosos, informando os acontecimentos que tinham lugar por toda a Galiléia.

Os viajantes, que atravessavam o Jordão na direção do Oriente, levavam as informações do que estava se sucedendo naquela região.

Ainda não havia sido silenciada a voz do Batista, e o Seu encanto atraía outras multidões esfaimadas de amor e de esperança, que Ele nutria com ternura como dantes jamais se vira igual.

Era Profeta, porém se situava acima dos profetas do passado; ensinava o amor, no entanto vivia-o em clima de harmonia; referia-se a Deus com respeito, entretanto comungava com Ele em doce convívio.

Jesus era o Messias esperado, que começara na humilde Galiléia, onde os corações eram mais afetuosos e os afazeres mais cativos: a pesca, o pastoreio, a agricultura... sem espaços mentais para as celeumas intermináveis em torno da Lei, a respeito da governança ignóbil disputada pelo romano desdenhoso e pelo Sinédrio arbitrário, todos porém, esmagando o povo, de que se utilizavam para explorar e afligir...

Aquela região, fresca e romanesca, tinha o seu espelho líquido onde o Sol diariamente se banhava entre os perfumes que se evolavam dos rosais silvestres misturados com as madressilvas miúdas que enxameavam na relva verdejante.

Oliveiras antigas desenhavam arabescos variados nos troncos retorcidos, enquanto as ondas se arrebentavam incessantemente entre seixos e conchas espalhados sobre a areia de tonalidade creme.

À orla do lago Genesaré, também conhecido como mar da Galiléia, as aldeias, habitadas por gentes simples, se multiplicavam entre as cidades de maior porte como Magdala, Dalmanuta, Cafarnaum... À noite, quando as lâmpadas de barro vermelho acendiam suas luzes, o poema da Natureza se apresentava em tonalidades bruxulenates e festivas contrastando com as estrelas alvinitentes que fulgiam no zimbório escuro e cheio de mistérios...

Naquelas regiões, entre as vozes humanas e as onomatopéias, o Cantor entoava o Seu hino à vida em poemas de inefável amor que arrebatava, enquanto Suas mãos caridosas limpavam as rudes penas que explodiam em pústulas virulentas, que afligiam os infelizes que dele se acercavam. O Seu querer alterava os acontecimentos e os fenômenos da misericórdia de Deus se tornava realidade, produzindo júbilo e encantamento.

Os anciãos, por quase todos desdenhados, sentiam-se apoiados no cajado da Sua palavra vigorosa; as crianças, bulhentas e pouco compreendidas, silenciavam enquanto eram atraídas pela luz dos Seus olhos, e os Espíritos perversos fugiam da Sua presença.

Mesmo aqueles que se haviam tornado Seus adversários, movidos pela inveja doentia e pela perversidade em que se compraziam, ao enfrentarem-no receavam o Seu poder, ante o qual se sentiam amesquinhados.

E Ele falava a respeito do reino dos céus em uma dimensão a que não estavam acostumados aqueles que o buscavam.

Não obstante, as criaturas humanas, afligidas pelas próprias infinitas necessidades, pensavam exclusivamente nas questiúnculas do dia-a-dia, nos problemas da sobrevivência física e do conjunto social.

Faltava-lhes amplitude mental e largueza de visão para penetrar nas propostas libertadoras que a Boa Nova lhes trazia.

Ele, no entanto, não se incomodava, ensinando sem cessar.

Naquela oportunidade, a multidão se fizera superior a qualquer expectativa, de tal forma que, reunida em alguns milhares, estavam a ponto de se pisarem uns aos outros, quando Ele começou a ensinar, despertando para as realidades profundas do ser espiritual.

- Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Nada há encoberto que não venha a descobrir-se nem oculto que não venha a conhecer-se.

Havia na voz enérgica uma ressonância de advertência a respeito da conduta que se deveria manter. A hipocrisia é morbo da alma que contamina e deixa sequelas devastadoras por onde passa, e se tornara característica predominante no comportamento dos fariseus, que se perdiam em discussões estéreis a proveito próprio, sem nenhuma consideração por quem quer que seja.

Todos os comportamentos hediondos, mesmo aqueles que ficam desconhecidos e são mascarados pelos processos perversos do poder transitório dos homens, tornam-se conhecidos e malsinam aqueles mesmos que se lhes entregaram. A vida é uma canção de luz, sempre renovadora e rica de realidades.

Prosseguindo, acentuou com a mesma energia:

- Por isso, tudo quanto tiverdes falado nas trevas ouvir-se-á em plena luz, e o que tiverdes dito ao ouvido em lugares retirados, será proclamado sobre os telhados. Digo-vos: Meus amigos! Não temais aqueles que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. Vou mostrar-vos a quem deveis temer. Temei Àquele que, depois de matar, tem o poder de lançar na Geena. Sim, eu vo-lo digo, a esse é que deveis temer.

O relacionamento humano e social exige lealdade de uns indivíduos para com os outros, de respeito e comportamento de cada qual, buscando-se sempre a própria melhor conduta e a imensa tolerância para com as defecções do próximo, porquanto aquele que erra fica assinalado em si mesmo a sua aflição, não necessitando de maior carga de punição.

Por isso mesmo, a maledicência, a calúnia, a informação malsã não têm lugar na convivência saudável, naquela que é inspirada pelo Evangelho, porquanto tudo se torna conhecido e desvelado.

Nesse sentido, a divulgação da verdade, não pode ser prejudicada pelos temores injustificados em torno das ocorrências punitivas aplicadas pelos homens, que são transitórios e não vão além das fronteiras do corpo. No entanto, Aquele que é o Poder e que acompanha o ser após o decesso celular, este sim, merece respeito e consideração, porquanto é Quem julga as condutas, encaminhando os infratores para as regiões de sombras e sofrimentos.

No silêncio que se faz natural, Ele se proclamou Filho de Deus, exigindo fidelidade a quantos desejassem segui-lo, declarando a sua convicção na Mensagem e na entrega total ao novo padrão de vida.

Definiu rumos do futuro e as vicissitudes que aguardam os idealistas e semeadores da esperança nos solos castigados pela canícula das paixões selvagens e perversas.

Também os animou com a promessa de que sempre e em qualquer situação os Espíritos sublimes inspirariam aos Seus seguidores, jamais os deixando a sós e sempre oferecendo-lhes os recursos de sabedoria e paz.

Pairava no ar uma dúlcida consolação que pulsava nos sentimentos emocionados.

Não obstante,  alguém, rompendo do silêncio natural, gritou:

- Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança!

Não poderia ser mais inusitada e absurda a solicitação, destituída de conteúdo nobre, porquanto as propostas diziam a respeito a outro reino, distante do mundo fugaz, e a criatura se encontrava encurralada no interesse mesquinho e imediato do poder e do prazer.

Conhecedor da alma humana e do labirinto pelo qual transita, o Mestre respondeu sem perturbar-se:

- Homem, quem me constitui juiz ou repartidor entre vós? Olhai, guardai-vos de toda a cobiça, porque mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.

Silenciou por um pouco e narrou, comovido, uma incomparável parábola:

- Havia um homem rico, cujas terras lhe deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer dizendo consigo: Que hei de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Depois continuou: Já sei o que vou fazer, deitarei abaixo os meus celeiros e construirei uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois direi à minha alma: Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Deus, porém disse-lhe: - Insensato! Nesta mesma noite pedir-te-ei a alma: e o que acumulaste para quem será? - Assim acontecerá ao que entesoura para si e não é rico em relação a Deus.

Um sentido exclusivo tem a existência humana: a preparação para a sua imortalidade espiritual. Todos quantos transitam no carro físico, deixam-no e seguem com os valores amealhados emocionalmente, sejam quais forem.

A Vida estua além da dimensão do corpo carnal, exuberante e luminosa, aguardando todos que a enfrentarão.

amealhar para as necessidades humanas constitui um dever, porém repartir e multiplicar através da divisão em favor dos outros que padecem carência, é tornar-se rico de plenitude e de recursos que nunca se consomem, porque de sabor eterno.

Jesus não é juiz iníquo, nem severo julgador para impor aos outros o que devem fazer e a programação das leis já estabeleceu o que é indispensável a uma existência harmônica.

É o Embaixador de Deus, que veio despertar a consciência humana para a realidade imortal.

Ainda por muitos anos Ele será buscado para solucionar pendengas e paixões, atender a caprichos e resolver problemas, que são necessários para o crescimento individual do ser como na coletividade na qual se encontra. Não obstante, a Sua mensagem pairará soberanamente acima das dissidências e dos caprichos das criaturas e grupos, seitas e doutrinas, trabalhando pela fraternidade legítima e pela união de todas as pessoas que anelam pela felicidade total.

Mesmo desfigurados Seus ensinos, rejeitadas Suas lições, subestimados Seus conceitos pela presunção de alguns, Ele permanecerá como o grande divisor dos tempos, aguardando e inspirando.

(*) Lucas 12 - 1 a 21
Nota da Autora espiritual



Fonte: pelo Espírito Amélia Rodrigues e Divaldo Pereira Franco
livro: Até o Fim dos Tempos



 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Serenidade - Ave Luz


Um barco deslizava, ao cair da tarde, nas águas do Lago de Genesaré. Dentro dele, via-se, além do mestiço musculoso que se servia de duas pás à feição de remos, um homem de pequena estatura, envolto em profunda meditação, sem perceber a participação da natureza que tanto admirava, devido ao seu estado de emotividade espiritual naquele momento.

Tal estado o levava a difíceis reajustes nos conceitos que esposara com a vivência de muitos anos como imediato dos rabinos da Galiléia e muita convivência com os de Jerusalém. Várias vezes ministrara ensinamentos nas sinagogas, inspirado nos escritos de Moisés, o chefe espiritual dos judeus.


Tiago (Tiago menor) queria e deveria ser, mais tarde, um dos sacerdotes. No entanto, o destino lhe reservara outro apostolado mais propício, pois a vida nem sempre nos atende nas linhas das nossas aspirações, por não sabermos com exata medida o que mais nos convém.


Tiago se debatia nas suas conversações mais amplas com os profitentes da fé que esposara desde o berço. Pela sinceridade, pela confiança nos postulados que abraçara em nome do Pai Celestial, a fidelidade era o seu maior empenho dentro da comunidade espiritual. E enquanto os remos agitavam o barco em direção à praia, o filho de José estava, de um certo modo, agitado.

No seu coração, o raciocínio o levava ao tribunal da consciência, acusando-o de traição à religião que o vira nascer. Não obstante, os sentimentos avançavam no meio do tumulto, dizendo que Jesus era o Cristo que havia de vir e as deduções se debatiam no topo do seu volumoso crânio. Não fora Moisés, o maior profeta de todos os tempos, que anunciara também a vinda do Messias?

O homem de Deus tornava-se dois dentro daquela humilde embarcação, dividido pela angustiosa dúvida. De qualquer forma, ia em direção à reunião memorável daquela noite. Sua atração por Jesus era de confundir todos os raciocínios. Perdeu, naquele instante, toda a serenidade que acreditava ter. Pelo menos, escapou-lhe todo o domínio emocional que a sua posição exigia, tornando-o um homem comum como não pretendia ser.

Desce do barco quase sem perceber. Seus pés se afundam no tapete arenoso, deixando as marcas das sandálias simples que lhe serviam para as grandes caminhadas, sem esquecer o cajado que marcava a sua posição espiritual no reino do entendimento dos antigos pergaminhos.

Tiago apressa o passo pela disciplina que a auto-educação lhe conferiu, querendo ser o primeiro a chegar como participante da assembléia. Destarte, não percebeu, no lusco-fusco, um personagem esguio e sorridente, a contemplar o lago majestoso que refletia os primeiros clarões da lua. A mão de João toca seu ombro de leve, saudando-o com benevolência: A paz seja contigo, Tiago!

Assusta-se, porém, sem desequilíbrio e, reconhecendo o companheiro, responde: Que Deus te ilumine, meu irmão! Quais os ventos que te trouxeram aqui, João? Este, ainda sorrindo, adianta:

É a ânsia pela natureza, pois nela vejo e sinto o Criador com mais eficiência. Queria, antes de encontrarmos o Divino Mestre, preparar as minhas emoções para melhor interpretar a sua grandiosa fala, e escolhi esse ambiente que tanto me fascina. E, ainda mais, o Senhor me premiou com a tua figura. Sorriram juntos e, abraçados, sem palavras, agradecem a Deus.

Em poucos instantes, João e Tiago avistaram, adentrando o casarão, alguns discípulos e a figura majestosa do rabino incomparável da Galiléia. Em seguida, os dois companheiros de Jesus também se assentaram, pelo prazer de participar daquele convívio que ficaria inesquecível em seus corações.

Ambiente sereno, onde o respeito se transmutava em alegria e esperança. Tiago, no silêncio, pedia aos céus que lhe favorecessem a oportunidade de perguntar e que o diálogo lhe fosse favorável, sem que o acanhamento ou mesmo a ignorância abafasse o que lhe ia na alma. Sabia um pouco das leis, mas queria saber mais, tinha fome de um entendimento mais vasto acerca da vida e das forças que nos dirigem na existência.

O velho discípulo ostentava uma bagagem cultural apreciável. Conhecedor de várias línguas, dominava completamente o grego pois a filosofia e o espiritualismo em geral alcançaram, na Grécia, alta posição em relação ao resto do cenário do mundo.

Jesus, no toco de cedro, perpassa seus brilhantes olhos por toda a assembléia parando, de mansinho, nos inquietos olhos de Tiago, como dizendo: Fala, meu filho, fala! O que queres que eu ouça? E o antigo pregador das sinagogas descontrai seu coração, entendendo que chegara a vez de expor ao Mestre suas dúvidas acerca da brandura. Levanta-se com deferência, a locução um pouco trêmula:

Senhor, podes nos dizer alguma coisa sobre a Serenidade? As vezes ela se torna o clima do meu íntimo nas horas de afazeres espirituais e materiais. Todavia, em dado momento, é qual o peixe que seguramos nas mãos um tanto frouxas, escapulindo. Esse clima d’alma deve ser trabalhado somente por dentro ou o nosso orgulho não nos deixa receber as experiências dos outros? O que devo fazer para que a Serenidade faça parte de mim como meus olhos, meus pés, minhas mãos, minha cabeça, enfim, como todo o meu corpo?

A expectativa era geral! Jesus ouviu pacientemente a pergunta, deu um tempo para que todos se acalmassem e expôs, com interesse: Tiago, a Serenidade de que queres ser portador é tesouro dos anjos que receberam das mãos do tempo, pelos impulsos de milênios incontáveis, sob as bênçãos de Deus. Entretanto, esse tempo somente age quando abrimos nossos corações pela boa vontade onde esforço próprio nunca falta.

E os milênios são como o calor divino que somente amadurece e harmoniza o universo interior quando nos dispomos a respeitar e viver os princípios das leis que nos governam a todos. E as bênçãos de Deus são a execução da melodia celestial que se irradia pela vivência da Serenidade imperturbável.

Parou por momentos, para que todos respirassem, serenamente aliviados. Para Tiago, que já convivia com altos conceitos filosóficos, não foi difícil degustar o manjar dos céus, que se fundamentavam na evolução das almas, tema que, de leve, sentia nas suas mais profundas deduções. No entanto, precisava de algo mais que lhe acalmasse o mundo mental.

O Mestre torna a fitar Tiago e prossegue, com desembaraço: Tiago, a mansuetude imperturbável, no seio dos homens, parece-nos muito difícil, pela largueza de ignorância que ainda alimentam sob todos os aspectos da vida; mas não é impossível de ser adquirida. No perpassar dos anos e séculos, sem que a interrupção do bem se faça, ela passa a fazer parte do teu corpo físico e espiritual.

A lei te impõe uma condição: que cada dia coloques no teu alforje um grãozinho de areia de auto aprimoramento, de auto-educação, de amor sem descanso, de fé revestida de obras, para que, no amanhã da eternidade, possas sentir o nascimento, dentro e fora de ti, da serenidade imperturbável.

É importante, pois, que não te esqueças que, desde quando deres os primeiros passos com sinceridade e confiança, começarás a viver e a sentir a felicidade oriunda dos primeiros raios da eqüidade espiritual. A bondade de Deus é tão grande que mandou a mensagem da salvação quase ao vivo, para que possas sentir a sua paternidade e acreditar no amor que se estenderá de uns para com os outros.

O Divino Mestre cerra os lábios e parece meditar. Envolvendo seu imponente corpo, via-se como um manto de luz, do qual partiam fragmentos em todas as direções. Ao tocar nos corpos dos discípulos, fosforesciam, alojando-se em seus corações. O Cristo, tranqüilo e confiante, prossegue sem cansaço:

Tiago, uma árvore, para se manter de pé no solo que lhe dá a vida, estica suas raízes em todas as direções da terra, e os seus galhos obedecem ao mesmo esquema, no ar, para que, no centro, se avolume seu corpo ciclópico, com segurança.

Pois assim é a serenidade de que falas e sobre a qual estamos dialogando. Não pode ser fruto somente de dentro de cada alma, como não deve ser esforço somente de fora. O que te garante a brandura inalterável nos escaninhos do teu ser é o amor de Deus, que parte de dentro de nós em busca da sua manifestação para fora e que vem de fora para que se manifeste dentro das criaturas.

Enquanto somos tomados pela insegurança, é qual a árvore mirrada que não pode demonstrar seus frutos como valores por gratidão ao agricultor que a adubou durante o seu crescimento. Se intentas que cresça a árvore da serenidade em ti, começa cultivando-a sem cansaço, aduba os ideais elevados e trabalha pela paz, tua e dos outros. Sê benevolente com o próximo e não esqueças a caridade, onde passares. Serve sem interrogação e ama indistintamente.

A voz de Jesus serenou, em um ritmo de sinfonia. João e Tiago, que entraram juntos no casarão, saíram em conversação interminável acerca da lição da noite, desenvolvida pelo Mestre. Os outros discípulos, empolgados de esperança, desenvolviam igualmente seus ideais para a pregação do Evangelho. E, como por encanto, não viram mais, naquela noite, o Cristo.

Ninguém comentou o fato, por já ser costume o Senhor se tornar invisível. Uma multidão incalculável tornava difícil a saída com naturalidade. As estrelas festejavam a madrugada como olhos de luz presenciando os fatos terrenos. Tiago, renovado nos conceitos da serenidade como fruto da evolução, ergue as vistas para os astros e agradece a Deus pela oportunidade de aprender com Jesus.

Compilado do livro: Ave Luz
Autor: Shaolin (espirito) e João Nunes Maia
Fonte: Harmonia Espiritual

quinta-feira, 19 de março de 2015

Justiça - Ave Luz



Betsaida era o centro de muitas atenções, devido à permanência, por algum tempo, ali, do Divino Amigo, dos seus admiradores e, principalmente, dos irmãos da comunidade em Cristo. Nas ruelas e praças, reuniam-se criaturas discutindo sobre a fama de Jesus, se ele era realmente o Messias. Pairava no ar um composto de fé e de dúvida da massa humana. Ao passar por esses grupos, alguns dos discípulos viam-se questionados de todas as formas, e apenas abençoavam a todos, sem que a resposta fosse a solução. Ainda não havia a ordem “ide e pregai”. A edificação doutrinária, dentro de cada um, estava por se fazer.
 
O Mestre começara o plantio, sem se descuidar da assistência aos seus companheiros do coração. Apareciam, por vezes, certos agitadores para desmoralizar a doutrina nascente. Porém, enquanto isso, surgiam novas curas, até mesmo no meio das agitações, e o enfermo, cego ou paralítico, sentia, no íntimo, a presença de Jesus, e gritava, correndo, o nome de Deus e do novo profeta. O ambiente contrário, na sua premeditação, tornava-se força de fé, que se espalhava como um raio. Nas cidades circunvizinhas crescia a esperança de muitos, avolumava-se a alegria dos sofredores, e agigantava-se a convicção no colégio apostolar do grande Nazareno.

Tadeu, o nosso personagem desta mensagem, encontrava-se em um sítio próximo a Betsaida, pertencente a um velho carpinteiro que conhecera seu pai e com ele convivera por muitos anos, pois a sintonia do trabalho e das idéias os fazia unidos. Tadeu, que ali passara a noite, não conseguiu conciliar o sono. Pensamentos múltiplos o torturavam e a sua razão, por força de circunstâncias tais, desmerecia a própria personalidade, em se tratando de um participante da comunidade de Cristo.
 
O que João e Tiago tinham em abundância, nele era escassez. A sua mente não conseguia armazenar conhecimentos, nem extrair o saber que vinha envolvido nas parábolas. Era preciso a cooperação dos outros e, mesmo assim, o seu esforço se tornava desumano para sentir um pouco daquilo que era abundante para muitos dos discípulos. Todavia, a vida premiou Tadeu com um corpo másculo. Mais parecia um gigante dos contos orientais, porte esbelto, mas de tendências grosseiras. Também os céus não se esqueceram de dar-lhe um coração simples e bom.

Vamos encontrar o gigante hebreu na despedida da madrugada, contemplando as últimas estrelas do firmamento azul, querendo orar sem condições, porque as grossas lágrimas o interrompiam, em virtude das emoções que se estendiam em todos os sentidos, entorpecendo sua fala. Não obstante, seus pensamentos se irradiavam na mais profunda humildade, pedindo a Deus que o dotasse de mais um pouco de inteligência, para que pudesse ouvir e entender Jesus. Sentia-se humilhado diante das exposições filosóficas e doutrinárias dos outros companheiros.
 
Não vê mais estrelas. Desce as vistas e nota o despontar do Astro Rei, como se fosse a resposta do Pai Celestial para iluminar a sua consciência. Sorri por alguns instantes e pensa firmemente na reunião da noite com o Cristo. Não sente fome nem sede, pelo contentamento e pela esperança nova que nascera em seu coração, e tira o dia para um passeio pelos campos próximos, respirando o ar puro e conversando com a natureza na dimensão que as suas faculdades permitiam.

Quando os últimos raios de sol se apagavam no horizonte de Betsaida, o homenzarrão já se encontrava procurando assento dentro do templo onde se encontrava o Cristo e os outros discípulos. Ali, o tempo era perfeitamente aproveitado. Bastou um simples olhar de Jesus para que João erguesse uma sentida prece a Deus e aos anjos, buscando ambiente mais favorável no sentido do aprendizado deles. Terminada a oração, notava-se de leve um aroma agradável, que parecia penetrar as mais secretas regiões da alma. Dois olhos, como estrelas, fitavam Tadeu, que logo se dispôs a perguntar:
 
- Mestre, como sabes, por vezes me constranjo, mas gostaria, com todo o respeito que te dedico, de indagar algo. Mesmo não tendo o direito de acusar ninguém e nem intenção de julgar os atos de Deus, queria o teu pronunciamento acerca da justiça, pois em vários momentos parece-me ver o contrário nos fatos diários.

Jesus, bem acomodado no madeiro improvisado, abre as comportas do seu magnânimo olhar e anuncia, sorrindo brandamente com íntima alegria pela pergunta de Tadeu:

- Tadeu, a lei da Justiça é uma realidade nos ajudando a todos. Se nos sentimos injustiçados nas ocorrências da vida, é por nos faltar capacidade de entendimento da vontade do Pai Celestial. Em verdade te digo que nem um astro desses que embeleza o infinito desaparece fora de hora, como a queda de uma folha não se dá em momento errado. Tudo, mas tudo se ajusta à harmonia universal, sem perda de um til na escrita de Deus. O que percebeste, como fenômeno da vida e das coisas, interpretando como injustiça, podemos afirmar sem arrogância, meu filho, que é a manifestação da Justiça perfeita, porquanto ninguém recebe o que não merece nem aquilo que não pode suportar no seu avanço espiritual.
 
Consideramos maravilhoso a criatura amar e, além disso, achamos mais importante ainda, a alma que sabe por que está amando. Creio que nenhum dos presentes tem coragem de acusar o Criador pelos distúrbios íntimos de cada um e pelas hecatombes que se processam no panorama do mundo. Esses fatos, dentro e fora de nós, consomem vidas e mais vidas, fazem jorrar rios de lágrimas e sangue, deixam multidão de viúvas e incontáveis crianças órfãs, que não têm coragem de se acusarem. Apesar disso, vivem em dúvidas atrozes, dispersando forças do coração e da inteligência, em círculo vicioso, sem o devido proveito.

Deixa que o silêncio os ajude a gravar o que ouviram, e prossegue com dignidade: - Eis que, se compreendermos os desígnios do Senhor, se pelo menos atentarmos no porquê das coisas, tudo se aclara. As leis que imperam como Justiça somente são vistas com bons olhos, quando as analisamos com sabedoria. Do contrário, ficamos nos debatendo no ambiente agressivo da ignorância. Tadeu, depois de alguns momentos, sem nada ouvir do Mestre, se manifesta, apressado: - Então?

Jesus, envolvido em meiguice espontânea, adianta-se, entendendo sua vontade: - Quando somos dotados de força física, Tadeu, é justo saber como usar essa força. Juiz, só um o é, e a ele pertencem todos os direitos de aplicar a lei de reação das ações executadas. Se queres saber, é bom que logo te conscientizes disso: os meios de ser útil à coletividade e a si mesmo são incontáveis, sem anunciar o dever de ser caridoso, pois Deus está em toda parte. Ele vê antecipadamente o alo benevolente, o gesto que em primeiro lugar harmoniza a consciência de quem o pratica, em todos os casos.
 
A Justiça aplicada pelas mãos humanas, além do escândalo, tem interesse em anunciar uma valentia que está impulsionada pela vaidade e, para tanto, existem as leis criadas pelo Senhor que nunca se esquece daquilo que deve ser dado a cada criatura, atuando, também, como vigilante na defesa daqueles que são realmente inocentes.

Basta, para os que se reúnem em nome de Deus nesta assembléia, confiar na Justiça universal e procurar entender a mensagem dos céus, que desponta em todos os fatos do mundo, e os fatos do mundo íntimo que afloram para cada alma. Se existe cativeiro forçado, prisões infectas e carrascos sem coração, a revolta marca uns e outros, já que são águas da mesma fervura. A observação nos diz que se usa a bigorna de ferro para amoldar o ferro, com o malho do próprio ferro.
 
— Pelo que conhecemos — continua Jesus — temos outros caminhos melhores, para pregar e executar a justiça pelo bem no domínio do amor mais puro. É bom que eu diga e que compreendais bem depressa: não falo para os mortos na came e sim para os despertos em espírito e verdade. A ninguém julgo, pois não estou aqui para isso, vim para que conheçais o amor, porque somente ele tem o poder, no coração das criaturas, de estender a felicidade, para que nenhuma das ovelhas se perca nos labirintos do ódio. Quem se preocupa em demasia com Justiça não tem condições para fazer a benevolência, e quando intenta misturar a caridade com ela, a exigência empalidece o amor.

Jesus compreende bem o maior problema que aflige Tadeu. Deixa que ele analise pacientemente o assunto em conversação e acrescenta, com humildade: Meu filho, não queiras ser o que ainda não podes suportar. A inveja, mesmo sendo tocada pelo clarão da boa vontade, carrega consigo o azinhavre da maledicência. Todo invejoso se esquece das suas próprias qualidades que, por vezes, dormem, desperdiçando as forças que gasta, invejando. A cobiça não deixa que repares na carência de muitas qualidades do invejado e queres, com isso, tirar dele o que ele tem para suprir as tuas deficiências. Não é, porventura, isso, a maior injustiça?
 
Finalizando em tom paternal, ajusta os pensamentos de todos os presentes, com esta expressão: Eu estou aqui para servir e me empenho com todos os companheiros para que me ajudem. Estendamos as mãos para quem quer que seja e falemos aos ouvidos de quem quer que queira ouvir, para que o amor a Deus sobre todas as coisas seja o primeiro entendimento entre os homens, a fim de que não falte o amor ao próximo.

Ainda restava muita gente fora do casarão, esperando a saída dos companheiros do Nazareno, que às vezes vinham também em contínuas conversações. De longe, via-se Tadeu pela sua estatura helênica, protegendo a saída do Mestre que, de mansinho, tocava os homens e as mulheres, que avançavam em direção a ele, pedindo misericórdia, pedindo curas, pedindo paz, pedindo tudo, como até hoje acontece, mas sem disposição para dar nada. Jesus abençoa a todos e, sem que ninguém perceba, a caravana desaparece por entre a multidão.
 

Compilado do livro Ave Luz de
Shaolin (espirito) e João Nunes Maia
Fonte: Harmonia Espiritual

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A espada e o processo evolutivo



A apreensão que muitos ficam ao ler alguns ensinamentos e declarações de Jesus, onde Ele aparentemente afirma a necessidade das discórdias entre amigos, companheiros de trabalho, de doutrina e principalmente com os familiares, sendo Ele a personificação da doçura e da bondade, cabe uma análise mais profunda.

O que Jesus quis dizer com divisão, separação, era a possibilidade de assimilar e entender o processo evolutivo do ser humano, o que até hoje muitos não entendem ainda. O Mestre trouxe a doutrina da purificação, a finalidade era e ainda é, combater o abuso, preconceitos e plantar a paz.

No cotidiano, as opções de vida são diferentes entre os seres humanos, devemos respeitá-las como fez Jesus, sem impor. Mas a diferença de entendimento provocará a discórdia, a divisão. “Vim separar de seu pai o filho… Não vim trazer a paz, mas a espada”. Mateus – Cap. X; 34 a 36.

A ideia quando é nova, e quanto maior for a importância do conceito, mais discórdia ela provocará, a polêmica acontecerá, e é ai que Jesus queria que nós chegássemos. Ele previu com toda a sua sabedoria o futuro de debates e dissensões. A guerra de opiniões entre familiares, seitas e continentes, contribuiria para o expurgo do orgulho, da vaidade, do egoísmo, encarcerada no espírito individualizado. A doutrina espírita veio para fechar este ciclo da fase evolutiva dos habitantes do planeta Terra. Então quando o campo estiver preparado, eu vos enviarei o Consolador, o espírito de verdade, que virá restabelecer todas as coisas. A aqueles que compreenderem as suas palavras porá fim ao sofrimento.

Ao analisar a situação atual do mundo, deparamos com as discórdias, a falta de compreensão, muita luta íntima, procurando, às vezes, em desespero, a resposta para tudo o que acontece ao nosso redor. Vamos atrás de conforto material, achando que ele vai saciar as nossas aflições, grandes conquistas financeiras povoam os nossos sonhos e desejos, sem nunca trazer as respostas. Até que um dia, cansados de sofrer, resolvemos aceitar os “antigos” conceitos de Jesus.

O crescimento espiritual da humanidade, por seus diferentes níveis, causa a separação e a divisão dita por Jesus, é a proporcionalidade do crescimento de cada um. Mas o dia de união chegará, e está próximo, as lutas atuais não são mais sanguinolentas, mas de ordem moral, que todos nós dentro da razão, não nos preocupemos mais, pois todos compreenderão um dia a imortalidade do espírito e sua constante evolução, teremos a fé raciocinada e não fanatizada, usaremos com mais eficácia o nosso livre arbítrio. As primeiras lutas duraram séculos, estas durarão apenas alguns anos e construiremos a felicidade e a paz.

Na desenfreada corrida pelas conquistas íntimas, desde há muito séculos, a humanidade confunde o conceito. No entender comum, a conquista de momentos felizes e tranquilidade duradoura, estão atreladas a garantias materiais. A ociosidade, a curtição, a vida desregrada, contribui para que muitos fiquem afastados da realidade da vida. Essa tranquilidade enganosa não poderia ser avalizada por Jesus.

Vivendo erroneamente nesses conceitos, o homem adquiriu débitos morais, durante muitos séculos, o que o obrigou a lutas regeneradoras por várias encarnações. A espada, que simboliza a luta, mostrou ao homem a necessidade da mudança, do aprimoramento moral e cognitivo. A luta não tem sangue, o combate é individual e o caminho é rumo à perfeição do espírito; regrado a sacrifícios e testemunhos, impulsionando a renovação e a verdadeira paz.

Que a nossa busca não seja enganosa, fugindo da realidade, ao qual o processo evolutivo determina e que estamos vinculados. A vida espiritual é uma verdade incontestável, não permitindo que ignoremos o processo santificante. O homem segue equivocado em suas tarefas diárias, os interesses imediatos predominam na corrida desenfreada das posses exteriores.

Em suas explanações incontestáveis, Emmanuel nos alerta sobre a necessidade do aproveitamento do “tempo” em favor do nosso aprimoramento. Descreve-o sobre o tema dizendo: “É lógico que todo o homem conte com o tempo, mas se esse tempo tiver sem luz, sem equilíbrio, sem saúde, sem trabalho? Não obstante a oportunidade da indagação importa considerar que muito raros são aqueles que valorizam o dia, multiplicando-se em toda a parte as fileiras dos que procuram aniquilá-lo de qualquer forma… Em quase todos os setores de evolução terrestre, vemos o abuso da oportunidade complicando os caminhos da vida”.

Que o trabalho seja a nossa tarefa, e que Jesus nos inspire nas escolhas diárias.


Fonte: Seareiros de Jesus