Eternidade

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sexta-feira, 25 de junho de 2021

O trabalhador espírita da Nova Era

Predita e confirmada pela Doutrina Espírita, a transição para uma nova realidade vai conduzindo a Humanidade para a Regeneração.

O trabalhador espírita que não estiver atento a este fato, que continuar com os mesmos hábitos da época de provas e expiações necessita refletir sobre a necessidade de progresso para acompanhá-lo no rumo que conduz a um mundo melhor, regenerado.

Estar na transição e agir nos moldes da expiação e provas é estagnar-se e não perceber a necessidade de progresso que reclama hábitos e costumes diferentes dos até então praticados.

O mundo regenerado reclama atitudes diferentes do de provas e expiações; os herdeiros deste futuro serão aqueles renovados e em condições de usufruir a regeneração com espírito colaborativo; atitudes de respeito; entendimento ampliado sobre a vida do Espírito imortal; coração bondoso; responsabilidade coletiva; desprendimento das ideias não mais compatíveis com a realidade regenerada e ação caridosa em todas as circunstâncias.

Para isso, impõe-se a transição dos remanescentes do mundo de provas e expiações, porque as gerações novas já se compromissaram antes do nascer com as mudanças necessárias para que se faça a renovação da Humanidade.

O espírita da Nova Era realizará suas tarefas de maneira impessoal, portanto, coletivamente, para que surja a personalidade única, Jesus, que aguarda as consciências se iluminarem para reconhecê-lo como o único Pastor, Guia e Modelo, Governador da Mãe Terra.

O espírita dessa Nova Era terá o seu coração forjado à bondade; vivenciará a benevolência para com todos indistintamente, compartilhará suas tarefas para que a responsabilidade seja ampliada ao coletivo; deixará no abandono as ideias não compatíveis com as verdades luminíferas do Evangelho de Jesus, substituindo-as por tudo que é coerente com a Lei Divina ínsita nas consciências; pautará a vida com exemplos de amor, conforme Jesus elucidou e viveu, na demonstração ativa da prática da caridade.

Aquele que augurar ser espírita da Nova Era, encontra-se frente a frente com o grande desafio da renovação para melhor, de retirar as sombras acumuladas no passado sombrio e de fazer a escolha correta do caminho a seguir.

Ele, o Mestre Nazareno, já apontou a direção e a maneira de extirpar as sombras: Eu sou o caminho…. Aquele que me segue jamais estará em trevas.

Ave, Cristo!

Sigamo-lo, pois, intimoratos, no rumo da regeneração.

 Fonte: O Reformador - FEB - junho/2021

domingo, 6 de dezembro de 2020

NAS VIBRAÇÕES DO ORGULHO

 

"Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado." (Lucas, 14:11.)

 Maria Emília sempre foi uma servidora dedicada da Casa Espírita. Com grande habilidade para organizar eventos e administrar recursos, ela foi se destacando como uma notável líder.

Em poucos anos, a colaboradora fiel se tornou presidente do Centro e, logo no início de sua gestão, já se percebia melhorias em alguns setores, especialmente na instituição que acolhia moradores de rua da comunidade. O prédio foi reformado e os atendidos puderam ter acesso a serviços médicos, refeição de qualidade, assim como mais conforto nas dependências da instituição.

O trabalho de Maria Emília perante a instituição, sem dúvida, é digno de mérito e beneficia centenas de pessoas. Mas, paralelo à sua brilhante atuação na senda do bem, os confrades mais próximos começaram a perceber nela traços de intolerância. Ocorrências infelizes em determinados eventos se tornaram mais frequentes: uma palavra ríspida aqui, a postura arrogante acolá, além do triste hábito de valorizar as fofocas e justificar suas decisões e atos como sendo instruções e atos como sendo instruções espirituais.

 A conduta autoritária que a líder espírita passou a exibir é um exemplo claro da vaidade e do orgulho, ainda muito presentes nas casas espíritas. O médium vaidoso trabalha nas vibrações do ego e, não raro, é assediado por entidades enfermiças, puramente interessadas em colocar a perder as tarefas e a união de todo o grupo.

O orgulhoso não aceita críticas, despreza o valor alheio e tiraniza a si próprio nos meandros da culpa, já que possui crenças baseadas no perfeccionismo que o oprime. Tornando-se arrogante, ele afasta as pessoas, pois em sua ilusão se crê autossuficiente e só consegue ouvir aquilo que lhe convém.

O livro dos médiuns alerta:

Todas as imperfeições morais são outras tantas portas abertas ao acesso dos maus Espíritos. A que, porém, eles exploram com mais habilidade é o orgulho, porque é a que a criatura menos confessa a si mesma. O orgulho tem perdido muitos médiuns [...].¹

E o Evangelho,² a seu turno, cita o princípio da reencarnação como fator aniquilante do orgulho e da vaidade, pois, aquele que ocupa elevada posição em uma existência, na outra poderá se curvar à condição mais humilhante.

Dessa forma, é imperioso que priorizemos o trabalho na Casa Espírita. Repudiemos as interferências do egoísmo e do orgulho, para que a palavra dos Espíritos Superiores nos chegue pura, isenta de qualquer alteração.  

 

¹ KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. cap. 20, it. 228.

² _________,  O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 7, it. 6,11 e 12

Fonte: Reformador, junho/2016. 

 

quinta-feira, 5 de março de 2020

Ação e Reação


Código penal da vida futura, apresentado por Allan Kardec na obra O Céu e o Inferno* (capítulo VII da primeira parte), é fonte de interessantes reflexões em torno da lei de ação e reação que rege os caminhos humanos.

Como pondera o próprio Codificador, no mesmo capítulo e com o subtítulo Princípios da Doutrina Espírita sobre as penas futuras, “(...) no que respeita às penas futuras, não se baseia numa teoria preconcebida; não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ele se apoia nas observações, e são estas que lhe dão plena autoridade. Ninguém jamais imaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tais ou quais condições; são elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos vêm hoje iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua situação feliz ou desgraçada, as impressões, a transformação pela morte do corpo, completando, assim, em uma palavra, os ensinamentos do Cristo sobre este ponto. Preciso é afirmar que se não trata neste caso das revelações de um só Espírito, o qual poderia ver as coisas do seu ponto de vista, sob um só aspecto, ainda dominado por terrenos prejuízos, Tampouco se trata de uma revelação feita exclusivamente a um indivíduo que pudesse deixar-se levar pelas aparências, ou de uma visão extática suscetível de ilusões, e não passando muitas vezes de reflexo de uma imaginação exaltada. Trata-se, sim, de inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de todas as categorias, desde os mais elevados aos mais inferiores da escala por intermédio de outros tantos auxiliares (médiuns) disseminados pelo mundo, de sorte que a revelação deixa de ser privilégio de alguém, pois todos podem prová-la, observando-a, sem obrigar-se à crença pela crença de outrem.”.

Esta transcrição inicial é importante para nos situarmos no universo de observações que se colocou o Codificador para elaboração da teoria espírita advinda toda das revelações que os próprios espíritos fizeram.

O próprio O Livro dos Espíritos, obra lançada em 18 de abril de 1857 com os fundamentos doutrinários do Espiritismo e organizado em forma de perguntas e respostas, teve sua parte.  Quarta, com dois capítulos e exatas cem perguntas com suas respectivas respostas, totalmente dedicado ao tema das penas e gozos, terrenos e futuros.

No citado Código, que citamos no primeiro parágrafo acima, utilizaremos o 3º dos 33 itens, para orientar o desenvolvimento do tema. O texto original apresenta-se nos seguintes termos: Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade que não seja fonte de um gozo.

Ora, são as imperfeições ou as qualidades da alma humana que geram suas ações felizes ou equivocadas. E essas ações estão caracterizadas com o selo moral do estágio em que se situa o ser. Portanto, os pensamentos, os sentimentos, e as próprias ações executadas no transcorrer de uma existência geram reflexos na própria existência, na vida espiritual ou até mesmo na próxima ou futuras existências a depender é claro da extensão ou gravidade da ação promovida.

A lei de ação e reação, ou o a cada um segundo suas próprias obras, baseia-se num perfeito mecanismo de justiça e igualdade absoluta para todos. Não há qualquer favoritismo para quem quer que seja. Agindo bem, teremos o mérito do bem. Agindo mal, teremos as consequências. Não se trata de castigo em absoluto, mas de consequências.

Qualquer prejuízo que causarmos a nós mesmos ou a terceiros, ocasionarão consequências inevitáveis em nossa própria vida. Isto é da Lei Divina. E qualquer benefício que distribuamos gerará méritos e benefícios correspondentes em nosso próprio caminho, ainda que haja ingratidão dos beneficiados.

Passamos a entender, portanto, que fazer o mal a quem quer que seja nunca será compensador, pois sempre responderemos pelo mal que causemos, inclusive a nós próprios. E, do mesmo modo, toda felicidade ou tranquilidade que proporcionarmos ao próximo redundará, inevitavelmente, em bem para nós mesmos.

Não é por outra razão que Jesus ensinou a perdoar. O ódio alimentado, a vingança executada ou a perseguição contumaz a qualquer pessoa redundarão em estágios  de sofrimento e dor a seu próprio autor. Perdoando, libertamo-nos.

Também é pela mesma razão que a recomendação sempre constante é para que promovamos o bem, ainda que este não nos seja espontâneo (estamos aprendendo a incorporá-lo em nós mesmos), pois todo bem gera o bem. O mal sempre gerará consequências desagradáveis.

Fácil perceber', portanto, que muitos sofrimentos existentes hoje na vida individual, social e coletiva, inclusive a nível de planeta, poderiam ser evitados se houvesse o conhecimento dessa realidade das consequências geradas por nossos atos. Quantos equívocos pelo desconhecimento dessa lei que simplesmente usa a justiça e a igualdade como parâmetros...

Não temos o direito de ferir, de denegrir, de caluniar, de espliar... Não temos igualmente o direito de matar, de roubar (bens, dignidade, oportunidades, paz, etc), de interferir na vida alheia, de impor idéias ou padrões que julgamos corretos. Entendamos que as criaturas são livres, desejam ser respeitadas, assim como queremos ser...

Este é o detalhe: as tentativas de dominação, imposição, de cerceamento da liberdade individual, sempre ocasionarão sofrimentos, pois todos somos seres pensantes, com vontade própria, responsáveis pelo próprio caminho. Poderemos, é claro, sugerir, aconselhar (se formos solicitados), auxiliar no que for possível, mas jamais violentar as consciências. Todas merecem respeito.

O tema suscita muitos debates, abre perspectivas imensas de estudo. Observa-se que as próprias leis humanas, refletindo as imperfeições do estágio evolutivo do planeta, muitas vezes são equivocadas, gerando também consequências para o futuro. O que se observa atualmente é fruto de toda essa inconsciência coletiva dos mecanismos que nos dirigem a vida.

Há que se pensar no que estamos fazendo. Já não somos mais seres tão ingênuos que desconhecem as Leis Morais. Estamos todos num caminho evolutivo, onde os direitos são iguais. Tais direitos, abrangentes, devem ser respeitados pela igualdade e pela justiça.

E é justamente pelo desrespeito a tais princípios de igualdade e justiça que se observam os efeitos na vida material e na vida espiritual, com os depoimentos que os próprios espíritos trazem do estado em que se encontram, em virtude do padrão moral que adotaram no relacionamento uns com os outros ou consigo mesmos.

O próprio O Céu e o Inferno traz depoimentos, em sua segunda parte, de diferentes espíritos que descrevem a situação em que se encontraram após a morte. Mas a questão não é apenas para depois da morte. Há que se considerar a própria existência física, atual ou futura (s), onde os mesmos reflexos se fazem sentir.

Será de muita utilidade que possamos estudar e debater os itens do Código Penal da Vida Futura, constante do livro em referência, para espalhar tais esclarecimentos. Mesmo os depoimentos constantes da mesma obra, são de grande utilidade para estudos e reflexões.

São princípios desconhecidos da maioria dos espíritos encarnados no planeta, embora a consciência, onde está escrita a Lei de Deus (1), os avise de seus equívocos. Sufocados pelas imperfeições morais do orgulho, do egoísmo, da vaidade, ainda nos permitimos sufocar a própria consciência e agimos em detrimento uns dos outros. Daí as consequências inevitáveis e os sofrimentos...

Em tudo, porém, é preciso sempre considerar a misericórdia de Deus, que nunca abandona seus filhos e lhes abre sem cessar novas oportunidades de progresso. O tema é extenso, pois poderemos adentrar os domínios do arrependimento, expiação e reparação, mas desejamos mesmo é sugerir ao leitor a leitura atenta do Código constante em O Céu e o Inferno. Os itens enumerados, todos eles, abrem perspectivas imensas de entendimento e esclarecimento, o que seria impossível num artigo de poucas linhas. Melhor mesmo é buscar na fonte original a lucidez e clareza da própria Doutrina.

Para concluir, gostaríamos de oferecer à reflexão do leitor a frase de Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, constante do capítulo 38 – A glória do trabalho –, do livro Lampadário Espírita (2): No lugar em que te encontras, sempre poderás semear a luz da esperança e do amor. Eis um programação de ação para modificar os panoramas da vida humana. Basta nos situarmos no esforço do bem, para gerar efeitos salutares de felicidade e saúde.

Se usarmos este roteiro nas atitudes de cada dia, pronto! Estaremos sintonizados com o bem, gerando efeitos de amor e alegria. Simples consequência da lei de ação e reação.

*Utilizamo-nos da 32ª edição da FEB, de 09/84, com tradução de Manuel Quintão.
(1) questão 621 de O Livro dos Espíritos, edição FEB.
(2) 3ª edição da Federação Espírita Brasileira, maio de 1978.

Matéria publicada originariamente na revista REFORMADOR, edição de novembro/04.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Pilares de sustentação do trabalho voluntário na Casa Espírita


Considerações iniciais

O trabalho voluntário na Casa Espírita, além de contribuir para o fortalecimento das forças do bem na humanidade, é uma oportunidade ímpar, disponibilizada à criatura humana para que, de forma consciente e mais constante, se encontre com nosso Pai celestial. Daí a importância de o voluntário, ao abraçar sua tarefa, estar plenamente cônscio da relevância de sua participação, certo de que, em sua atuação, contará com a companhia e assistência do Pai celestial através de sua corte de anjos.

Dessa forma o trabalhador voluntário da seara divina deve envidar todo seu esforço no sentido de honrar esses momentos, assentando sua força de trabalho em pilares que resistam às dificuldades naturais, existentes no terreno onde as sementes do Amor serão plantadas e regadas.

1º Pilar: Amor ao próximo, respeito humano

O trabalho voluntário na Casa Espírita exige contato permanente com criaturas humanas encarnadas e desencarnadas, situadas nas mais variadas faixas vibratórias de pensamento e comportamento, daí a necessidade de o voluntário ser portador de um aceitável grau de sensibilidade para que possa bem se relacionar com essas pessoas, a fim de não prejudicar os intentos divinos em favor delas. Ao lidar com criaturas humanas nunca esqueçamos que nem sempre estamos tratando com pessoas lógicas, mas sim, na maioria das vezes, com pessoas emocionais. 

É imprescindível que, no desempenho de sua tarefa, o voluntário guarde estrita vigilância ante as investidas provenientes do plano espiritual inferior, pois as mesmas encontram terreno fértil, para sua semeadura, no lodaçal do orgulho, da vaidade, do melindre, da sede de poder, da ignorância e da fragilidade emocional e moral das pessoas, bem como em outras imperfeições próprias da natureza humana.

Assim, tratar bem aqueles com quem nos relacionamos, estimulando-os para o trabalho que desempenham e/ou incentivando- os a superar as dificuldades da jornada, são exemplos que, sempre que possível, devem ser vivenciados pelo trabalhador espírita. Ademais, não custa nada lembrar que, sempre que a oportunidade apareça devemos habitualmente cumprimentar as pessoas, com naturalidade, ser compreensivos, ser solícitos, atenciosos, enfim, educados com o semelhante. Esses “pequenos” gestos muito contribuem para o ajuste da nossa sintonia com o plano espiritual superior que nos assiste.

2º Pilar: Fidelidade aos princípios espíritas

Em função da natureza do trabalho realizado na Casa Espírita, é fundamental que seu trabalhador voluntário não só tenha conhecimento doutrinário, mas também o abrace e nele tenha fé. Afirmamos que o trabalho espírita é diferente dos demais, porque não leva em consideração somente as necessidades de ordem material da criatura humana, mas, principalmente as mais imediatas. O trabalho sob a égide do Espiritismo também leva em consideração a vida espiritual das pessoas e seu retorno à carne em vidas futuras. Para que essa consciência se firme, de forma mais efetiva na conduta do voluntário, é necessário que saiba o que é reencarnação, quais os princípios que a regem e que a compreenda à luz do Espiritismo; que tenha conhecimento e acredite na comunicabilidade dos Espíritos, em como essa comunicação se processa e que efeitos provoca na vida da criatura humana; que tenha fé em Deus, em sua bondade, misericórdia e justiça, para melhor entender as desventuras com que se deparará ao longo do seu trabalho e que acredite na imortalidade da alma, para citar alguns requisitos básicos necessários a que se guarde fidelidade aos princípios doutrinários espíritas.

A falta de conhecimento do que seja o Espiritismo, dos recursos de que dispõe e dos princípios em que se assenta, indubitavelmente levará o voluntário espírita a desenvolver seu esforço de trabalho em direção contrária à que se recomenda a Doutrina Espírita, gerando assim sérios conflitos de identidade na Instituição. Um exemplo funesto dessa ausência de fé e fidelidade às recomendações do autêntico Espiritismo é a realização de práticas estranhas ou exóticas na Casa Espírita.

3º Pilar: Convivência fraterna e companheirismo

Jesus com seu exemplo nos ensinou que o trabalho na seara divina não dispensa a participação de ninguém que esteja imbuído de boa vontade e sintonizado com os propósitos divinos. Para cumprir sua missão entre nós, Ele se fez acompanhar de discípulos das mais variadas condições sociais e culturais, com destaque para os doze apóstolos que lhe eram mais próximos. Poderia, certamente, cumpri-la sozinho, mas em sua sabedoria optou por partilhá-la com seus irmãos de caminhada e de ideal. Assim deve ser na Casa Espírita, pois todos os que nela se encontram são irmãos que abraçam a mesma fé, dispostos a seguir as recomendações de vida eterna, trazidas pelo Cristo, uns espiritualmente mais amadurecidos que outros, mas todos desejosos de crescimento espiritual.

Diante dessa heterogeneidade evolutiva, é natural que em alguns momentos ocorram desencontros de opinião e comportamento, todavia, nesses momentos devemos nos lembrar de que viemos para unir pessoas e não para separá-las. Que o companheiro de espírito mais amadurecido na prática do bem se apresente junto ao mais fragilizado, não para confrontá-lo, mas para, juntos, trabalharem em favor da causa do Cristo, uma vez que os discípulos de Jesus são conhecidos por muito se amarem. Que nosso proceder no desempenho de nossa tarefa seja o de partilha, de companheirismo e de compreensão para com as limitações humanas. Dar asas ao destempero emocional, ao “disse me disse”, à soberba, à arrogância, à exaltação da personalidade, por exemplo, só serve para obstaculizar a efetivação dos propósitos do Espiritismo na humanidade. Os tempos são chegados e esse tempo é o da solidariedade e da fraternidade. Nós, os trabalhadores da última hora, já perdemos muito tempo com os braços cruzados, portanto, temos muito trabalho pela frente.

4º Pilar: Amor ao trabalho

No exercício de sua tarefa, o trabalhador voluntário da Casa Espírita deve estar imbuído do sentimento de amor ao que faz e não do da obrigação ou da prestação de um favor a alguém, seja encarnado, seja desencarnado. Não esqueçamos que Jesus espera de cada um de nós misericórdia (compaixão) para com a dor e o sofrimento alheio e gestos conscientes de amor ao próximo e não sacrifícios ou mesmo obrigações forçadas de qualquer ordem.

A alegria de poder contribuir para a felicidade daqueles que a Providência divina coloca em nosso caminho deve ser a motivação que nos leve a realizar o trabalho voluntário, principalmente na Casa Espírita. Isso exige que eduquemos nossos sentimentos e reavaliemos nossa postura ética (como estamos nos relacionando com nossos semelhantes, principalmente os mais próximos?), moral (que valores tomamos como referência para nossa conduta cotidiana?) e comportamental (nosso comportamento na vida está coerente com o que acreditamos e professamos, como espíritas que somos?). Meditar sobre esses três pontos e esforçar-se, o mais que possível, para vivenciar atitudes coerentes com a proposta divina, referente a cada um deles, é tarefa urgente e inadiável, haja vista a necessidade de adquirirmos o equilíbrio exigido para o trabalho na lida espírita. Sem esse equilíbrio, como enfrentaremos as dificuldades e incompreensões que fatalmente surgirão no decorrer da tarefa? É fundamental que saibamos, adequadamente, nos desviar das pedras que surgirem no caminho, contornando-as ou removendo-as, uma vez que, se elas ali permanecerem, poderão ser motivo de tropeço e até mesmo de queda daqueles que com elas se depararem.

5º Pilar: Presença

O trabalho espírita, devido às bases em que se assenta e coerente com os fins a que se propõe, em hipótese alguma deve promover a infelicidade de seus agentes. Por isso, quem se dispuser a trabalhar na seara espírita deve planejar bem seu tempo de modo a não se prejudicar na condução de suas outras atividades, fora do Centro, e também para que a tarefa da qual participa no Movimento Espírita não venha a sofrer nenhum tipo de prejuízo. É imperativo que haja tranquilidade e satisfação por parte do trabalhador voluntário, principalmente no desempenho de sua tarefa, e isso só será possível se, dentre outros fatores, houver, no mínimo, um equilíbrio razoável do binômio: trabalho assumido versus tempo disponível à sua realização. Para que esse equilíbrio se estabeleça e o encargo seja satisfatoriamente realizado, se faz necessário administrar bem a ocupação do tempo disponibilizado, uma vez que esse tempo, competentemente distribuído, mesmo sendo pouco, pode gerar frutos mais proveitosos do que os produzidos por alguém muito ocupado com realizações desnecessárias e assumindo atitudes incompatíveis com os propósitos da tarefa e com as finalidades do Espiritismo. Nesse quesito, a assiduidade e a responsabilidade são duas condições que não podem faltar. 

Conclusão

Aos que desejam participar do trabalho voluntário na Casa Espírita e aos que já estão nele integrados deixamos a seguinte mensagem de Francesco, il poverello de Assis:

Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível.

Fonte: Revista Reformador - FEB - 2014

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Sublime investimento



O MUNDO conturbado suplica paz.
A sociedade em desalinho pede equilíbrio moral.
O lar clama por defensivas da harmonia.
O homem necessita das diretrizes da educação.
Comunidades religiosas definham à falta de fé.
Berçários da instrução se estiolam baldos de idealismo.
Oficinas do progresso transformam-se a uma Babel de dimensões agigantadas.
Generalizam-se quadros de sombra e dor, tormento e fel, sofrimento e angústia.
Busca-se a paz e fomenta-se a guerra.
Exalta-se o amor e estimula-se o ódio.
Louva-se o trabalho e serve-se à preguiça.
Fala-se em ordem e abraça-se a desordem.
Busca-se a luz e multiplica-se a treva.
Enaltece-se a Fé e caminha-se em descrença.
Investe-se no progresso material e olvida-se o plantio moral.
Prosseguimos, de fato, entre paradoxos de aflitivas consequências.

.

NUNCA o mundo necessitou tanto de Jesus e o homem do Evangelho!
O momento atual aguarda ação decisiva do Bem, deplorando as expectativas da inércia.
Não basta analisar; é inadiável construir.
O futuro está na forja do presente.
Arrolar sombras sem iniciativas de luz significa somar trevas.
Evitemos a contabilização das angústias que desesperam o presente; esforcemo-nos pela disseminação da moral cristã que clareará o porvir.
Jesus, o Operário de Deus, está a postos construindo seu Reino de esperanças na Terra. Aprestemo-nos,  como colaboradores do Cristo, na obra de redenção do mundo.
O Mestre convoca seus discípulos à divulgação do Evangelho. Os tempos são chegados!
Eis que surge o momento de investirmos no Amor, para que o Amor se multiplique em benefício do amanhã.
Sementeira de agora, promessa para depois.
Plantio efetivado, esperança crescente.
Acreditemos no Homem! Mas, semeemos, pois jamais ceifaremos onde não se plantou.
A Humanidade melhorada refletirá na melhoria do mundo.
Evangelizemos, com Jesus, para alcançarmos os valores indeformáveis da educação integral sob os auspícios do Mestre por excelência.
A velhice ergue as mãos suplicando o carinho que lhe aqueça o rigor do inverno na colheita de experiências dolorosas.
A madureza pede amparo que lhe contorne frustrações inevitáveis.
A profilaxia do amor, contudo, atende bem antes, agindo ao alvorecer.
Escancare as janelas de seu mundo interior para que o sol do Evangelho lhe amplie as potencialidades do ideal da confiança em Deus. 
Repare nas gerações de agora. São desafios à sua participação na melhoria do amanhã.
A Criança e o Jovem reclamam direção no Bem.
Evangelize!
Coopere com Jesus!

Estevão

(Página psicografada em reunião pública da Casa Espírita Cristã, Vila Velha-ES, na noite de 13-6-1977, pelo médium Júlio Cezar Grandi Ribeiro.)
Extraída de Reformador, fevereiro de 1988
 

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Aprendizado Incessante


Em início de cursos de Espiritismo, um confrade faz uma enquete com a seguinte pergunta:

– O que está você fazendo na Terra?

Espantosamente, a maioria não soube responder. Significa que considerável parcela da Humanidade não sabe nem cogita saber por que cargas d’água estamos neste bólido celeste que é a Terra, viajando à velocidade vertiginosa de 108 mil quilômetros por hora em torno do Sol.

Pior: não se preocupa com sua ignorância!

Está aí uma das razões pelas quais poucos aproveitam integralmente as oportunidades de edificação que a reencarnação nos oferece.

Se nem mesmo sabem por que nasceram, por que vivem, e o que lhes vai acontecer portas adentro do túmulo, fica difícil cumprir os objetivos da jornada humana, a partir do princípio elementar de que ninguém está aqui em jornada de férias.

O resultado dessa displicência é o comportamento materialista, o comer, vestir, dormir, trabalhar, procriar, divertir-se, em lamentável marcar passo espiritual.

A Doutrina Espírita explica que não há retrocesso para o Espírito. Nossos patrimônios intelectuais, morais e espirituais, jamais se perdem.

Por concessão da Bondade Divina, o que somos hoje, fruto de nossas aquisições no pretérito, ao longo dos milênios, é inalienável.

Construímos um patrimônio que está guardado nos arquivos do inconsciente, a repercutir em nosso comportamento, jeito de ser, vocação, aptidões…

O problema é o estacionamento, o interromper o processo evolutivo com a inércia, a ausência de iniciativa, de empenho por aprender, crescer, conquistar novos patamares.

Isso costuma acontecer com o homem comum, muito preocupado com o próprio bem-estar, nada interessado em questões que ultrapassem os limites do imediatismo.

Onde passar o feriado prolongado?
Como pagar o cartão de crédito estourado?
Questionar a contratação de um jogador de futebol…
Escolher a marca de cerveja…
Acompanhar a novela de destaque…
Criticar o governo…

Esses são alguns dos temas que centralizam suas cogitações, sem tempo nem espaço para algo menos prosaico; por exemplo, como definir como veio parar neste atribulado planeta.

Diz Montaigne (1533–1592):
“O proveito dos estudos consiste em nos tornarmos melhores e mais sábios.”

O grande escritor francês estava certíssimo.

O empenho de aprender e desdobrar conhecimentos alarga nossos horizontes, desenvolve nossa capacidade de percepção, faz-nos crescer em inteligência, cultura e entendimento, para que a jornada humana não seja para nós mera estagnação.
Há um detalhe ponderável, decorrente do comportamento estacionário: imaginemos alguém atravessando uma selva sem conhecer a topografia da região, a extensão da mata, as fontes de água…
Viagem atribulada, difícil, perigosa.

É exatamente o que acontece com o homo sapiens, quando não exercita sua condição, negligenciando a sapiência, visão comprometida pela ignorância, a tropeçar em suas próprias mazelas.

Não obstante, não basta o conhecimento. Há muita gente de grande cultura precipitando-se nos resvaladouros do vício, do materialismo, da corrupção, da violência, da maldade…

A cultura mal orientada é tão ou mais perniciosa do que a ignorância. Por isso, se é importante estudar, aprender as coisas do mundo em que vivemos, como recomenda Montaigne, igualmente importante é conhecer as coisas do mundo para onde iremos quando batermos as botas.

Isso só o Espiritismo pode fazer por nós, mostrando-nos uma ampla visão do Mundo Espiritual, onde está nossa verdadeira pátria.

Conscientiza-nos a Doutrina de que somos seres imortais, destinados à perfeição, no desdobrar de incontáveis existências neste mundo e em outros, convocados ao aprimoramento incessante.

Sobretudo, ficamos sabendo que sem esse esforço estaremos resvalando para a estagnação, em que sempre proliferam a indisciplina, o vício, o desregramento, de funestas consequências.

Por isso, é bom estarmos atentos à máxima atribuída a Allan Kardec:
“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei.”¹

Referência:

  ¹  Wantuil, Zêus; Thiesen, Francisco. Allan Kardec: o educador e o codificador. v. 2. 2. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2010.


Fonte: Revista Reformador, julho/2018

sábado, 6 de janeiro de 2018

Acertos Genéticos


 Richard Simonetti
richardsimonetti@uol.com.br


Após examinar ao microscópio o embrião fecundado em laboratório, o médico informou aos pais:

– Ele possui componentes genéticos que favorecerão a ocorrência futura de grave deficiência respiratória. Peço sua autorização para interferir, substituindo os genes comprometidos por outros saudáveis, doados pelos senhores.

Solicitação atendida, a substituição genética foi realizada, eliminando possível problema futuro.

Ações dessa natureza já são executadas com sucesso em experiências com cobaias. Nas próximas décadas constituirão rotina em seres humanos.

E mais: com o avanço do conhecimento sobre o comportamento das células-tronco, coringas celulares, futuramente será possível reconstituir órgãos comprometidos por doenças graves e até mesmo substituir membros amputados.

Diante desses avanços da ciência médica, a grande dúvida:

Como fica a Lei de Causa e Efeito, que dá a cada um segundo suas obras, conforme ensinava Jesus, atendendo a objetivos educativos?

Aprendemos com o Espiritismo que Deus não joga dados com seus filhos. Atendendo a planejamento ou dentro do automatismo reencarnatório, a combinação de elementos hereditários atende aos nossos compromissos de resgate.

Não é por mera falha genética que o Espírito reencarna com tendência a graves problemas respiratórios ou outro qualquer.

A Medicina jamais alcançará o prodígio de neutralizar os princípios de ação e reação que regem nossa evolução.

O que sempre fará, agente da Misericórdia Divina, será amenizar os males decorrentes de nosso comprometimento com vícios, maldades, desregramentos…

Os registros cármicos residem no Espírito. O corpo é apenas o reflexo, e as enfermidades mais graves funcionam como válvulas de escoamento das impurezas espirituais adquiridas quando enveredamos por caminhos tortuosos, contrariando as Leis Divinas.

Se uma “válvula” é substituída, outras surgirão, ante a pressão interna da culpa. A Medicina, portanto, por maiores sejam seus avanços, estará sempre cuidando de efeitos, males que se sucederão até que o Espírito se purifique por inteiro, livrando- se de mazelas e imperfeições.
O ponto de partida para essa depuração definitiva começa quando o indivíduo atinge a maturidade necessária, a favorecer um comportamento disciplinado, disposto a exercitar o bem, sem aberturas para o mal, sob inspiração dos valores cristãos.

Quando o Evangelho, o Código do Amor Divino, for observado em plenitude em todas as latitudes e longitudes, chegará o momento em que a Humanidade estará depurada e ajustada aos desígnios celestes.

Nesse futuro longínquo, porém inexorável, desaparecerão as doenças e as pessoas viverão na Terra cumprindo a programação biológica para a raça humana, de oitenta a cem anos.

A morte não ocorrerá por doença degenerativa ou desgaste prematuro do corpo. Virá suavemente pelo esgotamento das energias vitais, desencarne tranquilo e retorno feliz à vida espiritual.

Sem dúvida, há longa caminhada até essa gloriosa realização, mas todos chegaremos lá, porquanto essa é a vontade de Deus, que não falha jamais em seus objetivos.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A força da psicologia pré-natal



O pequeno Olivier tem apenas dois meses, mas já enfrenta a angústia de se ver no meio de uma decisão dramática.
Sua mãe tem muitos filhos e, por não dispor de meios para criar mais um, decidiu doá-lo. O bebê aguarda numa instituição francesa a data legalmente estabelecida pela legislação do país para que a adoção seja feita.
O prazo de espera corresponde a um tempo definido pelas autoridades para que a mãe biológica possa mudar de ideia e voltar atrás em sua decisão, o que, no caso de Olivier, acaba não acontecendo.
Desde o momento em que foi considerado "adotável", começaram a aparecer sintomas estranhos no corpo do pequeno. Crostas impressionantes surgiram em seu rosto e couro cabeludo. A pele começou a descamar e as vias respiratórias, a chiar fortemente.
Por não conseguirem lidar com o novo quadro clínico do bebê, os médicos decidem chamar um psicanalista. É quando entra em cena Caroline Eliacheff, que vai mudar a existência de Olivier, no momento grave dos primeiros contatos dele com a vida.
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Este caso está narrado no livro Corpos que gritam¹. Eliacheff é uma das psicanalistas mais reconhecidas dentro de um movimento que há cerca de trinta anos vem mudando o perfil do tratamento de crianças em fase pré e pós-natal.
A psicanálise de bebês e de recém-nascidos tem crescido sobretudo na França. Além de Caroline, outros profissionais, que também integram o time de especialistas nessa abordagem diferenciada, são Myriam Szejer² e Catherine Druon na França, e Romana Negri, na Itália.
No Brasil, uma das maiores estudiosas do assunto é a psicóloga clínica polonesa Joanna Wilheim, que veio para o país ainda na infância com os pais, durante a Segunda Guerra Mundial. Seu interesse por psiquismo pré-natal começou na década de 1960. Nos anos seguintes, a partir de uma experiência pessoal com o psicanalista indiano Wilfred Bion, passou a investigar a presença de inscrições traumáticas pré-natais na mente de crianças, adolescentes e/ou adultos.
Seu interesse pelo tema levou-a a fundar, em 1991, a Associação Brasileira para o Estudo do Psiquismo Pré e Perinatal (ABREP). É autora do livro O que é Psicologia Pré-natal, no qual me baseio para escrever este artigo.
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A chamada psicanálise de bebês consiste em utilizar a palavra falada com recém-nascidos, quando estes manifestam algum tipo de sofrimento.
Nesta abordagem, o psicanalista procura apreender, através do relato que lhe fazem os pais ou aqueles que cuidam do bebê, o que em sua história - seja durante a vida intra-uterina, ou na história de sua família antes dele vir-a-ser - teria constituído as matrizes dos sintomas que ele apresenta.
Ao "conversar" com o bebê, o profissional dá nome à memória "instalada" no seu corpo. Como o que existe na vivência do recém-nascido é uma dor, o psicanalista coloca em seu lugar um significado, onde antes só existia o "não dito", uma "falta de palavras".
Entre os pressupostos mais importantes para a realização desse trabalho, estão a crença de que o corpo guarda a memória de tudo que lhe ocorre, de que cada célula do corpo registra toda a vivência pré e pós-natal, e que os recém-nascidos (incluindo prematuros) sentem dor e merecem ser respeitados em seus limites.
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A Doutrina Espírita ressalta a importância de se considerar a memória prévia do ser como estrutura fundamental de sua condição existencial. O "inconsciente" de Freud é a parte da atividade mental que inclui os desejos e as aspirações primitivas ou reprimidas.
O Espírito Joanna de Ângelis afirma que para a Psicologia Transpessoal esse inconsciente é o espírito, que se encarrega do controle da inteligência fisiológica e suas memórias - campo perispiritual -, as áreas dos instintos e das emoções, as faculdades e funções paranormais, abrangendo as mediúnicas.4
O Espírito André Luiz analisa essa questão com profundidade no livro No Mundo Maior,5 quando dialoga com o instrutor Calderaro. O Benfeitor explica que o ser humano tem, em sua constituição cerebral, como que um castelo com três regiões distintas, ou com três andares, para melhor entendimento: "[...] no primeiro [esclarece Calderaro] situamos a 'residência de nossos impulsos automáticos', simbolizando o sumário vivo dos serviços realizados; no segundo, localizamos o 'domicílio das conquistas atuais', onde se erguem e se consolidam as qualidades nobres que estamos edificando [no presente]; no terceiro, temos a 'casa das noções superiores', indicando as eminências que nos cumpre atingir [...]".
Calderaro esclarece que "[...] distribuímos, deste modo, nos três andares, o subconsciente, o consciente e o superconsciente. Como vemos, possuímos, em nós mesmos, o passado, o presente e o futuro".5 
Pode-se intuir com isso que o bebê efetivamente carrega em si, em suas células, em seu corpo, o que traz no Espírito imortal, ou seja, toda a sua carga de verdades pessoais que lhe evidenciam a evolução. Se a Ciência está se instrumentalizando para acessar esses dados, tanto melhor para todos, que ficarão face a face cada vez mais rapidamente com a verdade da pre-existência do Espírito e sua total influência nas condições de saúde do cropo, tanto no aspecto físico quanto no emocional.
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Olivier chegou para a consulta com Eliacheff nos braços da berçarista que cuidava dele. Depois de se inteirar mais a fundo do caso, a doutora disse a ele o quanto sua mãe lhe queria bem. Ressaltou que a opção que ela tomou de deixá-lo para adoção foi para oferecer-lhe oportunidades de vida melhores do que as que ela lhe poderia dar.
A terapeuta afirmou ainda que, para que ele fosse aceito pela sua família de adoção, precisava mudar de pele a fim de recuperar a saúde e iniciar uma nova etapa na vida.
Após uma semana desse contato, Olivier retornou ao atendimento. Sua pele estava totalmente curada, mas a respiração havia se tornado mais ruidosa do que antes. Caroline se dirigiu ao bebê, acariciando o seu umbigo e dizendo-lhe:
"- Quando você estava no ventre de sua mãe, você não respirava. Sua mãe o alimentava através da placenta à qual você estava ligado pelo cordão umbilical. Esse cordão chegava aí no lugar onde está a minha mão. ele foi cortado quando você nasceu. Você está respirando muito mal, talvez para reencontrar a sua mãe de antes da separação, quando você estava dentro dela e não respirava".
Depois de uma breve pausa, carregada de carinho e respeito pela condição do bebê, a psicanalista retomou a fala:
"- Se você decidiu viver, não pode viver sem respirar. A sua mãe de antes, você a traz dentro de si, dentro de seu coração. Não é por você ter respirado que a perdeu. Não é deixando de respirar que irá reencontrá-la".
Quando terminou sua fala, Eliacheff constatou, abismada, tanto quanto a berçarista, que a respiração do bebê estava absolutamente normalizada!
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Este tipo de relato reforça a profunda sintonia da Doutrina Espírita com as mais avançadas pesquisas da Ciência, sobretudo as que consideram a delicada questão da vida intra-uterina.
Em breve tempo, esperamos que os cientistas constatem que a memória, que por enquanto, para eles, "mora" no corpo, reside na verdade em local mais profundo, nas entranhas da constituição espiritual.
Ela tem sua matriz no Espírito e se espraia célula a célula, como impacto direto das emanações do perispírito.
Enquanto aguardamos o domínio dessa consciência, aplaudimos os avanços científicos da Psicologia, inegavelmente importantes para a Humanidade, em que se resgata a grandeza do momento de chegada do Espírito a uma nova encarnação.
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Referências:
¹  Eliacheff, Caroline. Corpos que gritam. São Paulo: Ed. Ática, 1995.
²  Wilheim, Joanna. O que é psicologia pré-natal. São Paulo: Ed. Casa do Psicólogo, 1997.
³ Szejer, Miriam. Palavras para nascer: a escuta psicanalítica na maternidade. São Paulo: Ed. Casa do Psicólogo, 1999.
4  Franco, Divaldo Pereira. Autodescobrimento: uma busca interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: Leal, 1995, p. 62.
5  Xavier, Francisco C.  No mundo maior. Pelo Espírito André Luiz. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 3, p. 54; e cap. 4.   

Fonte: Revista  Reformador, outubro/2008.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Suicídio, uma visão médica e espírita



“Só existe um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia.” – Albert Camus (1913-1960)

A afirmativa acima é do Prêmio Nobel de Literatura de 1957 e se encontra no livro O Mito de Sísifo, cujo tema central é o suicídio.1 Se essa proposição parece exagerada, em sua essência guarda verdades, que devem ser refletidas de forma séria e profunda. Não se pode negar que, se não é o único “problema filosófico verdadeiramente sério”, é um dos maiores, levando-nos a pensar em questões fundamentais como o sentido da vida humana e a continuação do existir.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou em setembro de 2014 um suplemento intitulado Preventing Suicide – a Global Imperative2 (em tradução livre, Prevenindo o Suicídio – um Imperativo Global). São as estatísticas mais recentes sobre o tema, referentes ao ano de 2012, as quais revelam a magnitude do problema. Naquele ano, 804 mil pessoas tiraram a própria vida, número que excede as vidas perdidas por homicídio e guerras juntos e equivale a uma morte a cada 40 segundos. Nesse número, obviamente, não são contabilizadas as tentativas, mas somente as mortes consumadas. Em termos de tentativas, tem-se uma a cada dois segundos.

Em números absolutos, o ranking dos países é liderado pela Índia, totalizando número superior a 258 mil mortes. O Brasil ocupa a preocupante oitava posição com quase 12 mil suicídios por ano, média de 24 mortes por dia. Outros dados importantes trazidos pela OMS indicam que se trata da segunda causa de morte entre pessoas na faixa etária de 15 a 29 anos, ou seja, jovens em idade produtiva. Os dados também revelam que 75 % de todos os suicídios de 2012 ocorreram em países pobres ou em desenvolvimento. Os números, assim, são imperativos em comprovar a importância do tema e de que se vive um verdadeiro problema filosófico e de saúde pública.

Mas afinal, por que tantas mortes? Por que as pessoas cometem suicídio? Os suicidólogos, especialistas no assunto, atestam que mais de 90% das pessoas que cometem suicídio são portadoras de algum transtorno mental, o qual seria possível ser diagnosticado e tratado. Na lista têm-se, em especial, os transtornos do humor (depressão e transtorno afetivo bipolar), abuso de substâncias ilícitas (álcool e drogas), transtornos de personalidade e esquizofrenia. Transtornos dessa natureza aumentam os índices de suicídio, sobretudo quando não há tratamento adequado. No entanto, não se deve esquecer uma das maiores chagas da Humanidade: o materialismo.

Os Espíritos Luminares, que sob a bandeira do Espírito de Verdade colaboraram na elaboração da Doutrina Espírita, indicam que a luta contra o materialismo é um dever e uma necessidade para a transformação moral da Humanidade. Allan Kardec, na Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, diz “que o materialismo, com o proclamar para depois da morte o nada, anula toda responsabilidade moral ulterior”.3 Despertar o ser para sua verdadeira essência, indicando sua natureza espiritual sujeita às Leis de Causa e Efeito e à Lei da Reencarnação, é tarefa das mais relevantes e que descortina um Novo Mundo e situa o Homem como sujeito do seu destino na construção da felicidade.

“A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio […]”.4 O Espiritismo, como Doutrina Consoladora, transforma a crença em saber, dizima as dúvidas e vence o materialismo, dando a conhecer as leis que regem o universo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo. A partir daí, foi e é possível conhecer as graves consequências de pôr fim à própria vida. O capítulo V, intitulado Suicidas, da segunda parte do livro O Céu e o Inferno,5 guarda importante material de estudo e desvenda o importante sofrimento post mortem.

O sofrimento vivenciado não é fruto de castigo divino, pois não existe esse artigo nas Leis Universais. É natural que o Espírito, ao se deparar com a realidade pós-túmulo e entender que a vida ainda “pulsa”, mergulhe nos abismos da própria consciência onde se encontram escritas as Leis de Deus.6 Transgredir as Leis de Deus é transgredir a própria natureza, causando assim profundo sofrimento moral. O Espírito percebe que a morte compreendida como extinção da vida não corresponde à verdade. A rigor, a morte está inserida nela e é a porta para o retorno à Pátria da qual saiu, voltou e sairá ainda na necessidade de evoluir sempre. Além disso, existem as consequências biológicas da complexa relação espírito-corpo, o qual, enquanto encarnado, se satura de fluido vital. Para que o desligamento ocorra por completo, o Espírito deve extinguir totalmente o fluido vital a fim de que possa dar continuidade à sua jornada como Espírito desencarnado. Em Memórias de um Suicida, psicografia de Yvonne A. Pereira, há o seguinte esclarecimento:

[…] Será preciso que se desagreguem dele [do suicida], as poderosas camadas de fluidos vitais que lhe revestiam a organização física, adaptadas por afinidades especiais da grande mãe natureza à organização astral, ou seja, ao perispírito, as quais nele se aglomeram em reservas suficientes para o compromisso da existência completa […].7

Daí as profundas e graves impressões sofridas pelo Espírito vinculado ainda ao corpo [1]físico por ter atentado contra a própria vida de forma violenta. São repercussões de ordem magnética que impactam o envoltório sutil do Espírito ou corpo espiritual, ou seja, o perispírito. Dado que tal envoltório corresponde à matriz biológica formadora do corpo físico, pode haver implicações futuras. Dificuldades no intercurso existencial e em encarnações posteriores, gerando limitações físicas e psíquicas não são incomuns. Entram em ação as Leis de Causa e Efeito na necessidade de reparar equívocos através da dor, maior aliada do processo evolutivo.

Eis o que afirma Léon Denis: “Fundamentalmente considerada, a dor é uma lei de equilíbrio e educação” e, assinala ainda, “necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condições do progresso”.[2] Porém, em nenhum momento, o Espírito em sofrimento é abandonado à própria sorte. As Leis de Deus agem sempre a favor do Espírito imortal, acolhendo-o e aliviando suas dores para que possa progredir com confiança e fé em si mesmo e no Pai de infinita misericórdia. Assevera  Jesus: “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. […] pois que é deles o Reino dos Céus”. (Mateus, 5:4, 6 e 10.)

A espiritualidade e a religiosidade são as ferramentas mais eficazes de prevenção ao suicídio e também as mais consoladoras. A Ciência caminha nessa direção e são inúmeras as pesquisas indicativas de menores taxas e atitudes mais negativas em relação a esse ato.[1] A data de 10 de setembro, indicada pela OMS, corresponde ao Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Seja ela um momento de reflexão para todos e, igualmente, de alçar uma prece em favor desses Espíritos em sofrimento, buscando a figura meiga do Nazareno…

[…] Desci, mas desci muito aos reinos inferiores…

Despertando no túmulo, escutei Os gritos da aflição de alguém que muito amei E que muito amo ainda… […] um amigo não esquece a dor de outro amigo que cai… Antes de me altear à Celeste Alegria, Ao sol do mesmo amor a Deus, em que te enlevas, Vali-me, após a cruz, das grandes horas mudas,
E desci para as trevas, A fim de aliviar a imensa dor de Judas.

O trecho acima do poema Amor e perdão, de Maria Dolores, psicografia de  Francisco  Cândido  Xavier,  descreve o diálogo do Mestre de Nazaré e  Maria Madalena após o histórico dia do Calvário.[2] O Cristo, nos três dias que antecederam a “ressurreição”, buscou Judas, seu amigo amado, após o ato impensado do suicídio…

Jesus nunca nos esquece!

REFERÊNCIAS:
[1]PIMENTA, Danilo. A postura camu-siana perante o suicídio físico. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 22, n. 3, p. 281-288, jul./set. 2012.
[2]Preventing suicide: a global imperative. 2014
[3]KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2015. Introdução, it. IV, Resumo da doutrina de Sócrates e Platão, subit. 9.
[4]____. Cap. 5, it. 16.
[5]O céu e o inferno. Trad. Guillon Ribeiro. 61. ed. 2. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2015. pt. 2, cap. 5.
[6]KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 2. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2016. Q. 621.
[7] PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um suicida. Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho. 27. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2016. Cap. Vale dos suicidas, p. 27.
[8] DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 32. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2015. Cap. 26, p. 347-348.
[9] KOENIG, Harold. Espiritualidade no cuidado com o paciente. São Paulo: FE Ed., 2005. Cap. 1, p. 21.
[10] XAVIER, Francisco C. Coração e vida. Pelo Espírito Maria Dolores. São  Paulo: Ideal, 1994. Cap. 14.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Terra espera; Arai!


A Terra Espera; Arai!
José Carlos da Silva Silveira


Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai!
Erasto



No capítulo XX de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec - Os Trabalhadores da Última Hora -, destacamos uma mensagem, assinada pelo Espírito Erasto, de alto significado para o Movimento Espírita. Trata-se do texto intitulado Missão dos espíritas, que trazemos a estas páginas, para reflexão.

A mensagem em referência traça o programa a ser desenvolvido pelos espíritas, com vistas à divulgação do Espiritismo, ressaltando o momento presente de transformação moral do Planeta como oportunidade inigualável para a realização dessa tarefa. Erasto sintetiza-o usando de magnífica imagem, que expressa vibrante convocação: Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai!

Esse programa de ação se desdobra em três aspectos. O primeiro deles se patenteia na expressão o arado está pronto.

O arado é aparelho usado para arar a terra, a fim de prepará-la para receber a semente. Em nossa tarefa de divulgação da Doutrina Espírita, o arado pode ser entendido como os instrumentos que possuímos, ou detemos, para agir. São os nossos conhecimentos, as nossas experiências, as nossas disponibilidades, às nossas aquisições intelectuais e morais, as nossas possibilidades materiais e sociais, enfim, todos os talentos de que dispomos, convidando-nos, incessantemente a servir.

O arado está pronto. Assim é porque a Doutrina Espírita vem, ao longo do tempo, educando-nos para compreender a vida sob um novo prisma: o do espírito. Sob esse enfoque, possuímos já condições de usar os nossos talentos tendo em vista o bem geral e não apenas os nossos interesses pessoais, enquadrando-nos, assim, dentro dos parâmetros definidos por Karde para o verdadeiro espírita - aquele que se reconhece pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más. Dessa forma, para a ação que nos compete, falta-nos tão-somente um elemento: o exercício da nossa vontade. Daí apressar-se Erasto a concitar: Mãos à obra!, recordando Jesus, quando afirmou: Ni8nguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus. (Kycasm 9:62.)

Com efeito, é preciso pôr mãos à obra:

Não escutais já o ruído da tempestade que há de arrebatar o velho mundo e abismar no nada o conjunto das iniquidades terrenas? Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres.

Não vos assusteis! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Ó verdadeiros adeptos do Espiritismo!... sois os escolhidos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados. (Erasto, Missão dos Espíritas.)

O segundo aspecto do programa vem descrito pela expressão a terra espera.

De fato, a terra espera a semente, pois é nela que esta deve germinar. Consoante ensina Jesus, na Parábola do semeador, mesmo a terra improdutiva pode receber a semente. Compete, porém, ao agricultor, quando necessário, preparar previamente a terra, para que a semente aí lançada tenha condições de germinar e dar frutos. De igual sorte, a Humanidade anseia por ensinamentos que a despertem ou estimulem para o progresso moral. Principalmente nos dias atuais, em que o Planeta está prestes a entrar em novo estágio evolutivo, vê-se uma carência generalizada de espiritualidade. Os homens desejam novos rumos para a sua vida, embora muitas vezes não saibam o que fazer para descobri-los. Assemelham-se, em tudo, à terra, segundo descrito na Parábola do semeador, encontram-se na expectativa de algo novo que os possa guiar por caminhos menos íngremes na busca de horizontes espirituais mais amplos; entretanto, enfrentam dificuldades para a recepção dos ensinos superiores, por não serem, ainda, em grande parte, maduros para compreendê-los. Como proceder, então, para preparar a terra dos corações humanos de modo que se torne, de alguma forma, receptiva aos ensinos do Espiritismo? Erasto aponta o caminho a seguir, descerrando-nos o terceiro aspecto do seu programa de ação: "arai!". A propósito, explica:

Ide e pregai. (...) Certamente falareis a criaturas que não quererão escutar a voz de Deus, porque essa voz as exorta incessantemente à abnegação. Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos como aos déspotas! Palavras perdidas, eu o sei; mas não importa. Faz-se mister regueis com os vossos suores o terreno onde tendes de semear, porquanto ele não frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e da charrua evangélicas. Ide e pregai!


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A fé é a virtude que desloca montanhas (...). Todavia, mais pesados do que as maiores montanhas, jazem depositados nos corações dos homens a impureza e todos os vícios que derivam da impureza. Parti, então, cheios de coragem, para removerdes essa montanha de iniquidades que as futuras gerações só deverão conhecer como lenda (...).

Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque, principalmente entre os mártires do trabalho, desta provação terrena, encontrareis fervor e fé.

Assim, é preciso [i]ir e pregar,[/i] não medindo esforços para que a Doutrina Espírita seja devidamente compreendida por todos.

A tarefa não é fácil. Mas, se o arado está pronto, e se a terra espera, o que nos compete é arar, pois, só assim, colheremos:

Um arado promete serviço, disciplina, aflição e cansaço; no entanto, não se deve esquecer que, depois dele, chegam semeaduras e colheitas, pães no prato e celeiros guarnecidos. (Emmanuel, Pão Nosso, ed. FEB, cap. 3)

Torna-se necessário, contudo, tomarmos as devidas precauções, a fim de que o trabalho atinja dos resultados propostos pelos Espíritos Superiores. Nesse contexto, urge atentar para o real sentido das palavras de Erasto, quando comanda: Ide e pregai.

Em verdade, esse chamamento não se circunscreve à tarefa da divulgação do Espiritismo por meio da palavra, sob quaisquer das suas modalidades. Esse ponto Erasto apresenta, com extrema nitidez, na parte final da sua mensagem, in verbis:

Ide e agradecei a Deus a gloriosa tarefa que Ele vos confiou; mas, atenção! entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai, pois, o vosso caminho e segui a verdade.


Pergunta. - Se, entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho?

Resposta. - Reconhecê-lo-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-lo-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-lo-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-lo-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de Sua lei, os que seguem Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição.


Vê-se, claramente, nas palavras acima reproduzidas, que a exemplificação dos ensinos espíritas é a real garantia da correta divulgação do Espiritismo. E isso se torna perfeitamente lógico quando se compreende o valor da força do exemplo no processo de atração dos Espíritos, em quaisquer graus evolutivos em que estagiem.

Isto posto, poderíamos, com base na mensagem sob estudo, relacionar algumas qualidades morais necessárias aos espíritas para o bom êxito do seu trabalho na divulgação do Espiritismo. São as seguintes: ter fé, ensinar e praticar a caridade; consolar os aflitos; amar o próximo; ter perseverança, abnegação e desinteresse pessoal; ser capaz de conquistar para o bem.

Evidentemente, a aquisição dessas qualidades não é trabalho de um dia, constituindo-se, de fato, em meta sublime a atingir, em nossas lutas evolutivas. Nada obstante, não se pode negar que, à medida que as vamos adquirindo, mais se nos enriquece a ação doutrinária, e mais se amplia a nossa convicção de que não estamos incluídos dentre aqueles que, chamados para o Espiritismo (...) se transviaram.

Por outro lado, a busca das qualidades em apreço fortalecerá a união dos espíritas, ampliando, pelos esforços de uma ação conjunta, as possibilidades de expansão do Espiritismo. É o que deflui das seguintes palavras do Espírito de Verdade, constantes na mensagem Os obreiros do Senhor, também inserida no capítulo XX de O Evangelho segundo o Espiritismo:


Aproxima-se o tempo em que se cumprirão as coisas anunciadas para a transformação da Humanidade. Ditosos os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade! Seus dias de trabalho serão pagos pelo cêntuplo do que tiverem esperado. Ditosos os que hajam dito a seus irmãos: "Trabalhemos juntos e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra", porquanto o Senhor lhes dirá: "Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra."


A precariedade, por ora, das nossas qualidades morais diante do grave compromisso assumido junto à Doutrina Espírita não afasta a possibilidade de sentirmos, desde já, a alegria e a paz advindas do cumprimento do nosso dever. Nesse sentido, encontramos belíssima página de Emmanuel - intitulada No Paraíso -, inserida na obra Pão Nosso, cap. 81. Na referida página, o abnegado benfeitor espiritual situa todo aquele que desperta para as verdades do espírito na posição do chamado bom ladrão, a quem Jesus promete a entrada imediata no paraíso. São dele as palavras seguintes:


Podemos apresentar-nos com volumosa bagagem de débitos do passado escuro, ante a verdade; mas desde o instante em que nos rendemos aos desígnios do Senhor, aceitando sinceramente o dever da própria regeneração, avançamos para região espiritual diferente, onde tudo jugo é suave e todo fardo é leve. Chegado a essa altura, o espírito endividado não permanecerá em falsa atitude beatífica, reconhecendo, acima de tudo, que, com Jesus, o sofrimento é retificação e as cruzes são claridades imortais.


Ainda, para finalizar esta reflexão em torno das considerações de Erasto, a respeito da missão dos espíritas, trazemos a lume outra instrução de Emmanuel bastante significativa para o entendimento deste assunto. Trata-se da mensagem Crê e Segue, contida também no livro Pão Nosso, cap. 180. Com toda a delicadeza do seu espírito de escol, leciona Emmanuel:


Se abraçaste, meu amigo, a tarefa espírita-cristã, em nome da fé sublimada, sedento de vida superior, recorda que o Mestre te enviou o coração renovado ao vasto campo do mundo para servi-Lo.

Não só ensinarás o bom caminho. Agirás de acordo com os princípios elevados que apregoas.

Ditarás diretrizes nobres para os outros, contudo, marcharás dentro delas, por tua vez.

Proclamarás a necessidade de bom ânimo, mas seguindo, estrada a fora, semeando alegrias e bênçãos, ainda mesmo quando incompreendido de todos.


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Ora e vigia.
Ama e espera.
Serve e renuncia.
Se não te dispões a aproveitar a lição do Mestre Divino, afeiçoando a própria vida aos seus ensinamentos a tua fé terá sido vã.

Ante o exposto, forçoso é convir na permanência do cumprimento do programa de ação delineado por Erasto, e que se alicerça na exemplificação da vivência espírita. Arai! - exorta o benfeitor espiritual -, porque a terra espera. Urge fazê-lo sem detença, porque o arado está pronto.

É pela perseverança no bem que atrairemos os nossos irmãos em humanidade para a excelência da proposta de vida que o Espiritismo descerra, preparando os seus corações para a germinação dos ensinos superiores, que frutificarão em alegria e paz, proporcionando, para eles e para nós, a colheita farta da felicidade sem mescla.


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Extraído da Revista Reformador   nº 2072, novembro/2001