Eternidade

Eternidade

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

União




ANTE o mundo moderno, em doloroso e acelerado processo de transição, procuremos em Cristo Jesus o clima de nossa reconstrução espiritual para a Vida Eterna.

Multipliquemos as assembléias cristãs, quais a desta noite, em que elevamos o coração ao altar da fé renovadora.

Em torno de nossas atividades religiosas, temos a paisagem de há quase dois mil anos...
Profundas transformações políticas assinalam o cominho das nações, asfixiantes dificuldades pesam sobre os interesses coletivos, em toda a comunidade planetária, e, cima de tudo, lavra a discórdia, em toda parte, desintegrando o idealismo santificante.

Este é o plano a que os nossos discípulos são chamados.
O momento, por isto mesmo, é de luz para as trevas, amor para o ódio, esclarecimento para a ignorância, bom ânimo para o desalento.

Não bastará, portanto, a movimentação verbalística.
Não prevalece a plataforma doutrinária tão somente.


Imprescindível renovar o coração, convertendo-o em vaso de graças divinas para a extensão das dádivas recebidas.
Espiritismo, na condição de mera fenomenologia, é simples indagação. Indispensável reconhecer, entretanto, que as respostas do Céu às perquirições da Terra nunca faltaram.
A Grandeza Divina absorve a pequenez humana em todos os ângulos de nossa jornada evolutiva.

Edificar um castelo teórico ou dogmático, onde a mente repouse à distância da luta constitui apenas fuga aos problemas – evasão delituosa de quem recebeu do Alto os dons sublimes do conhecimento para que a Benção do Senhor se comunique a todos os homens.

Esta, razão que nos compete ao chamamento novo.
A morte do corpo não nos desvenda os gozos do paraíso, nem nos arrebata aos tormentos do inferno.
Nós, os desencarnados, somos também criaturas humanas em diferentes círculos vibratórios, tão necessitados de aplicação do Evangelho Redentor, quanto os companheiros que marcham pelo roteiro carnal.

A sepultura não é milagroso acesso às zonas de luz integral ou da sombra completa. Somos defrontados por novas modalidades da Divina Sabedoria a se traduzirem por mistérios mais altos.
Transformemo-nos, meus amigos, naquelas “cartas vivas” do Mestre dos Mestres a que o Apóstolo Paulo se refere em suas advertências imortais.

Indaguemos, estudemos, movimentemo-nos na esfera científica e filosófica, todavia, não nos esquecemos do “amemo-nos uns aos outros” como o Senhor nos amou. Sem amor, os mais alucinantes oráculos são igualmente aquele “sino que tange” sem resultados práticos para as nossas necessidade espirituais.
Não valem divergências da interpretação nos setores da fé.
Estamos distantes da época em que os filhos da Terra se dirigirão ao Pai com idêntica linguagem, porquanto, para isto, seria indispensável a sintonia absoluta entre nós outros e o Celeste Embaixador das Boas Novas da Salvação.

Reveste-se a hora atual de nuvens ameaçadoras.
Não no iludamos . O amor ilumina a justiça, mas, a justiça é à base da Lei Misericordiosa.
O mundo atormentado atravessa angustioso período de aferição.
Irmanemo-nos, desse modo, em Jesus, para que a tormenta não nos colha, de surpresa, o coração.

Abracemos-nos na obra redentora a derrubar as fronteiras que separam os templos veneráveis uns aos outros.
Nossa época é de ascensão do homem à estratosfera, de intercâmbio fácil das nações e de avanço da medicina em todas as frentes, contudo, é também de lágrimas, reajustamento e luta.
Entrelacemos as mãos, no testemunho da luz e da paz que nos felicitam.
Lembremo-nos de que somos os herdeiros diretos da confiança e do amor daqueles que tombaram nos circos do martírio pro trezentos anos consecutivos.

Espiritismo sem Evangelho é apenas sistematização de idéias para transposição da atividade mental, sem maior eficiência na construção do porvir humano.
 


Trabalharemos, entretanto, quanto estiver ao nosso alcance, a fim de que o cristianismo redivivo prevaleça entre nós constitua patrimônio indesejável e inútil e para que, unidos fraternalmente, sejamos colaboradores sinceros do Mestre, sem esquecer-lhe as sagradas palavras: _ “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim”


Obra: Doutrina e Aplicação, pelo Espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Carta ao Leitor




Aprendemos com a Doutrina Espírita que o progresso dos seres é inevitável, pois que é estabelecido pela Lei Divina. Podemos postergar nossa evolução ou permanecer estagnados por longos períodos, mas jamais regredimos na escalada de aprimoramento espiritual.

Desta forma, Deus não exige de nós o despertamento para as questões éticas, morais e espirituais, tampouco nos pressiona para que arregacemos as mangas e comecemos a trabalhar.

Isso não representa, contudo, uma postura de omissão do Criador. Somos constantemente convidados a ingressar nas boas obras, nos mais diversos segmentos, mas nem sempre prestamos atenção às oportunidades ou, se as percebemos, fingimos ignorância e continuamos na inércia.

Por que isso ocorre? “Estipulamos algo, um pagamento, mesmo de forma inconsciente, proporcional àquilo que estamos fazendo. Vivenciar, pois, o altruísmo é algo difícil de ser verificado.”[1]

E não satisfeitos em esperar uma retribuição pelos serviços prestados, ainda exigimos que esta seja proporcional ao tempo dedicado no serviço do bem.

“Aportamos numa instituição e nos candidatamos a realizar trabalhos, abraçando um após outro, e às vezes verificamos que outro companheiro espírita realiza somente um e é ovacionado. Tal fato pode causar descontentamento.”[1]

Ao apresentar os trabalhadores da última hora no seu rol de ensinamentos, Jesus teve por objetivo destacar que o importante não é quando começamos, mas se começamos – e com sinceridade e devoção. 

“Às vezes estamos há décadas na Doutrina Espírita, mas ela não completou um ano em nossas vidas, enquanto outros adentraram há pouco e já a incorporaram plenamente.”[1]

Portanto, não podemos pensar que somos especiais. Neste mundo de provas e expiações estamos todos no mesmo estágio e somos todos trabalhadores da última hora, sendo insistentemente chamados ao trabalho no bem. Basta saber se realmente aceitamos o trabalho e se a mensagem que aprendemos ficará internalizada no coração.


1. Trecho extraído da matéria de capa desta edição: Os trabalhadores da última hora.

sábado, 3 de novembro de 2018

As relações humanas no Centro Espírita



Você não pode entrar numa casa espírita e passar despercebido. Não pode ser um anônimo, um ilustre desconhecido.

A casa espírita, antes de ser um hospital que atenua nossos males e dores; antes de ser uma oficina, que ocupa seus participantes, tornando-os pessoas úteis e operantes no fazer; antes de ser uma legião de assistência, que estimula a ação no bem – o ato espontâneo e despretensioso – na relação com o outro; antes de ser uma escola de almas, ensinando a viver, transformando, fazendo profilaxia, propiciando crescimento, ensejando o autoconhecimento e a auto-estima, é, acima de qualquer coisa, um lar, onde nos expressamos de modo familiar e com respeito; um espaço de convivência em que partilhamos as horas amargas e ditosas do dia a dia, entre a consolação e a iluminação da consciência. Onde o amor de Jesus conduz, com suave serenidade e célere pacificação, a verdade de Kardec.

Por tudo isso, tenhamos a mais plena atenção para com os que adentram o portal do centro espírita, a fim de que sejam vistos, notados e recepcionados. Tudo isso de maneira discreta, mas emocionada, como se fossem pessoas de nosso bem querer. Podemos abordá-los, cumprimentá-los com um aceno ou um aperto de mão, um sorriso leve nos lábios, com simpatia e ternura. Podemos perguntar a eles se é a primeira vez que vêm à casa espírita, se trazem dúvidas, por que vieram e por intermédio de quem, se conhecem outra casa e, por meio desse prévio contato, perguntar-lhes o nome e nos apresentarmos.

Em seguida, muitas atitudes poderemos tomar: atender suas expectativas, dúvidas ou dificuldades, e encaminhá-los para esta ou aquela reunião; apresentar-lhes o programa semanal da casa; apresentar-lhes as dependências e os companheiros da casa; fornecer-lhes dados sobre a filosofia espírita e, ainda, sobre a filosofia de trabalho da casa. Podemos transmitir-lhes alegria e conforto, convidando-os a sentarem-se, e estabelecer com eles um vínculo de amizade. A iniciação nas hostes espíritas deve ser um momento significativo, marcante, caloroso, afetuoso, de profunda e capital importância, posto que encerra o avançar dos umbrais da felicidade. Dizia Antoine de Saint’Exupery: “Você se torna eternamente responsável por aquilo que você cativa”. Desse momento em diante, esses novos amigos devem ser acolhidos, acompanhados, estimulados e orientados sempre que possível, até que eles se firmem, se informem, desenvolvam outros vínculos, conheçam outros companheiros, abracem uma tarefa, até integrarem-se em definitivo na grande família espírita, que é o movimento espírita.

Cada companheiro que cativamos na recepção de entrada do centro é alguém que sempre divulgará uma imagem de excelência da Doutrina Espírita. Por isso, é de extrema relevância amparar, consolar, conviver, se emocionar, enternecer-se, ouvir com o fundo d’alma, olhar, perceber e se ater a cada pessoa.

O relacionamento e o atendimento fraternos, bem como a comunicação social espírita, começam na primeira vez que alguém chega à casa espírita. Devemos investir todos os nossos talentos no companheiro iniciante. Devemos, inclusive, encaminhá-lo às reuniões públicas, já que a Doutrina Espírita tem por base o amor. Devemos transmitir a Doutrina Espírita com esse amor, percebendo os interesses desse companheiro, suas possibilidades, sua história de vida, sua compreensão anterior, o seu desconhecimento do Espiritismo, entendendo as deturpações e deformações que sofre pelo leigo.

Quem deverá recepcionar, atender fraternalmente, comunicar-se, encaminhar, iniciar e acompanhar cada companheiro iniciante? Todos os tarefeiros integrados na casa e imbuídos da filosofia de trabalho. Devem ser conscientizados desses passos, e por eles sensibilizados, motivados e trabalhados em seus sentimentos para cumprir, com qualidade, essa magna tarefa. Devemos nos lembrar, também, que o companheiro mais antigo, vez por outra, traz uma dúvida ou uma dor. Não podemos dar as costas para o companheiro que trabalha na casa, e esquecê-lo; também ele merece nossa atenção, e dela precisa. Se a Doutrina é de amor, o amor é de todos para todos. Queremos encerrar firmando a baliza de Kardec: “trabalho, solidariedade e tolerância”. Trabalhar com senso de compromisso, comprometidos com a casa como um todo, com a filosofia espírita que deve engendrar a filosofia da casa. Devemos ser solidários nas possibilidades e nas dificuldades, usando a sensibilidade, a percepção, o bom senso, estabelecendo uma relação de ajuda com os companheiros, sem rótulos, sem preconceitos, sem hierarquias, onde um é o ajudante e o outro o ajudado. Sejamos tolerantes nas diferenças e nas semelhanças, fazendo cumprir os ditames doutrinários de amor e instrução, entendendo que a melhor disciplina é a da consciência, de dentro para fora, e não inversamente, e o melhor regulamento é um contrato feito com todos os interessados, e que não deve ser vestido com camisa de força, mas com flexibilidade, atendendo ao contexto da situação, das pessoas, da atualidade, do entendimento evangélico. Receber bem não é agradar, simplesmente; é servir, de coração e mente, irmanados no propósito do bem.


*Escrito por Mozart da Cunha Leite - O autor é Presidente do 17o CRE/USEERJ
(Publicado no Dirigente Espírita no 64 de março/abril de 2001)
Fonte: Portal do Espírito