Fonte: FEB
Eternidade
sexta-feira, 18 de abril de 2014
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Velha Casa
Fomos ver a casa anunciada.
E nos demos conta
de que as casas, como as pessoas,
morrem.
Logo à entrada,
a cerâmica, arcaica,
mostrava como uns poucos anos
podem acumular o pó dos séculos.
Dentro, tapetes bordados a mão,
tipo casa-grande,
talvez portugueses,
bronzes antigos,
faianças,
vasos de plantas,
peças avulsas
de mobiliário nobre.
Tudo com a pátina,
a ronha,
a ferrugem,
o fungo,
o cuspo,
o vômito do tempo.
E, contudo,
podia-se sentir
—ainda! ainda!—
o amor que presidira
à feitura, à escolha,
à disposição
de tudo aquilo
em composições plásticas
de que emanava calor.
E no conjunto se multiplicava
da soma das peças o valor,
mercê da mais-valia
da poesia
e do amor.
Na parede da sala um retrato
lindo de mulher,
no escritório fotografias
de juventude,
contrastantes
com o bafio e o bolor.
Na casa abandonada
fizeram ninho vespas,
aranhas, mofo, enfim
a fauniflora do esquecimento,
solfejando morte, inferno e dor.
Ah! melancolia
de ver que nada somos,
nada valemos,
nada! Mas a lição
de que,
de tudo,
sobrevive,
só,
o que a alma tocou.
Anderson Braga Horta
In Pulso (2000)
sábado, 12 de abril de 2014
Fluido Cósmico
Fluído Cósmico
Plasma divino
O fluído cósmico é o plasma divino, hausto do Criador ou força nervosa do Todo-Sábio.
Co-criação em plano maior
Nessa substância original, ao influxo do próprio Senhor Supremo, operam as Inteligências Divinas a Ele agregadas, em processo de comunhão indestrutível, os grandes Devas da teologia hindu ou os Arcanjos da interpretação de variados templos religiosos, extraindo desse hálito espiritual os celeiros da energia com que constroem os sistemas da Imensidade, em serviço de Co-criação em plano maior, de conformidade com os desígnios do Todo-Misericordioso, que faz deles agentes orientadores da Criação Excelsa.
Essas Inteligências Gloriosas tomam o plasma divino e convertem-no em habitações cósmicas, de múltiplas expressões, radiantes ou obscuras, gaseificadas ou sólidas, obedecendo a leis predeterminadas, quais moradias que perduram por milênios e milênios, mas que se desgastam e se transformam, por fim, de vez que o Espírito Criado pode formar ou co-criar, mas só. Deus é o Criador de Toda a Eternidade.
Impérios estelares
Devido à atuação desses Arquitetos Maiores, surgem nas galáxias as organizações estelares como vastos continentes do Universo em evolução e as nebulosas intragalácticas como imensos domínios do Universo, encerrando a evolução em estado potencial, todas gravitando ao redor de pontos atrativos, com admirável uniformidade coordenadora.
É aí, no seio dessas formações assombrosas, que se estruturam, inter-relacionados, a matéria, o espaço e o tempo, a se renovarem constantes, oferecendo campos gigantescos ao progresso do Espírito.
Cada galáxia quanto cada constelação guardam no cerne a força centrífuga própria, controlando a força gravítica, com determinado teor energético, apropriado a certos fins.
A Engenharia Celeste equilibra rotação e massa, harmonizando energia e movimento, e mantem-se, desse modo, na vastidão sideral, magnificentes florestas de estrelas, cada qual transportando consigo os planetas constituídos e em formação, que se lhes vinculam magneticamente ao fulcro central, como os elétrons se conjugam ao núcleo atômico, em trajetos perfeitamente ordenados na órbita que se lhes assinala de início.
Nossa Galáxia
Para idearmos, de algum modo, a grandeza inconcebível da Criação, comparemos a nossa galáxia a grande cidade, perdida entre incontáveis grandes cidades de um país cuja extensão não conseguimos prever.
Tomando o Sol e os mundos nossos vizinhos como apartamentos de nosso edifício, reconheceremos que em derredor repontam outros edifícios em todas as direções.
Assestando instrumentos de longo alcance da nossa sala de estudo, perceberemos que nossa casa não é a mais humilde, mas que inúmeras outras lhe superam as expressões de magnitude e beleza.
Aprendemos que, além de nossa edificação, salientam-se palácios e arranha-céus como Betelgeuze, no distrito de Órion, Canópus, na região do Navio, Arctúrus, no conjunto do Boieiro, Antares, o centro do Escorpião, e outras muitas residências senhoriais, imponentes e belas, exibindo uma glória perante a qual todos os nossos valores se apagariam.
Por processos ópticos, verificamos que a nossa cidade apresenta uma forma espiralada e que a onda de rádio, avançando com a velocidade da luz, gasta mil séculos terrenos para percorrer-lhe o diâmetro. Nela surpreenderemos milhões de lares, nas mais diversas dimensões e feitios, instituídos de há muito, recém-organizados, envelhecidos ou e vias de instalação, nos quais a vida e a experiência enxameiam vitoriosas.
Forças atômicas
Toda essa riqueza de plasmagem, nas linhas da Criação, ergue-se à base de corpúsculos sob irradiações da mente, corpúsculos e irradiações que, o estado atual dos nossos conhecimentos, embora estejamos fora do plano físico, não podemos definir em sua multiplicidade e configuração, porquanto a morte apenas dilata as nossas concepções e nos aclara a introspecção, iluminando-nos o senso moral, sem resolver, de maneira absoluta, os problemas que o Universo nos propõe a cada passo, com os seus espetáculos de grandeza.
Sob a orientação das Inteligências Superiores, congregam-se os átomos em colméias imensas e, sob a pressão, espiritualmente dirigida, de ondas eletromagnéticas, são controladamente reduzidas as áreas espaciais intra-atômicas, sem perda de movimento, para que se transformem na massa nuclear adensada, de que se esculpem os planetas, em cujo seio as mônadas celestes encontrarão adequado berço ao desenvolvimento.
Semelhantes mundos servem à finalidade a que se destinam, por longas eras consagradas à evolução do Espírito, até que, pela sobrepressão sistemática, sofram o colapso atômico pelo qual se transmutam em astros cadaverizados. Essas esferas mortas, contudo, volvem a novas diretrizes dos Agentes Divinos, que dispõem sobre a desintegração dos materiais de superfície, dando ensejoo a que os elementos comprimidos se libertem através de explosão ordenada, surgindo novo acervo corpuscular para a reconstrução das moradias celestes, nas quais a obra de Deus se estende e perpetua, em sua glória ativa.
Luz e Calor
Os mundos ou campos de desenvolvimento da alma, com as suas diversas faixas de matéria em variada expressão vibratória, ao influxo ainda dos Tutores Espirituais, são acalentados por irradiações luminosas e caloríficas, sem nos referirmos às forças de outra espécie que são arrojadas do Espaço Cósmico sobre a Terra e o homem, garantindo-lhes a estabilidade e a existência.
Temos, assim, a luz e o calor, que teoricamente classificamos entre as irradiações nascidas dos átomos supridos de energia. São estes que, excitados na íntima estrutura, despedem as ondas eletromagnéticas.
Todavia, não obstante tatearmos com relativa segurança as realidades da matéria, definindo a natureza corpuscular do calor e da luz, e embora saibamos que outras oscilações eletromagnéticas se associam, insuspeitadas por nós, na vastidão universal, aquém do infravermelho e além do ultravioleta, completamente fora da zona de nossas percepções, confessamos com humildade que não sabemos ainda, principalmente no que se refere à elaboração da luz, qual seja a força que provoca a agitação inteligente dos átomos, compelindo-os a produzir irradiações capazes de lançar ondas no Universo com a velocidade de 300.000 quilômetros por segundo, preferindo reconhecer, em toda a parte, com a obrigação de estudarmos e progredirmos sempre, o hálito divino do Criador.
Co-criação em plano menor
Em análogo alicerce, as Inteligências humanas que ombreiam conosco utilizam o mesmo fluido cósmico, em permanente circulação no Universo, para a Co-criação em plano menor, assimilando os corpúsculos da matéria com a energia espiritual que lhes é própria, formando assim o veículo fisiopsicossomático em que se exprimem ou cunhando as civilizações que abrangem no mundo a humanidade Encarnada e a Humanidade Desencarnada. Dentro das mesmas bases, plasmam também os lugares entenebrecidos pela purgação infernal, gerados pelas mentes desequilibradas ou criminosas nos círculos inferiores e abismais, e que valem por aglutinações de duração breve, no microcosmo em que estagiam, sob o mesmo princípio de comando mental com que as Inteligências Maiores modelam as edificações macrocósmicas, que desafiam a passagem dos milênios.
Cabe-nos assinalar, desse modo, que, na essência, toda a matéria é energia tornada visível e que toda a energia, originariamente, é força divina de que nos apropriamos para interpor os nossos propósitos aos propósitos da Criação, cujas leis nos conservam e prestigiam o bem praticado, constrangendo-nos a transformar o mal de nossa autoria no bem que devemos realizar, porque o Bem de Todos é o seu Eterno Princípio.
Compete-nos, pois, anotar que o fluído cósmico ou plasma divino é a força em que todos vivemos, nos ângulos variados da Natureza, motivo pelo qual já se afirmou, e com toda a razão, que "em Deus nos movemos e existimos".³
Uberaba, 15/1/58.
_________________________
³ Paulo de Tarso, em Atos, capítulo 17º, versículo 28. (Nota do Autor espiritual)
por André Luiz (Espírito) / Chico Xavier e Waldo Vieira
obra: Evolução em Dois Mundos.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
MEDIUNIDADE - Diretrizes de Segurança
07. Quais são os requisitos necessários aos médiuns que militam na tarefa mediúnica?
Raul - Percebendo que a mediunidade é uma faculdade mental, ela independe de o indivíduo ser nobre ou devasso. Sendo a mediunidade essa luz do espírito que se projeta através da carne, admitiremos também poder encontrá-la representando a treva do espírito que escorre através do soma. E exatamente por isso, percebemos que o médium deverá ajustar-se, quando deseje servir com o Cristo. Atrelado às forças do bem, ajustar-se ao esforço de vivenciar as lições evangélicas, renovando, gradativamente, os panoramas da própria existência, domando as inclinações infelizes, inferiores, elevando o padrão mental para que sua mentalização se dirija para o sentido nobre, fazendo-o cada vez mais vibrátil nas mãos das Entidades Felizes. Logo, os requisitos para o exercício da mediunidade no enfoque espírita serão o exercício da humildade, da humildade que não se converte em subserviência, mas que é a atitude de reconhecimento da grandeza da vida em face da nossa pequenez pessoal; o espírito de estudo, de apercebimento continuado das leis que nos regem, que nos governam. O médium espírita deverá estar sempre voltado para aumentar o seu patrimônio de conhecimento das coisas, dando-nos conta de que o Espírito da Verdade nos disse ser necessário o amor que assiste, que guarda, que renuncia, que serve, e, ao mesmo tempo, a instrução que de maneira alguma representará apenas o diploma acadêmico, mas que é esse engrandecimento do caráter, da inteligência, esse amadurecimento que, muitas vezes, o diploma não confere. Exatamente aí o médium deverá ater-se ao estudo, ao trabalho, à abnegação ao semelhante e nesse esforço estará logrando também subir a ladeira para conquistar a humildade.
Numa colocação feita pelo espírito Albino Teixeira, através de Chico Xavier, no livro Paz e Renovação¹, diz ele que o melhor médium para o mundo espiritual não é o que seja portador de múltiplas faculdades, mas é aquele que esteja sempre disposto a aprender e sempre pronto a servir.
08. O médium é responsável por toda e qualquer comunicação mediúnica?
Divaldo - Deve sê-lo, porque não é um autômato. Quaisquer comunicações que lhe ocorram são através do seu psicossoma ou perispírito. A conduta do médium é de sua responsabilidade e, graças a essa conduta, ele responde pela aplicação de suas forças mediúnicas.
É muito comum a pessoa assumir comportamentos contrários ao bom-tom e depois dizer que foram as entidades perniciosas que agiram dessa forma. Isso é uma evasão da responsabilidade, porque os espíritos somente atuam pelo médium, nele encontrando receptividade para as suas induções. É importante saber que o médium é responsável pela manifestação que ocorra através dele. Para que se torne um médium seguro, um instrumento confiável, é necessário que evolua moral e intelectualmente, na razão em que exercita a faculdade.
Gostaria de dar uma informação que nos transmitem os Amigos Espirituais: referem-se à seriedade com que as entidades que aqui trabalham estão encarando esse encontro ². Um dos fatores mais importantes para a divulgação da Doutrina Espírita, além do estudo sério, é a mediunidade na vivência, no comportamento dos médiuns. Porque os neófitos atraídos para a Doutrina vêm, invariavelmente, ansiosos pelos fenômenos e por soluções para problemas que eles não querem equacionar. A invigilância de alguns aprendizes do Espiritismo, trabalhando na mediunidade, responde pela deserção dos inseguros, pelos desequilíbrios na comunidade mediúnica. Esses Mentores estão empenhados em nos ajudar para o bom discernimento das nossas realizações.
Registro, outrossim, a presença de vários desses amigos que prosseguem colaborando, vivamente empenhados no trabalho de educação e de iluminação das almas. Eles hoje aqui capitaneados pelo espírito Dr. Camilo Chaves, que também convidou um número muito grande de antigos colaboradores da Doutrina Espírita nesta Cidade, tais como Pascoal Comanducci, Henriot, Bady Elias Curi, Dolores Abreu, professor Cícero Pereira, Virgílio Almeida, Célia Xavier, Schembri e outros trabalhadores afeiçoados ao bem, que se encontram empenhados em promover o Consolador em nossas vidas para que as mesmas sigam, por acréscimo de misericórdia, na direção de Jesus.
__________________________________
¹ Xavier, F. C. Paz e Renovação, diversos espíritos, cap. 34, 4ª ed., CEC, Uberaba-MG, 1979.
___________________________________
² Referência ao Simpósio sobre Mediunidade realizado pela Aliança Municipal Espírita de Belo Horizonte-MG e pela Associação Espírita Célia Xavier, da mesma cidade, nos dias 16 e 17 de junho de 1984, com a participação de Divaldo Franco e Raul Teixeira.
Fonte: Franco, Divaldo P. Teixeira, Raul J. Diretrizes de Segurança. Págs. 17-19. Frates, 2002.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
domingo, 6 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
O Velho e o Novo Testamento
Entre
o Velho e o Novo Testamento encontram-se diferenças profundas e
singulares, que se revelam, muitas vezes, como fortes contrastes ao
espírito observador, ansioso pelas equações imediatas da experiência
religiosa.
O Velho Testamento é a revelação da Lei. O Novo é a revelação do Amor. O primeiro consubstancia elevadas experiências dos homens de Deus, que procuravam a visão verdadeira do Pai e de sua Casa de infinitas maravilhas. O segundo representa a mensagem de Deus a todos os que O buscam no caminho do mundo.
Com o primeiro, o homem bateu à porta da morada paternal, perseguido pelas aflições, que lhe flagelavam a alma, atribulado com os problemas torturantes da vida. O Evangelho é a porta que se abriu, para que os filhos amorosos fossem recebidos. No Velho Testamento, a estrada é longa e, vezes sem conta, as criaturas humanas desfaleceram entre os sofrimentos e as perplexidades. No Novo, é a estrela da manhã espiritual, resplandecendo de amor infinito, no céu de uma nova compreensão.
No primeiro, é o esforço humano. O Evangelho é a resposta divina.
A Bíblia reúne o Trabalho Santificador e a Coroa da Alegria.
O Profeta é o Operário. Jesus é o Salário na Revelação Maior. Eis porque, com o Cristo, se estabeleceu o caminho, depois da procura torturante. E é por esse caminho que a alma do homem se libertará da Babilônia do mal, que sempre lançou o incêndio no mundo, em todos os tempos.
A Bíblia, desse modo, é o divino encontro dos filhos da Terra com o seu Pai. Suas imagens são profundas e sagradas. De suas palavras, nem uma só se perderá.
Um dia, no cimo do monte da redenção, os homens entregar-se-ão, de braços abertos, ao seu Salvador e a seu Mestre. Então, nessa hora sublime, resplandecerá, para todas as consciências da Terra, a Palavra de Deus.
O Velho Testamento é a revelação da Lei. O Novo é a revelação do Amor. O primeiro consubstancia elevadas experiências dos homens de Deus, que procuravam a visão verdadeira do Pai e de sua Casa de infinitas maravilhas. O segundo representa a mensagem de Deus a todos os que O buscam no caminho do mundo.
Com o primeiro, o homem bateu à porta da morada paternal, perseguido pelas aflições, que lhe flagelavam a alma, atribulado com os problemas torturantes da vida. O Evangelho é a porta que se abriu, para que os filhos amorosos fossem recebidos. No Velho Testamento, a estrada é longa e, vezes sem conta, as criaturas humanas desfaleceram entre os sofrimentos e as perplexidades. No Novo, é a estrela da manhã espiritual, resplandecendo de amor infinito, no céu de uma nova compreensão.
No primeiro, é o esforço humano. O Evangelho é a resposta divina.
A Bíblia reúne o Trabalho Santificador e a Coroa da Alegria.
O Profeta é o Operário. Jesus é o Salário na Revelação Maior. Eis porque, com o Cristo, se estabeleceu o caminho, depois da procura torturante. E é por esse caminho que a alma do homem se libertará da Babilônia do mal, que sempre lançou o incêndio no mundo, em todos os tempos.
A Bíblia, desse modo, é o divino encontro dos filhos da Terra com o seu Pai. Suas imagens são profundas e sagradas. De suas palavras, nem uma só se perderá.
Um dia, no cimo do monte da redenção, os homens entregar-se-ão, de braços abertos, ao seu Salvador e a seu Mestre. Então, nessa hora sublime, resplandecerá, para todas as consciências da Terra, a Palavra de Deus.
Emmanuel / Francisco C. Xavier
Obra: Coletâneas do Além
AUTO-FLAGELAÇÃO
"O
ser humano, em sua expressão fisiológica, pode ser comparado a uma
usina inteligente, operando no campo da vida em câmbio de emissão e
recepção. Toda vez que enlouquece na cólera ou na crueldade,
contrariando os dispositivos da Lei de Deus, que é amor, exterioriza
correntes de enfermidade e de morte, que, atingindo ou não o alvo de sua
intemperança, se voltam fatalmente contra ele mesmo, pelo princípio
inelutável da atração..."
"Meus amigos:
Embora não nos seja possível, por enquanto, apreciar convosco a
fisiologia da alma, como seria desejável, de modo a imprimir ampla
clareza ao nosso estudo, para breve comentário, em torno da flagelação
que muitas vezes impomos, inadvertidamente, a nós mesmos, imaginemos o
corpo terrestre como sendo a máquina da vida humana, através da qual a
mente se manifesta, valendo-se de três dínamos geradores, com funções
específicas, não obstante extremamente ligados entre si por fios e
condutos, de variada natureza.
O ventre é o dínamo inferior.
O tórax é o dínamo intermediário.
O cerebelo é o dínamo superior.
O primeiro recolhe os elementos que lhe são fornecidos pelo meio
externo, expresso na alimentação usual, e fabrica uma pasta aquosa,
adequada à sustentação do organismo.
O segundo recebe esse material e, combinando-o com os recursos
nutritivos do ar atmosférico, transmuta-o em líquido dinâmico.
O terceiro apropia-se desse líquido, gerando correntes de energia incessante.
No dínamo-ventre, detemos a produção do quilo.
No dínamo-tórax, presenciamos a metamorfose do quilo em glóbulo sanguíneo.
No dínamo-cerebelo, reparamos a transubstanciação do glóbulo sanguíneo em fluido nervoso.
Na parte superior da região cerebral, temos o córtex encefálico,
representando a sede do espírito, algo semelhante a uma cabine de
controle, ou a uma secretária simbólica, em que o <<eu>>
coordena as suas decisões e produz a energia mental com que governa os
dínamos geradores a que nos reportamos.
O ser humano, desse modo, em sua expressão fisiológica, considerado
superficialmente, pode ser comparado a uma usina inteligente, operando
no campo da vida, em câmbio de emissão e recepção.
Concentramos, assim, força mental em ação contínua e despendemo-la nos
mínimos atos da existência, através dos múltiplos fenÿmenos da atenção
com que assimilamos as nossas experiências diuturnas, atuando sobre as
criaturas e coisas que nos cercam e sendo por elas constantemente
influenciados.
Toda vez, contudo, em que nos tresmalhamos na cólera ou na crueldade,
contrariando os dispositivos da Lei de Deus, que é amor, exteriorizamos
correntes de enfermidade e de morte, que, atingindo ou não o alvo de
nossa intemperança, se voltam fatalmente contra nós, pelo princípio
inelutável da atração que podemos observar no imã comum.
Em nossas crises de revolta e desesperação, de maledicência e
leviandade, provocamos sobre nós verdadeira tempestade magnética que nos
desorganiza o veículo de manifestação, seja nos círculos espirituais em
que nos encontramos, ou, na Terra, enquanto envergamos o envoltório de
matéria densa, sobre a qual os efeitos de nossas agressões mentais,
verbais ou físicas, assumem o caráter de variadas moléstias, segundo o
ponto vulnerável de nossa usina orgânica, mas particularmente sobre o
mundo cerebral em que as vibrações desvairadas de nossa impulsividade
mal dirigida criam doenças neuropsíquicas, de diagnose complexa, desde a
cefalagia à meningite e desde a melancolia corriqueira à loucura
inabordável.
Toda violência praticada por nós, contra os outros, significa dilaceração em nós mesmos.
Guardemo-nos, assim, na humildade e na tolerância, cumprindo nossos
deveres para com o próximo e para com as nossas próprias almas, porque o
julgamento essencial daqueles que nos cercam, em verdade, não nos
pertence.
Desempenhando pacificamente as nossas obrigações, evitaremos as
deploráveis ocorrências da autoflagelação, em que quase sempre nos
submergimos nas trevas do suicídio indireto, com graves compromissos.
Preservando-nos, pois, contra semelhante calamidade, não nos esqueçamos
da advertência de nosso Divino Mestre no versículo 41, do capítulo 26,
das anotações do apóstolo Mateus: - "Orai e vigiai, para não entrardes
em tentação." Dias da Cruz"
(Do livro "Vozes do Grande Além", pelo Espírito Dias da Cruz, Francisco Cândido Xavier, 29/09/1955)
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Mediunidade e Aperfeiçoamento
A epopéia humana está repleta de personagens que contribuíram de forma decisiva para o progresso intelectual e moral da sociedade.
Cientistas notáveis abriram caminho para descobertas importantes;
Filósofos de grande expressão assinalaram a marcha humana com o brilho de sua inteligência;
Artistas inesquecíveis brilharam em sua genialidade;
Líderes de todos os matizes religiosos interpretaram as Leis Divinas.
Sem dúvida, é inquestionável a obra desses luminares, cada qual em sua área de atuação.
Todavia, à exceção do Cristo, nenhum deles transitou pelo mundo sem errar ou equivocar-se. Na condição de seres humanos, apresentaram, também, o seu lado fraco, por meio do qual a sombra, muitas vezes, conseguiu interpor-se à luz.
Se foi assim com eles, por que não seria com os médiuns?
De fato, uma vez despertos pela Doutrina Espírita, esforçamo-nos em realizar o melhor possível.
Iluminamos a mente com novos conhecimentos;
Educamos a força mediúnica;
Sublimamos os impulsos mais grosseiros;
E, por vezes, conseguimos oferecer algo que realmente beneficie nossos semelhantes.
Ainda assim, contudo, não estaremos imunes ao erro involuntário. Apesar do progresso realizado, todos carregamos, por dentro, o lado fraco que nos predispõe à sombra, ainda que busquemos a luz.
Nesse, é inclinação à maledicência;
Naquele, a vaidade;
Em outros, o orgulho.
Mal nos conhecemos por dentro. Estamos apenas no início da caminhada iluminativa, muitas vezes tateantes e inseguros, qual a criança no esforço dos primeiros passos.
Por essa razão, num instante de invigilância, é possível te surpreendas trilhando atalhos incertos, expondo-te a influências arriscadas, por ignorares o lado fraco que te fragiliza internamente.
Nestas circunstâncias, não desanimes nem te precipites.
Ajuda a ti mesmo retomando a rota do equilíbrio.
Em mediunidade, como em tudo na vida, quem pretende servir com proveito sabe transformar o erro em lição para seguir adiante.
Lamentar é inútil.
Desanimar é arriscado.
Só a ação consciente e espontânea te permitirá a reconciliação com a própria consciência, ensejando-te novas realizações no campo do bem.
Como espíritos imperfeitos, todos carregamos fragilidades internas, que muitas vezes ignoramos.
Como filhos de Deus, porém, também trazemos infinitas possibilidades de progresso que, identificadas pelo autoconhecimento e vitalizadas pela vontade, nos impulsionam sempre para frente, a fim de nos encontrarmos com a plenitude imperecível em nosso mundo interior.
Augusto
LEVY, Clayton. Mediunidade e Autoconhecimento.
O remédio salutar
O remédio salutar
"Confessai as vossas culpas uns aos outros,
e orai uns pelos outros para que sareis."
(Tiago, 5:16.)
A doença sempre constitui fantasma temível no campo humano, qual se a carne fosse tocada de maldição; entretanto, podemos afiançar que o número de enfermidades, essencialmente orgânicas, sem interferências psíquicas, é positivamente diminuto.
A maioria das moléstias procede da alma, das profundezas do ser. Não nos reportando à imensa caudal de provas expiatórias que invade inúmeras existências, sem suas expressões fisiológicas, referimo-nos tão-somente às moléstias que surgem, de inesperado, com raízes no coração.
Quantas enfermidades pomposamente batizadas pela ciência médica não passam de estados vibratórios da mente em desequilíbrio?
Qualquer desarmonia interior atacará naturalmente o organismo em sua zona vulnerável. Um experimentar-lhe-á os efeitos no fígado, outro, nos rins e, ainda outro, no próprio sangue.
Em tese, todas as manifestações mórbidas se reduzem a desequilíbrio, desequilíbrio esse cuja causa repousa no mundo mental.
O grande apóstolo do Cristianismo nascente foi médico sábio, quando aconselhou a aproximação recíproca e a assistência mútua como remédio salutares. O ofensor que revela as próprias culpas, ante o ofendido, lança fora detritos psíquicos, aliviando o plano interno; quando oramos uns pelos outros, nossas mentes se unem, no círculo da intercessão espiritual, e, embora não se verifique o registro imediato em nossa consciência comum, há conversações silenciosas pelo "sem fio" do pensamento.
A cura jamais chegará sem o reajustamento íntimo necessário, e quem deseje melhoras positivas, na senda de elevação, aplique o conselho de Tiago; nele, possuímos remédio salutar para que saremos na qualidade de enfermos encarnados ou desencarnados.
Emmanuel / Francisco C. Xavier
obra: Vinha de Luz
quarta-feira, 2 de abril de 2014
A boa parte - Tema 3 - (Na Seara do Mestre)
"E aconteceu que, indo Jesus de caminho, entrou numa aldeia, hospedou-se ali, em casa
de certa mulher chamada Marta. E esta tinha uma irmã por nome Maria, a qual assentada
aos pés do Senhor, ouvia atentamente a sua palavra. Marta, porém, andava muito afadigada
na contínua lida da casa, e, chegando-se a Jesus, disse: Senhor, a ti não se te dá que minha
irmã me deixasse só a servir? dize-lhe, pois, que me ajude.
E, respondendo, o Senhor retrucou: Marta, Marta, tu andas muito inquieta e te embaraças
com o cuidar de muitas coisas; entretanto, poucas são necessárias, ou antes uma só: Maria
escolheu a boa parte, que lhe não será tirada." (Evangelho)
A maneira pela qual Jesus revidou o queixume de Marta, a propósito da atitude de Maria, sua irmã, encerra uma lição de extraordinário alcance, vazada em linguagem repassada de doce singeleza e profunda sabedoria.
O que se passou no seio humilde daquele lar, onde Jesus se hospedara, é o que se passa no cenário humano, na vida social. De que se queixou Marta? Dos múltiplos afazeres que tinha diante de si, alegando a indiferença com que sua irmã os encarava, deixando entregue somente a ela o desempenho dos mesmos.
O Mestre, ouvindo a reclamação da Marta, assim se pronunciou: "Marta, Marta, andas preocupada com muitas coisas; no entanto, poucas são necessárias, ou, antes, uma só. Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada." De fato, Maria, vivendo na esfera do idealismo que lhe caracterizava a individualidade, tinha a mente e o coração presos à magia do verbo divino, cujo encantamento a seduzia, a ponto de lhe passarem despercebidos aqueles cuidados e amanhos domésticos que, a Marta, tanto preocupavam. Com prazer e máxima naturalidade, deixava-se embevecer na íntima contemplação do maravilhoso panorama espiritual da vida, descrito pelo sublime Artista do bem e do belo. Era esse o seu temperamento. Faltava-lhe aquilo que o mundo denomina de - senso prático. As pessoas em tais condições são tidas como visionárias e sonhadoras, destituídas daquele espírito utilitário, considerado fator imprescindível de êxito em todas as empresas e cometimentos a que os homens se entregam neste meio. Não obstante, Jesus, discordando deste critério, assevera que Maria havia escolhido a boa parte, isto é, havia acertado no emprego do seu tempo e das suas faculdades, enfronhando-se e instruindo-se acerca dos problemas espirituais.
E, como sempre, a razão está com o Excelso Mestre. Adotando a política utilitarista na conquista do seu bem-estar e felicidade, que têm os homens, até hoje, conseguido, senão decepções na vida terrena? Que obtiveram, até o presente, senão agravá-las cada vez mais? Acaso, já lograram algum êxito no que respeita às questões do pão para a boca, da paz e da ordem, da pobreza e da indigência, do vício e do crime, da enfermidade e da dor? Se ainda não solucionaram esses casos de ordem material e terrena, como chegarão a possuir a felicidade que tanto almejam?
Dirão, talvez, que muito progresso tem alcançado a Humanidade na zona positiva e concreta dos sentidos, e muitos problemas já foram resolvidos pela ciência materialista. Mas, de que serve esse surto unilateral de progresso, quando as questões capitais, que acabamos de enumerar, ainda estão de pé, reclamando providências, desafiando a capacidade e o saber dos entendidos do século, desses que orientam, inspiram e dirigem os povos e as nações?
Os homens lograram quase suprimir as distâncias geográficas que os separam, graças aos seus caminhos de ferro, aos seus transatlânticos e aviões. Não obstante, nunca estiveram tão desunidos, como nos tempos que correm.
Criaram laboratórios, onde se examina a terra, corrigindo artificialmente, as suas deficiências, conseguindo assim aumentar a sua fertilidade, de modo a dobrar e triplicar a produção. No entanto, jamais pereceu, à mingua de pão, tanta gente, como na atualidade.
A ciência econômica atingiu, dizem, desenvolvimento assinado. Os economistas proclamam, das cátedras, os milagres das suas teorias. A despeito disso, o problema da distribuição da riqueza constitui hoje o principal pomo de discórdia, o elemento fomentador por excelência da guerra mais brutal e cruenta que as páginas da história humana têm registrado.
A medicina, a seu turno, magnificamente aparelhada, com seus laboratórios, suas especializações, instrumentais e pomposas instalações, ainda se mantém inânime e inócua diante de moléstias ceifadoras de vidas, em todas as idades, tais como a tuberculose, a lepra, o câncer, a lues, etc. A ciência do direito, por sua vez, não conseguiu eliminar dos hábitos e costumes vigentes o arbítrio e a violência; e, relativamente à criminalidade, culminou na cadeira elétrica, na forca e no fuzilamento dos anormais, como processo de eliminar o crime. Assim, sucessivamente, verificamos que, em realidade, as ciências, divorciadas do espírito, não melhoraram o mundo. A vida, tal como ora transcorre neste orbe, com suas múltiplas complicações, com seus inumeráveis confortos, com seu luxo e dinamismo, longe de proporcionar o ambicionado bem-estar, a desejada alegria de viver, torna-se, antes, enervante, desassossegada, indesejável.
As conquistas intelectuais, desacompanhadas do controle moral, produzem mais malefícios que benefícios. A ciência sem consciência fica a serviço da destruição e do aniquilamento dessas mesmas obras de que os homens se ufanam, apresentando-as como expoentes da sua civilização.
Verdadeiramente, porém, não há sombras de civilização numa sociedade onde o direito da força a todos ameaça a cada instante; onde a maior soma de atividade da inteligência humana e dos recursos econômicos são empregados no fabrico de material bélico e nos engenhos diabólicos, cuja finalidade é atacar e destruir para submeter e escravizar; onde os homens se entredevoram como feras na disputa da presa; onde, finalmente, viceja e prolifera a hipocrisia, a felonia e o paganismo disfarçado em sentimento religioso.
Como vemos, pois, os fatos aí estão confirmando nossa assertiva. É tempo de meditarmos nas palavras de Jesus: poucas coisas são necessárias, ou, antes, uma só. O mundo vem desprezando esta única coisa necessária, tratando de criar e coordenar todas as demais. Dessa inversão fatal, resultou o estado caótico em que a Humanidade se debate.
As necessidades da existência, sob seu aspecto puramente material, são infinitas, de vez que se desdobram e se multiplicam à medida que vão sendo satisfeitas. O egoísmo é insaciável. Gratificar os sentidos através da satisfação dos desejos é algo semelhante a encher o célebre tonel das Danaides, tonel que não tinha fundo.
As necessidades reais são, como disse Jesus, poucas, resumindo-se numa só, expressa no conhecimento da verdade por ele revelada ao mundo. Essa verdade é luz. Quem a possui não precisa tatear nas trevas, à procura do caminho da vida. As diretrizes delineadas e empreendidas às escuras são, forçosamente, incertas, inseguras e mesmo arriscadas e perigosas. Tais são aquelas que, até aqui, os homens têm traçado e seguido; daí as suas decepções e a sua ruína.
De que serve aos homens se aproximarem geograficamente, se as causas de separação que os infelicitam permanecem cada vez mais acirradas pela cobiça, pelo despeito, pelas rivalidades e pelo ódio? De que serve multiplicar o pão para o corpo, se o espírito permanece faminto daquele pão que desceu do céu, do qual quem come nunca mais tem fome? O espírito, privado desse alimento e da iluminação interior da consciência moral, jamais encontrará o senso da vida, que é a chave da felicidade presente e futura.
De que servem as tentativas e o esforço para curar o corpo, quando a alma está enferma? A moléstia desta afetará sempre aquele. Não pode haver corpo são, com alma doente. A cura há de vir de dentro para fora, do interior para o exterior, tal como se observa na cicatrização dos ferimentos e das chagas.
De que servem as legislações e os processos do Direito, se os homens usam e abusam da força, empregando a violência para dirimir suas questões? Se o ouro continua sendo o ácido dissolvente do caráter e o corrosivo que destrói as fibras da dignidade?
De que serve o crescente aumento dos valores econômicos, diante da carência, da indigência cada vez mais acentuada dos valores morais?
Como extinguir o vício e o crime, quando esse mesmo vício e esse mesmo crime são tolerados, justificados e até mesmo encarecidos sempre que se apresentam envoltos no manto diáfano da hipocrisia e das mentiras convencionais?
De que serve, finalmente, cercar o corpo de todos os cuidados, prodigalizando-lhe confortos, comodidades e caprichos, quando o espírito permanece desprezado e desprovido daquilo de que mais carece: verdade, justiça e amor? O corpo coberto de púrpura e vestido de linho finíssimo, banqueteando-se esplendidamente todos os dias, como aquele rico egoísta da parábola, e a alma esfarrapada, maltrapilha e faminta - tal a imagem fiel dessa decantada civilização de que os homens do século se desvanecem e se jactam. Talvez, por isso mesmo, essa civilização periclita, oscilando em suas bases, erguidas sobre a areia. Sua ruína é certa, como é certa e fatal a desagregação do corpo no seio da terra. Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
O mundo se salvará, iniciando a obra da verdadeira civilização cristã, que, digamos de passagem, nunca existiu na Terra - quando os homens, como Maria, escolherem a boa parte, a qual não lhes será tirada, e sob cuja influência transformarão os usos e costumes, varrendo da nossa sociedade a impostura, a violência e a fascinação corruptora do ouro, implantando, em nome do Senhor, o reino da justiça, do amor e da verdade, que é o reino de Deus, por ser o reino do Espírito. Essa parte, ou seja, esse reino permanecerá porque foi levantado sobre os alicerces inamovíveis das realidades básicas da vida. As demais organizações serão, como têm sido, instáveis, efêmeras e precárias, porquanto foram erguidas sobre o terreno movediço e falso das ilusões materialistas. O materialismo, mesmo quando mascarado de espiritualidade, jamais oferecerá condições de estabilidade e segurança.
O critério humano afirma-se mais e melhor pelo diapasão de Marta, que pelo de Maria. Apesar de irmãs, elas constituem dois tipos e dois temperamentos distintos, cada uma manifestando-se dentro do respectivo grau evolutivo em que se encontra. Ambas veneravam o Divino Mestre. Cada uma, porém, o queria a seu modo. Marta o amava como o Filho de Deus que veio remir a Humanidade pecadora.
Para Maria, porém, o verbo amar não tinha modos nem tempos. Ela amava o Senhor fora de todas as restrições do tempo e do meio. Ela o amava infinitamente.
Marta era o tipo da mulher criteriosa e prudente. Agia sempre inspirada pela fé e pelo bom senso que a caracterizavam. Maria era uma idealista incorrigível, uma sonhadora cuja mente e cujo coração pairavam nas regiões alcandoradas dum céu sem horizontes. Seu amor pelo Divino Mestre não era filial como o de João Evangelista; não era fraterno como o de Marta e dos apóstolos; não se assemelhava, enfim, a nenhuma forma de afeição terrena. Era simplesmente amor - amor incondicional, amor irrestrito, amor isento de convenções, amor sem qualificativo, porque incompreensível, e, portanto, indefinível pela linguagem dos homens.
Aprendamos, pois, com Maria, a escolher a boa parte, que não nos será tirada, isto é, aquela parte que transportaremos conosco além do túmulo.
Será isso um sonho, uma ilusão? Não importa; lembremo-nos de que há sonhos que se convertem em realidades futuras; e há realidades presentes que se transformam, posteriormente, em sonhos e mesmo em pesadelos.
Fonte: do livro "Na Seara do Mestre", por Vinícius, pgs. 118-127.
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