Eternidade

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sobre a sede da memória e a não perenidade do Perispírito



Extraído do livro O Perispírito e suas Modelações, por Luiz Gonzaga Pinheiro.



Neste capítulo o perispírito será tratado (para efeito didático) da maneira como Kardec o descreveu; como se fosse um cartucho fluídico único e compacto, embora saibamos que ele vai se desmaterializando com a evolução do Espírito, perdendo capas grosseiras, qual cebola quando se vai retirando sucessivas camadas.

Admitimos a existência de um corpo mental que precede o perispírito e cujas linhas de força orientam a sua formação e manutenção; todavia, insistimos em dizer que neste capítulo, perispírito representa todo o conjunto de revestimentos do Espírito, razão pela qual, perca ele todos esses envoltórios restando apenas um deles, sumamente etéreo, ainda será o perispírito. Visto este detalhe, passemos à opinião de alguns pensadores espíritas, sem a preocupação de aprofundamento ou sequência:


Gabriel Delanne: “A memória não reside no cérebro; está contida no perispírito”. – Reencarnação.

Emmanuel: “É ainda pois, ao corpo espiritual que se deve a maravilha da memória, chapa fotográfica, onde tudo se grava, sem que os menores coloridos das imagens se confundam entre si”. – Dissertações Mediúnicas.

Léon Denis: “Dadas as flutuações constantes e a renovação integral do corpo físico, em alguns anos esse fenômeno seria incompreensível sem a intervenção do perispírito, que guarda em si, gravadas na sua substância, todas as regressões de outrora. É ele que fornece à alma a soma total dos seus estados conscientes, mesmo depois da destruição da memória cerebral”. – O Problema do Ser, do Destino e da Dor.

Léon Denis: “A união da alma com o corpo começa com a concepção e só fica completa na ocasião do nascimento. É o invólucro fluídico que liga o Espírito ao germe; essa união vai se apertando cada vez mais, até tornar-se completa e isto se dá quando a criança vê o dia. No intervalo da concepção ao nascimento as faculdades da alma vão pouco a pouco, sendo aniquiladas pelo poder sempre crescente da força vital recebida dos geradores, que diminui o movimento vibratório do perispírito, até o momento em que o Espírito da criança fica inteiramente inconsciente. Esta diminuição vibratória do movimento fluídico produz a perda da lembrança das vidas anteriores. – O Grande Enigma.

André Luiz: “... De outras vezes, raras aliás, tive notícias de amigos que perderam o veículo perispiritual, conquistando planos mais altos”. – Libertação.


Comecemos pela afirmativa de Denis, acerca da causa do esquecimento das vidas passadas ser a diminuição vibratória do perispírito. Ora, não temos centenas de crianças que lembram com clareza de suas encarnações passadas? Tendo todas elas passado pela redução perispiritual e recebido densa cota de fluido vital, como explicar o não esquecimento? Em casos tais há que se admitir que o esquecimento não se fez completamente. Ao reencarnar, o Espírito conservou suas lembranças, externando-as no estado de vigília, de vez que o cérebro físico nada grava, servindo apenas como um receptor de imagens a ele passadas pelo cérebro perispiritual nele entranhado.

Por que será que tantos autores insistem em considerar o perispírito e não o Espírito a sede da memória? Quem recorda é o Espírito ou o perispírito?

Acreditando ser o Espírito o princípio inteligente do universo, há que se admitir que tudo que demonstre sinal de inteligência procede dele. Ocorre que, ao pensar, o Espírito deixa transparecer em seu perispírito, qual ocorre com a superfície de um espelho, as imagens, cenas, os mais secretos pensamentos que alimenta. Mas, gravaria em definitivo todas essas cenas, ou apenas aquelas que são preocupações do momento? Seria o perispírito um arquivo de memória de tudo quanto pensa o Espírito ou funcionaria apenas como um revelador dos pensamentos do agora? Vejamos Kardec, em sua obra “A Gênese”:  “Um decapitado se apresenta sem a cabeça. Não quer isso dizer que haja conservado essa aparência; certo que não, porquanto como Espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho, nem decapitado; o que se dá é que, retrocedendo o seu pensamento à época em que tinha tais defeitos, seu perispírito lhe toma instantaneamente as aparências, que deixam de existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir naquele sentido. Se, pois de uma vez ele foi negro e branco de outra, aprsentar-se-á como branco ou negro conforme a encarnação a que se refira a sua evocação e à que se transporte o seu pensamento”. “... Criando imagens fluídicas o pensamento se reflete no envoltório perispirítico, como num espelho; toma nele corpo e aí de certo modo se fotografa.”

Em “O Livro dos Espíritos”, em resumo feito por Kardec, no qual ele enfatiza que interrogara milhares de Espíritos pertencentes a todas as categorias da sociedade terrena, cujo título é “Ensaio Teórico Sobre a Sensação nos Espíritos”, ele cita: “Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria o princípio da vida orgânica, mas não da vida intelectual, pois esta está no Espírito.” E mais adiante, no mesmo ensaio, referindo-se ao perispírito: “Ora, como na realidade ele não é mais que um agente de transmissão, pois é no Espírito que está a consciência.” Se a consciência, que possibilita a individualidade, sendo esta o conjunto de características que nos diferencia dos demais indivíduos, resumo de tudo quanto aprendemos, encontra-se no Espírito, não pode o perispírito gravar as nossas aventuras; apenas traduzi-las por ordem do Espírito, verdadeiro detentor do conhecimento. O pensamento, com todo o conteúdo de que se reveste, tem gênese no Espírito. A inteligência é um atributo do Espírito. Seria difícil explicar como este, possuidor de inteligência, emissor do pensamento e plasmador da vontade, não viesse a guardar em si o resultado de seus próprios atributos.

A explicação de Kardec aponta no sentido que aludimos, ou seja, o perispírito revela os pensamentos e as intenções a que se vinculam os Espíritos no presente momento. Quando se transportam ao passado pelo pensamento, fazendo-o presente, o perispírito os acompanham, revelando aventuras e infortúnios evocados pelo pensar, que são expostos em imagens cinematográficas de surpreendente clareza e vigor.

Assim pensando, não podemos considerar o perispírito como arquivo de memórias, de vez que elas só seriam reveladas mediante a liberação da sede que as retém, o Espírito. A ideia de um arquivo é a de uma repartição ou móvel destinado a colecionar documentos. Admitindo o perispírito como refletor da memória psicológica e preocupações a que o Espírito se apega, ele jamais seria um arquivo de memórias. Ocorre que os Espíritos, às vezes, se paralisam, alimentando uma mesma ideia (a vingança por exemplo) durante séculos, no que imprimem seu drama fortemente no perispírito. Todavia, mesmo por séculos, aquela é a preocupação do momento.

Certa vez atendi a um casal de escravos que odiava com todas as suas forças a um frequentador do Centro Espírita onde trabalho. Este sofria de crises epilépticas e ataques de loucura, no que era acorrentado por seus pais. O casal de escravos, enquanto encarnado, fora violentado sexualmente pelo atual perseguido, ocasião em que foi despido e amarrado a um tronco, sofrendo ambos as mais cruéis humilhações. Após o ato consumar-se a mulher afogou-se no rio cometendo suicídio e seu companheiro morreu de violenta surra. Ambos perseguiam a mesma pessoa no presente, mas nem sequer se viam um ao outro. A ideia fixa de vingança tirava-lhes a noção de tempo e de espaço, a tal ponto de um deles argumentar frente à informação de que aquele drama se passara há mais de um século: o que é isso meu senhor! Eu saí agora há pouco do tronco! Veja minhas carnes ainda estão marcadas.

A ideia dominante nos dois era a humilhação pela qual passaram e queriam vingança a qualquer custo. O drama já se perdera no tempo para todos nós, mas para eles era atual como hoje. Apenas a dor e o sentimento de vingança os envolviam. Natural nesse episódio que as cenas da humilhação ficassem petrificadas em suas mentes; e em cores vivas em seus perispíritos.

Todavia, o que se vê nas reuniões de desobsessão nem sempre se enquadra nesse raciocínio. Quando um Espírito necessita passar por uma regressão de memória, o que ele geralmente rejeita, todo o seu passado vem à tona sugado por força irresistível, desnundando-lhe as entranhas, revelando fatos que ele tudo faz para esquecer e fugir. Em tais ocasiões ele pode reviver seus crimes como se os estivesse praticando naquele momento. É uma volta ao local e as ações do passado. Esse tipo de regressão profunda, esse mergulho nos séculos, é bastante comum no cotidiano das reuniões de desobsessão, entendendo-se que o comunicante foi magnetizado, recebeu a ordem hipnótica de regredir e a atendeu voltando ao ponto traumático de sua vida. Mas casos há em que o comunicante apenas vê cenas de sua vida no condensador ectoplásmico (espécie de tela fluídica à semelhança de um espelho). Tais imagens, passadas ou presentes, são projetadas sem a concordância do Espírito, que em livre consciência as evitaria. Poderiam os técnicos em leitura perispiritual recolher tais imagens, que mesmo camufladas são apanhadas e expostas?

Não seria o vampiro citado por André Luiz, em sua obra “Nosso Lar” um caso assim? Lá o autor se compadece de uma mulher sofrida que pede abrigo, ocasião em que alguém de visão espiritual mais apurada detecta 58 pontos negros no perispírito da pedinte, os quais correspondiam a 58 abortos que ela praticara como profissional da medicina. Como a mulher trazia o crucial problema gravado a fogo em sua mente, nada mais natural que “essa preocupação” se refletisse em seu perispírito, podendo ser transportado para uma tela mediante a atuação de um técnico. Quando pela lei de causa e efeito essa mulher quitar seus débitos para com a lei, pacificada a sua consciência, de mente voltada para outros objetivos nobres, será que esses pontos negros, resumo de uma história e tempo já superados e esquecidos, se manterão no perispírito como atestado desabonador de outrora?

Trabalho em uma escola com adolescentes e alguns deles cometem atos impensados e até cruéis. Mas, superados os tropeços, recuperados plenamente, deveria eu fazer constar em seus históricos escolares os atos tresloucados, frutos da imaturidade de outrora, que já não correspondem à realidade?

Quando o aluno já aprendeu a lição há necessidade de recapitulação? Poderia o perispírito fulgir como as estrelas guardando em sua intimidade um arquivo morto sem nenhuma utilidade? Como capturar cenas de um passado malogrado se o Espírito ao se elevar pela prática da justiça e bondade já incorporadas às suas conquistas, não pensa nem age como outrora quando era injusto e mau? Purificação, depuração, não seriam condições de alijamento de todo e qualquer resquício de um passado inglório? Condicionando-se a pensar no bem, acostumado a andar na luz, teria condição o Espírito de mostrar alguma treva em si mesmo?

Na parábola da festa de núpcias, contada por Jesus, o dono da casa pergunta: Amigo, como entraste aqui, não tendo vestido nupcial? É que o perispírito do visitante não lhe servia como passaporte para aquele tipo de banquete. Como agente revelador das condições morais, não ostentava a leveza nem a luminosidade condizentes com um convidado do Senhor. Daí a não aceitação da sua presença, por incompatibilidade vibratória; pela ausência de méritos e de luz. Se o perispírito fosse também a sede ou simplesmente o arquivo da memória psicológica, como explicar o não registro das primeiras encarnações do Espírito? Claro está portanto, como se pode ler em “O Livro dos Espíritos”: O perispírito... é o princípio da vida orgânica, porém não o da vida intelectual, que reside no Espírito. “Ora não sendo o perispírito, realmente mais do que um simples agente de transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência, lógico será deduzir-se que, se pudesse existir um perispírito sem Espírito aquele nada sentiria, exatamente como um corpo que morreu.”

O perispírito é um corpo em tudo dependente do Espírito que o comanda e modela. Gravam-se nele as lembranças do momento, efetuadas pelo Espírito, que as modifica conforme sua vontade. Sede e arquivo da memória é o Espírito; se assim não fosse, poder-se-ia extrair (caso existisse) de um perispírito sem Espírito toda a história de vida do seu antigo possuidor. 

Tudo quanto se quer e pode saber acerca de um Espírito qualquer vem de sua mente; é lá que reside todo o conhecimento, conquistas, memória. Se ele quiser, deixa retratar em seu perispírito sua condição espiritul, caso seja elevado, pois pode tornar-se invisível para os que lhe são inferiores. De outra feita, sendo ainda inferiorizado, seu perispírito funciona como cartão de identidade de sua indigência, a mostrar em cores as suas preocupações e futilidades maiores.

De tudo quanto tenho pesquisado, não há como desmentir a hipótese de que a sede da inteligência, do pensamento, da vontade, e do resultado de tudo isso, a memória, tem sua sede no Espírito. Detendo a inteligência, sendo o construtor, emissor e receptor do pensamento, energia que cria e transforma, repassa para o perispírito seus desejos e emoções, que os fotografa, expressando assim o mundo interior que o caracteriza.

Diz-se ainda que com a evolução espiritual, o perispírito vai se tornando etéreo até que desaparecem suas camadas mais grosseiras. Analisemos alguns apontamentos extraídos aqui e li da obra de Kardec, adicionando o “negrito” onde a argumentação nos parecer mais convincente.

- Haverá mundos onde os Espíritos deixando de revestir corpos materiais, só tenham como envoltório o perispírito?
- Há e mesmo esse envoltório se torna tão etéreo que para vós é como se não existisse. Esse é o estado dos Espíritos puros.

“Sabemos que quanto mais eles se purificam, tanto mais etéreo se torna a essência do perispírito, donde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito progride, isto é, à medida que o próprio perispírito se torna menos grosseiro.”

“Dizendo que os Espiritos são inacessíveis às impressões da matéria que conhecemos, referimo-nos aos Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não encontra analogia neste mundo.

“Hão dito que o Espírito é uma chama, uma centelha. Isto se deve entender com relação ao Espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, a que se não poderia atribuir forma determinada. Mas, qualquer que seja o grau em que se encontre o Espírito está sempre revestido de um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza, à medida que ele se depura e eleva na hierarquia espiritual.”

“Essa igualmente a forma de todos os Espíritos não encarnados, que só têm o perispírito;  a com que, em todos os tempos, se representaram os anjos, ou Espíritos puros. Devemos concluir de tudo isto que a forma humana é a forma de todos os seres humanos seja qual for o grau de evolução em que se achem.”

- Se a forma humana é a mesma isso prova que o perispírito não desaparece, pois o Espírito em si não tem uma forma.

“A natureza íntima do Espírito propriamente dito, isto é, do ser pensante desconhecemo-la por completo. Apenas pelos seus atos ele se nos revela e seus atos não nos podem impressionar os sentidos, a não ser por um intermediário material. O Espírito precisa, pois da matéria, para atuar sobre a matéria.”

De que adiantaria ser um Espírito Superior, sem perispírito, impossibilitado de atuar em um mundo qualquer, desde que com algum grau de materialidade? Nesse caso, o Espírito totalmente desmaterializado só poderia agir em um mundo imaterial, se é que existe algum no universo. Isso seria elitizar, excluir, marginalizar a retaguarda, da convivência com aqueles que podem e querem ajudá-la. Tal raciocínio é incoerente com o poder que o Espírito vai adquirindo com a sua evolução; inclusive vai ao encontro da definição poética de Jesus para com o ser inteligente: “O Espírito vai onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem aonde vai”. Isso quer dizer que, todos os mundos são acessíveis aos Espiritos superiores; que para cumprirem suas missões de auxílio aos mais sofredores necessitam de um veículo de manifestação para se fazerem entender.

Em “O Evangelho segundo o Espiritismo” podemos ler: “Em grau mais elevado, é diáfano e quase fluídico. Vai desmaterializando-se de grau em grau e acaba por se confundir com o Espírito... O próprio perispírito passa por transformações sucessivas, torna-se cada vez mais etéreo, até a depuração completa, que é a condição dos puros Espíritos.
 
No livro “O que é o Espiritismo” lê-se: “Quando a alma está unida ao corpo, durante a vida, ela tem duplo invólucro: um pesado, grosseiro e destrutível – o corpo; o outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito.

Podemos resumir toda essa problemática com as respostas dadas a Kardec pelos Espíritos, por ocasião das seguintes indagações:

- Como podemos apreciar a liberdade do Espírito durante o sono?
- Pelos sonhos. Crede, enquanto o corpo repousa, o Espírito dispõe de mais faculdades do que em vigília. Tem o conhecimento do passado e, algumas vezes, previsão do futuro. ... (pergunta 402).

- Por que não nos lembramos sempre dos sonhos? (pergunta 403).
- No que tu chama de sono, só há o repouso do corpo, porque o Espírito está sempre em movimento. Aí ele se recobra um pouco de sua liberdade e se corresponde com aqueles que lhe são caros, seja neste mundo, seja em outros. Todavia, como o corpo é matéria pesada e grosseira, dificilmente ele conserva as impressões que o Espírito recebeu, porque este não as recebeu pelos órgãos do corpo.

Isso encerra a questão. Não há esquecimento do passado senão enquanto o corpo está em vigília, devido ao bloqueio imposto pela matéria. A condição de encarnado não retira as lembranças passadas; o estado de vigília sim. Neste a memória profunda está bloqueada pela supremacia da memória imediata (a que corresponde ao estado de vigília). Os eventos vividos pelo Espírito na condição de liberdade gerlmente não são repassados ao cérebro físico, razão pela qual ele desconhece pela manhã o que fez durante o sono.

Podemos então, através desse raciocínio, imaginar que, se a redução perispitual levada a efeito pelos técnicos para que haja o reencarne favorece o esquecimento, logo que o perispírito volta ao seu tamanho natural, aquele se desfaz. Desdobrado do corpo durante o sono o Espírito domina suas vidas passadas. Voltando ao corpo ele não perde esse conhecimento, apenas não consegue mantê-lo “vivo” Por causa do predomínio da matéria que obscurece as lembranças.

Desdobrado, a qualquer instante, o Espírito volta a ter domínio sobre sua memória mais recente. Conclui-se assim que o impede o Espírito de lembrar suas vidas passadas nos instantes de vigília não é a redução da vibração perispiritual, mas a falta de sincronia por parte dos cérebros físico e perispiritual no que se refere aos eventos observados.

O cérebro físico oferece um bloqueio para as informações não passadas por ele, não permitindo ao Espírito manifestá-las em vigília. Se o Espírito sai do corpo lembra os fatos passados; entrando nele os esquece. Logo o Espírito não passa por um esquecimento no real sentido da palavra, de vez que lembra ao desdobrar-se de sua história de vida. Apenas tem sua memória espiritual bloqueada (banco de dados passados) para não interferir na gravação da memória atual.

Encontra-se o Espírito na condição de encarnado, à semelhança de um mergulhador que sob densa camada de água tem seus movimentos tardos e a visão turvada, sem comunicação com a superfície, ou seja, sem contato com a sua memória pré encarnatória. Quando sai da água adquire a condição de liberdade. O corpo denso é apenas um abafador, um amortecedor, um redutor do dinamismo espiritual, limitando-o a um plano de dificuldades a serem superadas e aprendizagens a serem vencidas. Entrar e sair nesse mar todos os dias é pois um exercício penoso e necessário para o Espírito, que a cada ida e volta sente a alegria da liberdade e as agruras da prisão.

É por esta razão que consideramos o corpo físico como o veículo de manifestação do Espírito no mundo material e o perispírito, veículo de manifestação do Espírito no mundo espiritual. De que adiantaria ao ser pensante dominar toda a ciência sem ter como repassá-la por falta de um veículo de manifestação?

Para que uma informação chegue ao Espírito, ele a recebe via cérebro perispiritual enquanto desencarnado. Encarnado, em vigília, qualquer mensagem passa pelos cérebros físico e perispiritual. Se apenas o cérebro perispiritual recebe a mensagem, o Espírito, ao retornar ao corpo denso, utilizando agora um cérebro que não tomou conhecimento do ocorrido, não lembrará do fato. Esse é o bloqueio. Só quando a mensagem passa pelos dois cérebros, carnal e perispirítico, chegando à sede que é o Espírito, ele tem o completo domínio da memória na condição de encarnado em vigília.

Observa-se esse fenômeno nos médiuns chamados inconscientes. O comunicante atuando em seu perispírito não faz chegar a mensagem ao cérebro físico do intermediário. Este, ao sair do transe geralmente não lembra nada do ocorrido. Apenas nos médiuns conscientes, onde a mensagem lhes chega ao cérebro físico, há lembranças do que foi tratado.

Resta-nos um questionamento ainda. Quando um Espírito passa de um mundo para outro, ele muda de envoltório, dizem os Espíritos. Em primeiro lugar, precisamos distinguir a substância de que é feito o perispírito, do perispírito em si. Vejamos a pergunta 187 de “O Livro dos Espíritos”.  A substância do perispírito é a mesma em todos os mundos?”. Não. Respondem os Espiritos a Kardec: “Ela é mais ou menos etérea. Passando de um mundo para outro o Espírito se reveste da matéria própria de cada um com mais rapidez que o relâmpago.” O Espírito muda a substância de que é composto o perispírito, com a finalidade de adaptar-se àquela nova situação. Sem os fluidos do planeta que aporta, o seu perispírito não se ajustaria às novas condições, ficando impossibilitado de receber as impressões daquele mundo, por inadequação da aparelhagem perispiritual.

Ele não troca de perispírito, o que seria absurdo, por implicar um novo começo na elaboração da memória biológica já conquistada. Com a simples troca de fluidos, ele pode adaptar-se a cada mundo, conservando as suas conquistas. Essa adaptação, todos sabemos, não é brusca, mas gradativa, pois quando deixamos um planeta por méritos, nosso perispírito já se encontra praticamente nas condições adequadas a conviver em um outro mundo superior ao qual estamos destinados.

Esse procedimento não provoca choques na memória biológica que já é inerente ao perispírito, nem desequilíbrio na memória intelectual do Espírito, que não teme inadaptação científica, filosófica ou moral do novo ambiente. Depois desse exercício mental, podemos enfim perguntar: o Espírito, quando atinge o estado de pureza, permanece com o perispírito ou terá se despojado dele? Voltemos a “O Livro dos Espíritos”, em sua pergunta 188: “Os Espíritos puros habitam mundos especiais ou estão no espaço universal sem estarem mais ligados a um mundo que a outro? Resposta: Os Espíritos puros habitam certos mundos mas não são confinados neles como os homens sobre a terra; eles podem, melhor que os outros, estarem por toda a parte.”

Se tais Espíritos podem ir a toda parte, no seu afã de auxiliar seus irmãos menores, necessitam trocar de envoltório quando passam de um mundo para outro, embora que o façam com a rapidez do raio. Se eles não tivessem mais perispíritos não poderiam atuar nos mundos que lhes são inferiores, nem se comunicarem com seus habitantes. Se o fazem é porque revestem-se dos fluidos do ambiente que visitam, e se são revestidos, é porque a sua antiga forma, embora altamente etérea, permanece, podendo receber a substância que lhe possibilita atuar no cenário do mundo escolhido.

Tal raciocínio nos parece lógico. Pelo menos, mais coerente com a solidariedade que o maior deve ter para com o menor, no sentido de ajudá-lo. Sem o perispírito, seria o descanso eterno, pois já não haveria como manifestar-se aos pobres imortais da retaguarda. E isso é incompatível com as leis de amor e caridade, cuja representação e defesa devem ser intransigentes e mais fortes entre os Espíritos Superiores.

Podemos concluir dizendo que o perispírito é um corpo que sempre acompanha o Espírito. Sem esse envoltório seria impossível a este manifestar-se no plano material e espiritual. Que a sede da inteligência, do pensamento e da vontade é o Espírito. Que este, ao mudar de mundo, troca apenas de substância perispiritual, ou seja, reveste a sua fôrma com os fluidos do planeta onde se encontra. Que este corpo tem uma memória biológica, cujo acervo de automatismo gera o instinto, espécie de inteligência não racional, mas que é também capaz de registrar em sua intimidade fatos ocorridos com o Espírito, no  que se refere às suas preocupações do momento. Que não devemos, em nenhuma hipótese, deixar que caia a noite sobre nossas cabeças, sem que a nossa cota de trabalho efetuada no limite das forças tenha sido cumprida, para que este corpo se ilumine cada vez mais, quebrando os grilhões que o prendem à matéria densa.

Todavia, o assunto continua em aberto. Nos capítulos que se seguem, o perispírito não será tratado como um bloco ou cartucho único e compacto, mas como nos foi mostrado pelos técnicos insistentemente; como um corpo mental indestrutível, cujas linhas de força orientam e presidem a harmonização e a reagregação dos fluidos perispirituais nos casos de acidentes com este corpo.

 

Um comentário:

  1. Amei este capítulo. Gostaria de saber quais as questões de O Livro dos Espíritos você para escrevê-lo?

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